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Lucas Barreto Dias - 120 - Dezembro de 1969
Verdade e mentira na política
Foto da capa do livro Verdade e política na obra de H. Arendt
Verdade e política na obra de H. Arendt
Autor: Geraldo Adriano Emery Pereira
Editora: Appris - 203 páginas
Foto do(a) autor(a) Lucas Barreto Dias

              Hannah Arendt, ainda que não tenha se dedicado a um exame sistemático do tema da verdade, é constantemente desafiada a pensá-lo quando se vê frente seja aos ideais tradicionais da verdade na política, seja aos riscos de a mentira total dominar o campo público. É este debate que Geraldo Pereira mobiliza para interpretar o pensamento político arendtiano e, penso eu, nossa própria experiência contemporânea. Entre os riscos de uma Tirania da Verdade e de uma Mentira Total, aniquiladores de um espaço público, o livro Verdade e política na obra de Hannah Arendt, resultado da tese de doutoramento do autor, persegue em seus quatro capítulos uma linha interpretativa que questiona limites e excessos do agir político.

            No decorrer da obra, Pereira traça um fio argumentativo que leva em consideração a defesa arendtiana da dignidade da política. Isto significa, em última instância, não fundamentar o mundo a partir de elementos extrínsecos a ele, mas de compreendê-lo a partir de seus condicionamentos internos e suas possibilidades plurais. Assim, em vez de uma preocupação epistemológica com relação à verdade, Arendt a mobiliza em direção ao seu espaço na política, isto é, relativamente aos fatos e levando em consideração a contingência da realidade, a pluralidade humana e o caráter de aparência do mundo. O desafio de Pereira, nesse sentido, é tentar delimitar uma leitura da verdade que não leve ao perecimento do mundo, mas que o proteja. A pergunta que move sua pesquisa é: “Como o tema da verdade, na estrutura da teoria da ação de Hannah Arendt, implicaria a sugestão de elementos indicadores de um horizonte de limite para a ação?” (PEREIRA 2019, p. 144). Há, aqui, tanto uma preocupação com o tema da estabilidade do mundo, quanto em relação à possibilidade da novidade proveniente do agir político da pluralidade humana.

            Se Platão se viu impelido à filosofia política após a condenação e morte de Sócrates na decadente democracia ateniense, Hannah Arendt se percebeu repelida da filosofia pela adesão da decadente República de Weimar ao Nazismo, ao passo que a irrupção para compreender como tudo isso fora possível a conduziu ao campo das reflexões políticas (id., ibid., p. 32). Sua adesão ao pensamento político não poderia, todavia, configurar-se pelas mesmas categorias da tradição que ela viu ruir, as quais, ela julga, tem origem na resposta platônica por meio de uma verdade capaz de normatizar a vida da pólis.

            Se, de um lado, pode parecer desejável que a verdade fundamente as ações políticas, por outro, o seu excesso impõe uma norma a ser seguida e que não aceita o debate plural entre os indivíduos. A “imagem arendtiana de Platão”, como Geraldo Pereira denomina, simboliza o modelo tradicional pelo qual “o Ocidente concebeu e obscureceu a política” (Id., ibid., p. 41) ao reduzi-la a mera administração e governo. No lugar de um espaço em que opiniões sobre o viver junto são apresentadas para debate e persuasão, tradicionalmente foi posto um fundamento epistemológico-racional que conduz a uma “tirania da verdade” e “aponta para a postura antipolítica do filósofo” (id., ibid., p. 49). Segundo Pereira, há aí um caráter excessivo da verdade no espaço público, pois finda por impossibilitá-lo ao configurá-lo sob uma estrutura hierarquizada entre governantes que mandam e governados que obedecem, sem espaço para as opiniões, perspectivas pelas quais o mundo se nos revela e a partir das quais podemos emitir juízos.

            O caráter excessivo da verdade filosófica, todavia, não deve dar lugar à negação completa da verdade. O evento totalitário mobiliza o outro extremo do excesso: a da negação completa da verdade. Aqui, no entanto, não se trata apenas da negação da verdade racional-filosófica, mas uma transformação da verdade fatual para que o mundo corresponda aos ditames de uma ideologia desenraizada do mundo. Trata-se, também neste caso, de um modo paradigmático de dominação dos seres humanos e do mundo, negação da dignidade da política, aquilo que – na conjunção entre propaganda, mentira total, ideologia e terror – possibilitou os campos de concentração.

            Para além de uma crítica da tradição filosófico-política e do evento totalitário, Geraldo Pereira aponta para o fato de que “a verdade fatual, quando ocorre em oposição ao lucro ou satisfação de um determinado grupo, é recebida com uma hostilidade maior que a antiga intolerância à verdade racional”, pois “o que está envolvido é uma disputa pela realidade, ou uma ameaça à sua destruição sistemática” (Id., ibid., p. 175-176). Nestes casos, dizer a verdade é testemunhar o que ocorre e ocorreu no mundo e, nesse sentido, é se posicionar criticamente e, no limite, agir politicamente. Na tese que o autor persegue, há certa “‘atuação’ política da verdade dos fatos” enquanto resistência (id., ibid., p. 151-152).

            Tanto a verdade quanto a mentira, ao se pretenderem totais, acarretam o fim do mundo. A saída, ensaia Pereira, é por uma reavaliação da verdade fatual. A contingência é uma das marcas do mundo, bem como o é a pluralidade, descrita fenomenologicamente por Arendt como a condição da política. Deste modo, a verdade fatual sempre surge como testemunho dos indivíduos, o que lhe confere certa fragilidade na tentativa de manter uma estabilidade e uma memória do mundo. A verdade dos fatos é tão frágil quanto as opiniões, o que não permite que as igualemos, mas, sim, que a coloquemos em um nível de horizontalidade e importância para que haja um mundo minimamente estável para possibilitar a novidade que o agir humano persegue.

            Trata-se de não sucumbir aos excessos da verdade e da mentira, mas, sobretudo, cabe perceber que, nas palavras do autor, “o imodificável da verdade dos fatos parece figurar como uma oportunidade e ocasião para a ‘atuação política’ de um tipo de verdade, que parece ser recepcionada numa ontologia da aparência e da pluralidade”, isto é, a verdade dos fatos. Assim, “a resistência da verdade dos fatos é política na medida em que (...) preserva as condições da ação” (Id., ibid., p. 166-167). Na falta de salvaguardas absolutas, testemunhar os eventos é uma forma de resistir à dominação e tornar possível as opiniões e ações públicas, de modo que a pluralidade, como condição da política, e a liberdade, como seu sentido, possam existir.

            Geraldo Pereira, portanto, contribui com uma obra de vasta pesquisa bibliográfica e argumentos muito bem encadeados; elenca problemas teórico e reais e, como deve ser uma obra de filosofia, certamente nos faz pensar. O livro se destina, de um lado, à comunidade arendtiana especializada e aos que buscam uma leitura complementar para interpretar o pensamento de Arendt, mas, para além do interesse acadêmico, trata-se de uma obra que propicia uma bela reflexão sobre nossa situação política contemporânea.

 

LUCAS BARRETO DIAS é professor de filosofia do IFCE

 


Lucas Barreto Dias
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