Tudo é Hamlet
Estudioso russo faz descrição exuberante da tragédia de sombras de Shakespeare |
A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca
Lev Semenovitch Vigotski
Tradução: Paulo Bezerra
Martins Fontes (Tel. 0/xx/11/239-3677)
256 págs., R$ 22,00
OTAVIO FRIAS FILHO
"Aqueles que descobrem muita coisa em Hamlet demonstram mais uma bagagem própria de idéias e imaginação do que a superioridade de Hamlet."
V. A. Jukovski, citado por L.S. Vigotski
Mesmo "Hamlet" tem seus detratores ilustres. Voltaire e Tolstói, que não gostavam de Shakespeare, não gostavam tampouco de sua maior tragédia. No século 20, ficou famoso o veredicto de Eliot, que a chamou de "fracasso artístico". As objeções são mais ou menos conhecidas. O enredo é prolixo e confuso, há subtramas em excesso, frouxamente amarradas entre si. Muitas vezes, já esquecêramos por completo de um dado personagem, tão prolongada fora sua ausência em cena, quando o vemos reaparecer do nada.
Não existe, em "Hamlet", a ação consecutiva e fulminante que vemos em "Otelo" ou, mais ainda, em "Macbeth". Na tragédia de Hamlet, a maior parte da ação ocorre fora de cena, antes da peça ou longe dos olhos do espectador. O efeito é acentuado pelo protagonista, adepto e vítima da inércia, que contamina a peça com seu melancólico temperamento, fazendo-a incorrer em seu próprio sarcasmo contra os livros: "Palavras, palavras, palavras". Embora admiráveis, há solilóquios em demasia. E, quando os acontecimentos enfim se desatam, seu curso é tão excessivo e destrambelhado que eles poluem a última cena, deixando o palco comicamente juncado de cadáveres.
Concorde-se ou não com esse gênero de objeções, "Hamlet" resiste como a mais profunda e misteriosa das peças de Shakespeare. Seu prestígio cresceu conforme o herói solitário, incompreensível e irônico -o herói hamletiano- se tornava o paradigma da literatura moderna. Nesta, o que o herói diz ou faz não corresponde ao que ele pensa ou quer: há um lapso de decifração, pois a obra implica camadas ocultas, significados intransparentes. No caso de Hamlet, o enigma que há séculos vem ocupando críticos, filósofos, escritores, atores e amantes do teatro é saber por que, tendo tão fortes razões para agir, ele hesita.
Crítica de leitor
Ao abordar o problema, Lev Semenovitch Vigotski (1896-1934), estudioso russo que trabalhou na intersecção entre psicologia e literatura, sob um enfoque modernista, adota o que ele chama de "crítica de leitor". Ao contrário de repelir, Vigotski preconiza o caráter "diletante" dessa crítica, voltada a fixar as impressões geradas por uma leitura imaginativa que descarta padrões acadêmicos e ângulos especializados. As notas do autor, editadas na forma de apêndice, dão mostra de seu impressionante conhecimento sobre a bibliografia do assunto, além de estipular nexos interessantes entre a tragédia e o romance russo do século 19. Elas informam o ensaio sem que este se desvie, porém, da leitura livre e pessoal que o autor insiste em fazer da peça.
O pressuposto de Vigotski é que não há interpretações "corretas" de uma obra literária, mas que muitas delas podem coexistir de modo igualmente legítimo. Cada uma estava latente no original até que uma determinada leitura a tenha fecundado e feito eclodir; o leitor -todo leitor- participa da autoria.
O sentido de qualquer obra é indeterminado, ou melhor, só pode ser determinado pelo plano da obra mesma, por sua dinâmica interna, a qual somente a experiência, aliás incomunicável, de ler torna acessível. O crítico não pode "traduzir" o sentido de "Hamlet", mas tão-somente recriar essa intraduzibilidade em outros termos, comentando-a. Os estudantes de letras sabem o quanto concepções de crítica semelhantes à de Vigotski fizeram carreira e predominam, hoje, no meio universitário.
No ensaio, o crítico russo tece uma descrição exuberante dessa tragédia de sombras. O maior elogio que se lhe pode fazer é que a leitura de seu texto amplia e melhora a da peça. Ele estabelece que Hamlet, por intermédio do fantasma de seu pai, está a meio caminho entre este mundo e o outro, tendo provado, assim, a experiência da superfluidade do tempo, raiz de sua inatividade -tudo é vão, "o resto é silêncio". Vigotski chama a atenção para passos despercebidos: não há prova de que a rainha soubesse do crime cometido por Cláudio; a morte de Ofélia é um suicídio pela metade; a "peça dentro da peça" faz deslanchar o enredo porque ela não só denuncia Cláudio perante Hamlet, mas também Hamlet perante Cláudio. Há momentos inesquecíveis, como a passagem em que ele qualifica as cenas de loucura de Ofélia como "abismos da poesia, suas últimas profundezas, que nenhum raio pode iluminar".
No entanto, sobre a célebre hesitação de Hamlet, quase tudo o que Vigotski tem a dizer é que "assim requer a tragédia". Essa fórmula se repete, solene e rebarbativa, ao longo do ensaio inteiro, utilizada como abracadabra para (não) explicar cada ponto problemático. O a priori crítico de Vigotski é mais sagaz e compreensivo do que o de qualquer predecessor, ele simplesmente lança em ridículo, dada a complexidade de seu comentário (que entretanto se esquiva de solucionar o quebra-cabeça), todo arauto de alguma "verdadeira" explicação sobre o enigma de Hamlet. Mas existe um preço a pagar por tamanho relativismo, por tanta inapetência já não para agir, como em Hamlet, mas para interpretar!
É oportuno contrapor a "interpretação" de Vigotski à de Freud, contemporânea e oposta à sua. Em matéria de arte, o pensamento de Freud é pré-moderno: ele não só acredita que a obra é expressão de angústias biográficas, recalcadas no psiquismo do artista, como crê que seu sentido é unívoco, desde que disponhamos do instrumental apto a decifrá-lo. Vitoriano e científico, Freud pensava que uma obra será tanto mais universal quanto mais a angústia do autor expressar certa angústia estrutural na mente humana, capaz de se reproduzir à revelia de época e lugar.
Hamlet em negativo
A interpretação de Freud sobre Hamlet é tão audaciosa e explicativa -ela elucida numa só tacada tantas questões de outro modo insolúveis, disfarçadas na trama sob espessa retórica metafísica- que a melhor forma de criticá-la seria dizer que Freud errou, ao contrário, não ao decifrar Hamlet, mas ao basear toda uma concepção da natureza humana num caso particular, o do príncipe dinamarquês. Em resumo, o que Freud diz é que a inação de Hamlet é determinada pelo fato de que o herói hesita em matar um homem, Cláudio, por ter praticado exatamente o que ele, Hamlet, sempre desejou fazer, ou seja, assassinar seu pai e casar-se com sua mãe. Hamlet odeia Cláudio, vê se levantarem contra o tio-padrasto todas as forças de sua culpa e, no entanto, permanece inerte, pois matar Claúdio seria matar o que resta de Hamlet recalcado em Hamlet. No modelo freudiano, Hamlet é a contraprova, o negativo, por assim dizer, do qual Édipo seria o positivo -o romance familiar de ambos é o mesmo, que não é outro senão o de cada ser humano.
Eterno estraga-prazeres, Freud removeu a crosta "filosófica" acumulada sobre o mito de Hamlet, dissipando ao mesmo tempo sua misteriosa e elevada magia, para reduzi-lo a simples caso clínico. Com Freud, tudo vai para seu devido lugar: a indecisão de Hamlet é resultado de um choque de forças psíquicas equivalentes; incapaz de superar a fixação na mãe, ele não consegue, tampouco, amar Ofélia. Esta enlouquece vítima de seu "Édipo" particular, pois o homem que ama (Hamlet) é o assassino de seu pai. O tema da tragédia passa a ser o das contradições entre os impulsos do psiquismo primário e sua repressão, exigida pela vida em sociedade. Freud matou, como Édipo, a charada da Esfinge.
Ora, já estamos suficientemente impregnados da concepção que norteou Vigotski para acreditar nisso. Hamlet é muito mais vasto do que a explicação de Freud, por maravilhosa que ela seja. O provável é que as fabulações do criador da psicanálise passem e que Hamlet continue, não obstante, a desafiar o espírito humano, do qual ele será sempre a síntese sem que se saiba bem o porquê. Já nos acostumamos, de toda forma, a entendê-lo assim. O ponto é outro: cada época inventa o seu Hamlet. E, assim como no século passado ele era o dos românticos, o da nossa época é o de Freud. Em linguagem vigotskiana, ele fez a mais fecunda leitura da tragédia no século 20, a ponto de transformar-lhe a sublime poesia em nota de rodapé de sua própria prosa.
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Otavio Frias Filho é jornalista, autor teatral e diretor de Redação da Folha.