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Fernão de Oliveira dos Santos Cruz - 117 - Junho de 2018
As abelhas viciosas do Dr. Mandeville
Apenas os tolos se esforçam para tornar honesta uma grande colmeia
Foto da capa do livro A fábula das abelhas
A fábula das abelhas
Autor: Bernard de Mandeville
Tradução: Bruno Costa Simões
Editora: Unesp - 412 páginas
Foto do(a) autor(a) Fernão de Oliveira dos Santos Cruz

A fábula das abelhas ou vícios privados, benefícios públicos, de Bernard Mandeville, holandês radicado na Inglaterra, é inegavelmente uma obra da maior importância para quem se interessa pela moral e a política do Século das Luzes. Pouco conhecido entre nós, o livro circulou amplamente no meio intelectual da chamada Ilustração, acendendo calorosos debates entre os filósofos da época. Não é exagero dizer que as teses de Mandeville constituíram um dos centros em torno dos quais gravitou boa parte do pensamento político e moral moderno. Sua doutrina repercutiu sobre as obras de clássicos como David Hume, Adam Smith e Jean-Jacques Rousseau, e, posteriormente, foi objeto de atenção de pensadores tão diversos quanto Friedrich Hayek e Karl Marx.

Publicada pela primeira vez em 1705, ainda sob o título de A Colmeia Ranzinza ou de Canalhas a Honestos, a Fábula não teve inicialmente maiores repercussões. Tratava-se, então, apenas do que hoje constitui uma parcela de sua primeira parte: um poema satírico que retrata a vida de uma próspera e poderosa colmeia de abelhas egoístas e viciosas, movidas apenas pelo interesse próprio. Cansados de tanta corrupção, os cidadãos dessa nação rogam aos deuses pela eliminação completa do vício. De tanto amolarem as divindades com suas súplicas, são atendidas. A transformação, no entanto, não resulta no que se esperava: antes competitivas e industriosas, as abelhas caem na letargia; a colmeia, onde até então as ciências e nas artes floresciam, declina até se tornar insignificante. A moral da história: “apenas os tolos se esforçam para tornar honesta uma grande colmeia”, pois, sem “grandes vícios” é impossível a uma nação alcançar a grandeza e “viver no conforto”.

O poema foi amplamente pirateado e vendido. E, mesmo não tendo causado muito ruído, uma nova edição foi lançada em 1714. Foi então que a obra recebeu seu título atual, juntamente com o acréscimo das Observações ao poema; além de um texto em prosa, intitulado Uma investigação sobre a origem da virtude moral. O barulho viria mesmo a partir 1723, quando foram incorporados ao texto um Ensaio da Caridade e das Escolas de Caridade, Uma Investigação sobre a Natureza da Sociedade. A nova edição foi denunciada pelo Grande Júri de Middlessex, sob a acusação de que sua doutrina propagava a infidelidade e a “corrupção de todos os costumes”. Meses depois, argumentando na mesma linha um certo Lord C. publicou no London Journal uma carta “ofensiva”, atacando violentamente o livro e seu autor. A carta quanto a denúncia foram posteriormente incluídas no livro e devidamente respondidas. Não é exagero dizer que o tiro dos defensores da virtude saiu pela culatra: os ataques motivaram a escritura de uma segunda parte da Fábula, expondo sob nova forma sua doutrina na forma de diálogos. A partir de então, não faltaram reedições e traduções do livro, que circularam amplamente pela Europa.

Se o livro deu tanto o que pensar, foi, em grande medida, devido ao conteúdo nada ortodoxo de suas teses. Herdeiro de Hobbes, Pierre Bayle e dos moralistas franceses, Mandeville era também médico. Esse fato, aparentemente menor, parece ter infletido sobre sua filosofia, conferindo-lhe a perspectiva naturalista que é uma de suas características. Em seus textos, pode-se acompanhar os desdobramentos de uma história hipotética que mostra como o homem, cuja ação tem por princípios as paixões e os apetites, tornou-se capaz de viver em sociedade. Trata-se de uma história natural da vida em sociedade que reconstitui como a sociabilidade e sua ordenação moral constituíram-se, a partir de tais princípios. A dificuldade reside justamente no fato de que a moralidade implica algum grau de interesse pelo bem público, mas as paixões são sempre auto-interessadas, conforme à concepção de Mandeville. É por meio de um complexo manejo dessas forças, de um jogo complicado entre diferentes interesses egoístas, que a vida social é tecida. Mas, não basta aos olhos do autor, estabelecer um convívio pacífico entre os diversos egoísmos; o interesse da sociedade reside em grande medida no florescimento da economia, das ciências e das artes. Por isso, longe defender a supressão do auto-interesse, o que essa filosofia pretende mostrar a importância de seu redirecionamento para a realização desses fins.

No pensamento mandevilliano, a solução dessa complicada equação depende da intervenção de uma categoria singular de homens: os “legisladores” e os “políticos hábeis”.  “Homens sábios” que, percebendo a necessidade de direcionar o egoísmo com vistas à sociabilidade e à grandeza das sociedades, vão forjar valores morais que apregoam a abnegação. Ora, nada disso teria eficácia sem a produção de uma retórica capaz de nos convencer das vantagens desse sacrifício. Todo homem deseja ser admirado e honrado por seus semelhantes, por isso, o discurso moral irá visar o amor-próprio, a vaidade e o orgulho, seduzindo-os por meio da lisonja e da adulação.

Eis aqui, talvez, a questão que a Fábula deixa como legado: se Mandeville está correto, o homem é irrevogavelmente egoísta; os princípios morais são de suma importância, mas não passam de um artifício político, ancorado num discurso sedutor. Por fim, se é assim, nosso interesse pela virtude é expressão de simples autointeresse. E, no entanto, o resultado dessa maquinaria toda é absolutamente legítimo e desejável.

Não espanta que a Fábula das Abelhas tenha repercutido tanto. Ainda mais, se considerarmos que suas teses são expostas numa linguagem que oscila entre o registro filosófico e o coloquial, em tom malicioso e abusado. Essas características foram, de modo geral, mantidas na competente tradução de Bruno Costa Simões. Se algum reparo pode ser feito à edição brasileira, ele diz respeito à ausência uma introdução que situe o leitor e avise que o volume contém apenas a primeira parte da Fábula. De resto, ela segue o bem conhecido padrão de excelência da Editora da UNESP.

Fernão de Oliveira Salles dos Santos Cruz é professor de filosofia na Universidade de São Carlos.


Fernão de Oliveira dos Santos Cruz
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