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Modesto Florenzano - 5 - Agosto de 1995
A alienação do comunismo
Foto da capa do livro Le passé d´une illusion
Le passé d´une illusion
Autor: François Furet
Editora: Calmann-Lévy - 580 páginas
Foto do(a) autor(a) Modesto Florenzano

Em ``O Futuro de Uma Ilusão" (1927), Freud considerou a idéia de Deus uma ilusão sem futuro. Em ``O Passado de Uma Ilusão", François Furet julga a idéia comunista uma ilusão do passado. O historiador, sentencia Furet no prefácio, ``tem hoje a certeza de lidar com um ciclo inteiramente encerrado da imaginação política moderna, aberto pela Revolução de Outubro, fechado pela dissolução da União Soviética". Curiosamente, não é a primeira vez que Furet anuncia o término de um ciclo. Já em ``Pensando a Revolução Francesa" (1978), seu livro mais importante, decretava encerrada a Revolução Francesa -leia-se a historiografia marxista da Revolução Francesa, que atacava de forma devastadora. Oferecia também uma interpretação alternativa e nova, tomando-a como um fenômeno essencialmente político, como uma linguagem -uma ideologia- autônoma frente ao social e ao econômico. Nos anos 80, o sucesso do livro só aumentou. De um lado, devido ao próprio curso da história (o fracasso do comunismo), de outro, por causa da ausência de interpretações marxistas que respondessem à critica furetiana.

É com essas credenciais que Furet apresenta agora mais um demolidor ``ensaio de interpretação". Desdobramento lógico de ``Pensando a Revolução", ``O Passado de uma Ilusão" completa o ajuste de contas do autor com a revolução e o marxismo-comunismo. Naquele, critica-os enquanto historiografia revolucionária, neste, critica-os enquanto história revolucionária. Com a mesma competência, brilho e espírito polêmico, trata agora da idéia -vale dizer, da ideologia- comunista no nosso século, da situação histórica e da paixão revolucionária que a fizeram nascer -e se tornar sistema totalitário- e das circunstâncias que levaram ambas, idéia e experiência, a sobreviver por tanto tempo, antes de encontrar a morte no final da década de 1980.
Nos seus 12 capítulos, ``O Passado de Uma Ilusão" contém, entretanto, muito mais do que o subtítulo anuncia. São abordados todos os grandes acontecimentos e situações históricas da Europa deste século, sempre interpretados da perspectiva de uma história (das idéias e da filosofia) política e de uma concepção liberal, na esteira de Alexis Tocqueville, Raymond Aron e Hannah Arendt.
O livro começa com as idéias e paixões políticas do século passado e termina com as dos nossos dias. Enfrenta ainda um tema muito caro a Furet: o do intelectual e seu engajamento político. Dado que um número surpreendentemente grande de intelectuais se encantou com o comunismo (a maioria) ou com o fascismo (a minoria), não se pode, diz Furet, ``escapar da questão do caráter ao mesmo tempo geral e misterioso desta sedução ideológica". Ele próprio um intelectual ex-comunista (``Vivi do interior a ilusão da qual busco refazer o caminho...", afirma no ``Prefácio"), não se cansa de perguntar, e ao mesmo tempo de responder, como foi possível que o comunismo seduzisse e mobilizasse tantas gerações de intelectuais no Ocidente.
Furet se debruça sobre vários tipos de intelectual. O comunista desencantado, como Boris Souvarine, que começa dissidente e termina anticomunista; a refugiada do nazismo e combatente do totalitarismo, H. Arendt -um e outro autores de trabalhos pioneiros e insubstituíveis, guias no processo e julgamento que Furet move contra os regimes totalitários.
O comunista fiel ao partido até o último suspiro, como G. Lukács (sobre quem observa: ``O maior filósofo contemporâneo da alienação capitalista ficou toda a vida preso à alienação comunista"); o ``compagnon de route", que, sem ser propriamente comunista, acaba sendo manipulado pelo partido ou pela União Soviética por ser contra o anticomunismo, como é o caso de Romain Rolland. Há, por fim, o intelectual dissidente que é feito prisioneiro, como Alexander Soljenitsin.
Intriga-o que os regimes fascistas (nas décadas de 20 e 30) e a União Soviética (praticamente em toda a sua história) ocupassem, aos olhos de tantos intelectuais estrangeiros, o lugar do futuro, quando, em seu território, imperava a barbárie. Por que, indaga, apesar das críticas de dissidentes, apesar das provas fornecidas pelo próprio Stalin, não vieram à tona o terror e as monstruosidades do stalinismo, ``estágio superior do comunismo", e não se dissipou a ilusão?
Nesse sentido, a década de 30 foi insuperável. Os efeitos da crise do capitalismo, o antifascismo, tão habilmente manipulados por Stalin fizeram com que praticamente todos os intelectuais europeus que não eram fascistas ou comunistas se tornassem filo-soviéticos e anticapitalistas. Pois, enquanto a crise econômica de 29 mergulhava as democracias em uma ``vasta angústia coletiva", a União Soviética punha em prática seu primeiro plano quinquenal e oferecia o espetáculo de uma economia racional, estatizada e planificada, em tudo diferente da capitalista -irracional, privada e anárquica. Nada como um tempo histórico depois de outro: então, a salvação era o Estado, agora é o mercado!
Com agudeza, mas talvez sem se dar conta de que o futuro poderá reservar uma nova inversão, Furet sentencia: ``Não há provavelmente época na história moderna do Ocidente em que o liberalismo econômico tenha sido objeto de uma condenação tão universal: hoje, quando a idéia do mercado reconquistou até mesmo a ex-União Soviética, é difícil imaginar a que ponto ela foi, há pouco mais de meio século, quase unanimemente condenada".
Atuantes desde o século passado, determinados componentes estruturais explicam essas ilusões dos intelectuais. Tais componentes constituem a linha de força e o fio condutor da interpretação furetiana e, também, o aspecto mais original da obra. Trata-se de três elementos que se articulam entre si: o ódio do intelectual -de direita e de esquerda- à burguesia, ao individualismo e ao capitalismo (``em nome da unidade perdida do homem e da humanidade"); o ```superinvestimento da política pela ideologia"; a substituição da providência divina pela divinização da história. São eles que alimentam a paixão revolucionária. Entram em cena a partir da Revolução Francesa; desenvolvem-se ao longo do século 19, mas só se tornam dominantes depois da Primeira Guerra Mundial (e de Outubro de 1917).
Os jacobinos constituem o primeiro exemplo de ``burgueses que detestam os burgueses em nome de princípios burgueses". No primeiro capítulo, um dos melhores do livro, Furet argumenta que o homem moderno vive um drama e uma contradição que, aliás, Rousseau já descobrira: para ser um bom cidadão deve ser um mau burguês, e vice-versa: ``Daí por que uma metade de si próprio detesta a outra metade". Quando chega ao poder, o burguês revela sua verdadeira ambição: ``Instituir um mercado, não uma cidadania".
O que permite a Furet analisar em profundidade a condição espiritual e as concepções burguesas do século 19 (e consequentemente no século 20) é sua familiaridade com o conjunto da crítica que o próprio século 19 elaborou e que ele combina magistralmente, indo da posição de retaguarda aristocrática, própria a Tocqueville, à de vanguarda revolucionária, característica de Marx. E foi Marx, sustenta Furet, quem levou às últimas consequências a substituição da providência divina pela história. Desde então, o homem pensa agir na história sem as incertezas da história, pois o marxismo oferece a um só tempo ``a liberdade e a ciência desta liberdade: não há bebida mais inebriante para o homem moderno privado de Deus". Os jacobinos inventaram uma ``concepção messiânica da política", os bolcheviques tiveram a pretensão de possuir as leis da história.
Mas, diz Furet, se o século 19 foi o responsável pela divinização da história, o nosso século foi -através do comunismo e do fascismo- o responsável pelas ``loucuras políticas nascidas desta substituição": o bolchevismo por ser ``uma patologia do universal" e o fascismo, ``uma patologia do nacional". Furet considera ambos como filhos da Primeira Guerra Mundial. Mas também os toma como filhos do acaso. E explicita sua concepção: ``...A história de nosso século, como a dos precedentes, poderia ter sido outra: basta imaginar por exemplo um ano 1917 na Rússia sem Lênin, ou uma Alemanha de Weimar sem Hitler". Seguindo Aron, defende a idéia de que ``a inteligência de nossa época só é possível se nos libertarmos da ilusão da necessidade". E, o que é mais problemático, também a Primeira Guerra Mundial foi, na sua opinião, ``desencadeada por um acidente".
Por se recusar a explicá-la em termos causais (``quanto mais prenhe de consequências for um acontecimento, menos possível será pensá-lo a partir de suas causas. A guerra de 1914 não escapa à regra"), Furet é obrigado a tratá-la como ``um dos acontecimentos mais enigmáticos da história moderna". Ora, até mesmo Tucídides, há mais de 2.000 anos, foi capaz de explicar a guerra do Peloponeso. Pretendendo-se um expoente no campo do saber histórico atual, é inaceitável que Furet continue considerando a Primeira Guerra enigmática.
Freud, como Marx, viu na idéia de Deus uma ilusão e no seu desaparecimento uma conquista do homem e da cultura. Furet, ao contrário, seguindo uma concepção de Tocqueville, vê na morte de Deus uma vitória da presunção humana e ainda a de outra ilusão, mais louca e perigosa para a civilização. Seja como for, todos os que se negam a abrir mão de uma utopia -isto é, de uma ilusão-, ou se recusam a aceitar como natural o mercado e o capitalismo (assim como os males que os acompanham) -os que se recusam, portanto, a crer no fim da história, certamente não gostarão do livro. Mas, sobre o fascínio e a importância de ``O Passado de Uma Ilusão", não há dúvida possível. 

Modesto Florenzano professor de história da USP.
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