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Paul Singer - 43 - Outubro de 1998
Sábias heresias
Foto da capa do livro O Capitalismo Global
O Capitalismo Global
Autor: Celso Furtado
Editora: Paz e Terra - 83 páginas
Foto do(a) autor(a) Paul Singer

Neste pequeno livro, o mais eminente dos economistas brasileiros vivos oferece suas reflexões sobre o momento histórico atual. Abre com um capítulo autobiográfico caracteristicamente intitulado "A Longa Marcha da Utopia". A pretexto dessas recordações, Celso Furtado nos lembra que "a ciência institucionalizada é sempre conservadora", observando pouco mais adiante: "Nenhuma sociedade consegue livrar-se completamente da ação de heréticos e nada tem mais importância na história da humanidade do que a heresia".
Celso Furtado, Raul Prebisch e seus companheiros do Cepal (Centro de Estudos para a América Latina) foram heréticos nos anos 1940 e 1950, quando desafiaram o liberalismo ainda persistente no recanto latino da periferia. Mas, pouco tempo depois, a heresia se tornou moda e por pouco não se tornou ortodoxia. O desenvolvimentismo cepalino foi ao poder com Juscelino, em 1956, e Celso Furtado teve a oportunidade de projetar a Sudene e capitaneá-la em seus anos iniciais. O desenvolvimentismo, versão terceiro-mundista do keynesianismo, tornou-se a doutrina predominante não apenas entre os economistas, mas também entre os governantes, que promoveram com entusiasmo a industrialização por substituição de importações. Não só no Brasil, mas por toda a América Latina e em boa parte da Ásia recém-emancipada pela revolução anticolonial.
Mas as crises dos anos 1970 mudaram tudo de novo. As políticas keynesianas e o seu melhor fruto -o Estado de bem-estar social- caíram em desgraça. Ressurgiram os velhos dogmas liberais, apoiados pelas empresas multinacionais e seus banqueiros, subitamente libertados da tutela estatal. Mental e politicamente o mundo regrediu ao começo do século, quando a liberdade individual era equacionada ao funcionamento irrestrito dos mercados e os Estados tinham como tarefa primordial manter a ordem e sobretudo o valor externo da moeda nacional. Neste novo mundo velho, Celso Furtado volta a desembainhar a pena e se lança no bom combate.
O centro desse seu novo trabalho é a análise da globalização, que ele apresenta do ângulo histórico. No começo da Revolução Industrial, a exclusão social provocada foi enorme e a estreiteza do mercado interno levava a nova indústria a procurar o mercado mundial. "Com efeito, se a lógica dos mercados tivesse prevalecido sem restrições, tudo leva a crer que a internacionalização das atividades econômicas (o processo de globalização) teria se propagado muito mais cedo. (...) Além do mais, neste caso seria de se esperar que houvesse uma concentração social da renda ainda mais forte nos países que lideravam a Revolução Industrial."
Mas não foi isso que ocorreu. Os trabalhadores se organizaram, conquistaram direitos e condições de elevar gradativamente os salários, fazendo a economia industrial voltar-se para o mercado interno. Com essa guinada da história, a acumulação de capital deixou de se subordinar unicamente à lógica do interesse do capital privado. "O dinamismo da economia capitalista derivou, assim, da interação de dois processos: de um lado, a inovação técnica (...), de outro, a expansão do mercado -que cresce junto com a massa dos salários." Esta mudança crucial começa no fim do século passado, com a legalização dos sindicatos e prossegue com a instauração do sufrágio universal, a partir da primeira metade deste século. E ela atinge o seu apogeu, com a vitória das forças democráticas, aliadas aos comunistas, sobre o nazi-fascismo, na Segunda Guerra Mundial. Nos 30 anos dourados que se seguem, desenvolve-se o Estado de bem-estar social no primeiro mundo e parte da periferia usa a independência política para se industrializar.
Colocada assim em seu contexto histórico, fica claro que a globalização, em sua quadra atual, representa um retrocesso. "O processo atual de globalização a que assistimos desarticula a ação sincrônica dessas forças que garantiam no passado o dinamismo dos sistemas econômicos nacionais. (...) Voltamos assim ao modelo do capitalismo original, cuja dinâmica se baseava nas exportações e nos investimentos no estrangeiro." A partir desta constatação fundamental, Celso Furtado faz a crítica do processo que se desenrola "em prejuízo das massas trabalhadoras organizadas e em proveito das empresas que controlam as inovações tecnológicas. Já não existe o equilíbrio garantido no passado pela ação reguladora do poder público. Disso resulta a baixa participação dos assalariados na renda nacional de todos os países, independentemente das taxas de crescimento".

Paul Singer é professor de economia da USP
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