


Acredito que haja um problema básico na leitura do "Homem Insuficiente" (Edusp) que Marcelo Coelho nos oferece no "Jornal de Resenhas" de 9/ 2/ 2002 -apesar de algumas interessantes questões levantadas, ela privilegia o menos importante em detrimento do essencial.
Ela opõe apressadamente um suposto leitor contemporâneo, que entenderia o mundo a partir das evidências da antropologia ilustrada (esta sim, perdida entre a realidade e o desejo de que esta lhe seja simétrica) a um "Pascal furioso", lido por um teólogo anacrônico (vale lembrar que, em certos momentos, ser anacrônico é uma virtude).
A categoria "leitor contemporâneo" aqui peca pelo seu senso comum óbvio, pois vê no "contemporâneo" um consenso "arreligioso" inteligente: liberado das controvérsias acerca da "essência do fogo", atolado na incapacidade de discernir o efêmero do essencial. Tal senso comum produz a confusão, por exemplo, entre uma trama conceitual filosófica e uma mera discussão semântica: pouco importa se há diferença entre enunciados de direito e de fato; agregar (retoricamente) palavras como "necessidades assistidas" em nada resolve o argumento de base, ou seja, que a linguagem não descreve de modo necessário o mundo.
Fato ou direito, nenhum enunciado descreve "o mundo" dos fatos ou dos direitos. Para um olhar treinado na dolorosa disciplina cética, essa discussão é risível. A ferida pragmática aqui é fruto de um estudo amplo da disjunção ontológica do homem, fato este que o resenhista subestima ao achar que a apreciação empírica não verifica: apenas um olhar sofisticadamente deformado pelo desejo, típico do humanismo narcisista criticado por Pascal, negaria tal falha.
O "Pascal pragmático" afirma que tudo que o discurso racional pode fazer é estabelecer uma armação linguística circular e consensualmente preestabelecida. Esse "pessimismo" de fundo é que leva Marcelo Coelho a ver Freud e companhia na obra. Corretíssimo. O que ele descarta como prédica anti-humanista é a crítica propriamente agostiniana. Chamo a atenção no livro várias vezes para esse vício naturalista: a auto-inflação deste supõe a evidência de que qualquer pensamento religioso não se sustenta, devido à risível crítica do século 19 ao pensamento religioso, mas que comumente é tomada como definitiva por correntes "psicossociologizantes".
A disciplina cética não poupa nem a religião nem a ciência experimental, quanto mais ramos frágeis como as ditas ciências humanas que reduziram a reflexão religiosa a sintomas mal explicados. A epistemologia nada mais é do que a tentativa de encontrar modos de mitigar metodologicamente (lembremos: método é confissão de fragilidade) a miséria cognitiva e noética exposta pelo ceticismo.
Não há paz no conhecimento, só na ignorância, mesmo que esta tenha "ares contemporâneos". O preconceito estabelecido pelo analfabetismo filosófico-religioso no coração da inteligência "laica" ocidental leva a esquecermos que na filosofia religiosa de autores como Pascal, Agostinho, Kierkegaard, Unamuno, Heschel, Jaspers, Barth, Dostoiévski, entre outros, há um consistente vocabulário experimental religioso, absolutamente desconhecido para quem dele é exilado, e que gera uma forma precisa de sensibilidade crítica e agônica.
Nada disso implica prédica masoquista: apenas um olhar filosófico já narcisista considera uma crítica a um "eu" inflado e ruidoso como uma proposta masoquista. Seria interessante perceber que um cientista que explica o funcionamento da doença de Chagas jamais seria tomado por defensor dos direitos ecológicos do barbeiro em sugar sangue humano e, portanto, por "masoquista ecológico". A dificuldade em lidar com uma reflexão religiosa também leva à confusão entre causa e efeito tal como se coloca dentro da economia argumentativa da obra em questão: o conceito de insuficiência não é sinônimo de miséria e pessimismo, ele é a descrição da condição humana como sendo um "animal do sobrenatural", e a miséria dessa insuficiência surge apenas quando o homem é reduzido a viver como um "animal da natureza".
Não sustento que o pecado seja a abertura para a salvação, mas sim que o reconhecimento existencial deste é uma ascese cética quanto às possibilidades "naturais" do homem. A consciência da insuficiência é a abertura de um diálogo com essa dimensão sobrenatural do ser humano, asfixiada por um humanismo ridículo e empiricamente irreal. A categoria da insuficiência é a tentativa de descrição de uma dialética interna ao ser humano, por meio da qual ele ultrapassa infinitamente a si mesmo.
Luiz Felipe Pondé é professor de ciências da religião na Pontifícia Universidade Católica (SP).