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Marcos Barbosa de Oliveira - 57 - Dezembro de 1999
RÉPLICA - Três equívocos reais
Réplica à resenha "Um percurso virtual", de João Paulo Monteiro (13/11/1999)
Foto da capa do livro Da ciência cogitiva à dialética
Da ciência cogitiva à dialética
Autor: Marcos Barbosa de Oliveira
Editora: Discurso Editorial - 236 páginas
Foto do(a) autor(a) Marcos Barbosa de Oliveira

A resenha "Um Percurso Virtual", de autoria do prof. João Paulo Monteiro (Jornal de Resenhas, 13/11/99), contém duas afirmações fatuais incorretas que dão ao leitor uma visão distorcida do conteúdo de meu livro "Da Ciência Cognitiva à Dialética"; este é o único motivo que me leva a publicar a presente nota de esclarecimento.

A primeira é a de que eu teria repudiado quase todos os artigos que compõem a coletânea. Tendo esta por objetivo recapitular o trajeto que me levou de adepto a crítico da ciência cognitiva, é natural que os primeiros textos correspondam à posição inicial, posteriormente revista. O repúdio, entretanto, atinge apenas o primeiro e, em parte, o segundo e o terceiro artigos. A decisão de incluí-los teve por objetivo, entre outros, dar a medida de minha adesão à ciência cognitiva no ponto de partida, para com isso deixar claro que a crítica desenvolvida a seguir não derivou de uma postura previamente assumida, de um preconceito, mas sim das contradições internas da matriz cognitivista. Os outros dez artigos representam posições que continuo sustentando, sem nenhuma ressalva.
A segunda afirmação inverídica refere-se às duas últimas linhas da "Apresentação", nas quais procurei dar uma idéia a respeito do rumo futuro de minhas reflexões. João Paulo as interpreta como uma promessa de realizar aquilo que já deveria, em sua opinião, estar no livro para que este fizesse jus a seu título. Ora, como o contexto deixa claro, a intenção era bem outra, qual seja, a de dizer que ele contém tudo aquilo que tinha até o momento a apresentar enquanto crítica da ciência cognitiva, e que a partir daí iria me dedicar, como de fato estou me dedicando, a estudos sobre as ciências naturais e a tecnologia no mundo contemporâneo, estudos em que a parte da ciência cognitiva que trata dos aspectos naturais da cognição pode entrar, mas apenas como uma entre as inúmeras outras ciências naturais.
Aproveitando a oportunidade, convém comentar uma terceira alegação, a qual, junto com as duas já mencionadas, forma a base para o veredicto de virtualidade, que constitui a tese central da resenha. Segundo João Paulo, as críticas à ciência cognitiva apresentadas seriam "meramente virtuais", na medida em que estaria faltando no livro uma teoria não-naturalista a respeito dos aspectos culturais da cognição humana, para ser posta em competição com as da ciência cognitiva "realmente existente", de acordo com as regras da metodologia popperiana. Sendo um dos objetivos do livro o questionamento da epistemologia positivista-popperiana, a cobrança refere-se a algo que, por sua lógica interna, o trabalho não poderia conter.
A postura dialética proposta envolve dois princípios interligados, afirmando que, no plano relevante para as questões em pauta, não podem e não devem ser separados nem fatos nem valores, nem sujeito e objeto do conhecimento, uma vez que, na esfera da cultura, as teorias podem afetar o domínio da realidade a que se referem. Desses princípios decorrem critérios diferentes para a comparação de teorias rivais, que embora não excluam o confronto com as evidências empíricas, levam a um desvelamento da face normativa oculta nas teorias, como as da ciência cognitiva, que se pretendem neutras, isentas de valores. Trata-se, em outras palavras, de uma análise ideológica, a qual coloca em jogo a dimensão política, de maneira geral ausente dos debates em torno da nova disciplina.
As referências a Popper, bem como o comentário irônico sobre a competição capitalista, deixam claro que o pensamento do prof. João Paulo está bem distante de uma posição de esquerda. Sendo assim, não era de esperar da parte dele muita simpatia pelo livro. Entretanto, causa estranheza -e pena- que ele tenha procurado desqualificá-lo, que, em vez de questionar a argumentação apresentada -reconhecidamente polêmica-, tenha tentado negar sua existência com base em alegações totalmente desprovidas de fundamento.


Marcos Barbosa de Oliveira é professor da Faculdade de Educação da USP e autor do livro "Da Ciência Cognitiva à Dialética" (Discurso Editorial).

Marcos Barbosa de Oliveira é professor da Faculdade de Educação da USP.
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