


Carta ao Jornal de Resenhas
Em resenha de "Conversas com Filósofos Brasileiros", publicada pelo Jornal de Resenhas em 10 de fevereiro de 2001, o sr. Ricardo Musse emite juízos depreciativos sobre alguns filósofos cujas entrevistas constam desse livro.
A respeito de Balthazar Barbosa Filho e Guido Antônio de Almeida, o sr. Musse estranha que tenham sido incluídos no rol dos filósofos entrevistados, alegando que nunca publicaram "nem mesmo uma coletânea de artigos". Essa alegação, de natureza factual, é grosseiramente falsa, o que pode ser verificado mediante simples consulta às listas de publicações dos referidos filósofos, acessíveis no endereço do CNPq na internet (www.cnpq.br).
Mais adiante, o sr. Musse, sem se dar ao trabalho de justificar sua opinião e após qualificar Balthazar Barbosa Filho e Guido Antônio de Almeida de "quadros burocráticos da CAPES" define as entrevistas que concederam, bem como a de Raul Landim Filho, como "pífias", de nível não superior ao de um "bom aluno de graduação".
Acreditamos que a importância dos três filósofos em questão no cenário filosófico brasileiro é inquestionável. Trata-se, sem dúvida, de uma opinião, passível de ser discutida no âmbito de um debate leal de idéias. No entanto, a maneira grosseira, sumária e gratuita como foram emitidos os juízos depreciativos do sr. Musse não permite que os caracterizemos como momentos de um tal debate, mas, pura e simplesmente, como atos levianos de extravasamento de antipatias pessoais.
Lamentamos, pois, que o sr. Musse tenha se utilizado do Jornal de Resenhas para dar vazão a suas antipatias. E lamentamos muito mais que o Jornal de Resenhas tenha se prestado a essa utilização.
Luiz Henrique Lopes dos Santos, Ricardo Ribeiro Terra, Andréa Loparic, Carlos Alberto Ribeiro de Moura, Francis Wolff, João Vergílio Cuter, José Arthur Giannotti, José Carlos Estevão, Marco Zingano, Moacyr Novaes, Oswaldo Porchat Pereira.
Resposta
1) Não procede a alegação de que minha descrição da produção intelectual de Baltazar Barbosa Filho e Guiado A. de Almeida seja falsa. Ela pode ser comprovada pelos depoimentos e bibliografia anexada ao final de cada entrevista. A lista das principais publicações de Baltazar Barbosa (pág. 427), por exemplo, resume-se a dois artigos, publicados um em 1982 e o outro em 1999. Esse fato desmente também a suposição de que construí meus juízos a partir de idiossincrasias pessoas, a não ser que, ante a exigência de “simpatias”, se considere desleal a busca de objetividade. Continuo estranhando a inclusão dos dois, tendo em vista a existência no país de vários outros filósofos excluídos, com obra extensa e reconhecida.
2) Raul Landim, na pág. 259 do livro, menciona “um grupo filosófico que tivesse como único critério de admissão a ‘qualidade’ filosófica”. Além dele próprio, nomeia, entre os expoentes desse grupo, Baltazar Barbosa e Guiado de Almeida. Entretanto, comparando as entrevistas em um bloco de perguntas comuns, não há como fugir à evidência; destituídas de originalidade, as respostas desse grupo estão muito aquém do desempenho dos demais entrevistados.
3) A institucionalização da filosofia no Brasil assume, às vezes, a forma de um retrocesso. No debate de idéias, a defesa de um modelo corporativo, burocrático e hierárquico conduz à substituição do confronto de argumentos pelo argumento de autoridade; à restrição do espaço público, vetando a crítica em nome da estipulação de códigos de conduta; por fim, à redução do pensamento dissidente a motivações pessoais, numa tentativa de esquadrinhar, enquadrar e controlar consciências.
Ricardo Musse
Nota da Redação: O Jornal de Resenhas publica artigos assinados, que são de inteira responsabilidade de seus autores. O Jornal respeita plenamente a liberdade de expressão, jamais interfere naquilo que escrevem os autores e garante amplo espaço de defesa aqueles que porventura se sintam atingidos. Assim se procedeu no caso do livro “Conversas com Filósofos Brasileiros” e em todos os demais.