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Marcos Nobre - 72 - Março de 2001
RÉPLICA - Acabou em samba
Réplica à resenha "Da militância política à filosofia", de Ricardo Musse (10/02/2001)
Foto da capa do livro Conversas com filósofos brasileiros
Conversas com filósofos brasileiros
Autor: Marcos Nobre e José Márcio Rego
Editora: Editora 34 - 431 páginas
Foto do(a) autor(a) Marcos Nobre

Só mesmo a proximidade do Carnaval me parece poder explicar a resenha que fez Ricardo Musse (Jornal de Resenhas, 10/ 02/01) de "Conversas com Filósofos Brasileiros", livro de entrevistas realizado por mim e por José Marcio Rego. O susto foi grande quando o resenhista anunciou que iria "examinar os acertos e desacertos" de nossa escolha no livro, o que me fez temer já pela chegada do Juízo Final -com um resenhista sentado no trono, imagine. Não que a impressão seja de todo falsa, pois que o resenhista passa a maior parte do tempo separando os bons dos maus.

Mas percebi, na verdade, que a única explicação plausível para o tom de reprimenda de mestre-escola da resenha era a utilização de uma intrigante metáfora: no trono estava sentado um jurado de desfile de escola de samba. E foi na qualidade de jurado-resenhista que Ricardo Musse analisou tanto o desfile como um todo (o livro) quanto cada escola de samba em particular (cada uma das entrevistas).
Grande parte da resenha é dedicada à pergunta de por que algumas escolas de samba desfilam e outras não. Nesse quesito, se bem entendi, a nota foi próxima de cinco. Não entendo muito de nota de desfile de escola de samba, mas me parece um desempenho "pífio" (para lembrar um adjetivo muito ao gosto do jurado-resenhista, que o utilizou para caracterizar o desfile de algumas escolas). Já a nota do quesito "alegoria e adereços" me pareceu bem melhor: nosso jurado-resenhista, num gesto magnânimo, considerou meritória a inclusão de "duas vertentes banidas da maioria dos departamentos de filosofia do país", a saber, "a filosofia do direito e a exegese marxista". Se bem compreendi, a nota nesse quesito ficou próxima de nove. E por aí vai. Mas não vou repetir o que o leitor do Jornal de Resenhas já sabe. Além disso, o Carnaval já passou.
Não que isso elimine a dificuldade de tentar debater em clima não-carnavalesco afirmações próprias de um jurado-resenhista, que se apresentam sempre como obviedades ululantes, como decisões de última instância, de que não cabe recurso. Mas não me parece haver outro remédio senão apostar na sobriedade do período da quaresma.
Começo pela afirmação de que a maioria dos departamentos de filosofia do país "em geral seguem o modelo do departamento de filosofia da USP". Antes de mais nada, seria de grande utilidade saber em que consistiria exatamente o tal "modelo do departamento de filosofia da USP". Além disso: supondo que seja assim, como entender os diversos processos de formação e as diferentes lógicas de desenvolvimento regional? Onde, no livro, o jurado-resenhista encontrou apoio para a afirmação que fez? Ou, se não encontrou no livro, onde está o material em que se pode encontrar demonstrada tal tese (que não tem nada de óbvio, muito pelo contrário)?
Talvez devamos procurar as respostas a essas perguntas na parte final do texto, em o que o jurado-resenhista pontifica sobre a questão da institucionalização da filosofia no Brasil. Mas, nesse caso, as dúvidas (e a perplexidade do leitor) só fazem aumentar. Vejamos:
"Um mero cotejo dos depoimentos mostra como o processo objetivo de institucionalização, inerente à racionalização capitalista, abrange indistintamente autodidatas, religiosos, militantes e juristas, ao mesmo tempo que uma ilusão (socialmente necessária?) faz com que uns se acreditem heróis da guerra contra a antiga filosofia de padres e bacharéis e leva outros a crerem que estão contribuindo verdadeiramente para mudar a sociedade por meio da prática rigorosa da filosofia universitária".
O que se pode razoavelmente contrapor a uma crueza mecanicista desse quilate? Note-se que ao jurado-resenhista bastou "um mero cotejo dos depoimentos" para imediatamente ali identificar em marcha "o processo objetivo de institucionalização, inerente à racionalização capitalista"! Bem compreendida a lição, deveríamos na verdade nos compadecer dos pobres filósofos entrevistados no livro, submetidos a uma "ilusão (socialmente necessária?)" que coube unicamente a Ricardo Musse compreender e revelar.
Em meio à balbúrdia das notas carnavalescas, me parece surgir, exatamente onde a resenha acaba, a afirmação derradeira: a explicitação das posições pessoais nas entrevistas -diz o texto- "permite classificar a filosofia que se faz no Brasil (no compasso da filosofia mundial) como uma derivação (pura ou mesclando os diversos matizes) de quatro vertentes da filosofia européia: fenomenologia (nas trilhas distintas de Husserl ou de Heidegger), neokantismo, marxismo ocidental e filosofia analítica (Wittgenstein)".
Antes de mais nada, é sempre bom ser iluminado a respeito do que se faz hoje na "filosofia mundial" -a patuléia penhorada agradece. Mas minhas dúvidas são muitas: essa "filosofia mundial" não está parecida demais com o que dizem os manuais sobre a filosofia na década de 1960? Será que nada mudou desde então? Além disso: o que significa dizer que a filosofia que se faz no Brasil é uma "derivação" da filosofia européia? Mais ainda: o que seria uma "derivação pura" e outra "mesclando os diversos matizes"? Sorvete de duas bolas? Só como exercício: em qual "vertente" o jurado-resenhista classificaria, por exemplo, os escritos de Henrique C. de Lima Vaz?
A resenha acabou e o jurado-resenhista permanece impassível em seu camarote. Será que tudo precisa acabar em samba?


Marcos Nobre é professor de filosofia na Universidade Estadual de Campinas, pesquisador do Cebrap e autor de "A Dialética Negativa de Theodor W. Adorno -A Ontologia do Estado Falso" (Iluminuras). 

Marcos Nobre é professor do departamento de filosofia da Unicamp.
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