

A revista "Crítica Marxista" já publicou dois números, perfazendo 317 páginas com onze artigos, um texto de Marx inédito em português, dois debates de atualidade com 11 participantes, dez resenhas analíticas, uma entrevista, além de pequenas notas e um manifesto de lançamento. Fábio Wanderley Reis, entretanto, em "A Encruzilhada da Esquerda"(Jornal de Resenhas de 8/3/1996) julgou possível não somente interpretar toda esta diversidade apoiando-se quase exclusivamente no manifesto de lançamento, como também sintetizá-la no epíteto "Esquerda 19", por contraste com "Esquerda 21", título de uma revista parlamentar ali também comentada.
A ironia é bem educada, mas, quanto ao fundo, ambígua. Ele próprio reconhece a pertinência dos temas tratados nos dois números, alguns de incontestável atualidade política e cultural, outros analisando questões de "história longa" a partir de perspectivas novas e, em todo caso, levando em conta a produção teórica internacional mais recente e relevante. Por que então querer nos enquadrar numa classificação que, além de gasta pelo uso e abuso que dela têm feito antimarxistas de todos os matizes (quantas vezes já não ouvimos ou lemos que o marxismo só teria tido validade como crítica das atrozes condições de trabalho que marcaram o início da Revolução Industrial no século passado?), pretende negar o valor teórico da crítica marxista à economia política burguesa com critérios de calendário? As idéias de Montesquieu, de Rousseau, de Diderot e de outros pensadores da Ilustração, embora datem do século 18, continuam a inspirar doutrinas e teorias políticas de nosso tempo. Desqualificá-las porque são velhas de mais de 200 anos é incidir no também velho deslumbramento provinciano com o que está na moda.
Incomoda nosso crítico não somente o apego de "Crítica Marxista" a uma "forma doutrinária" do século 19, mas também "a objetivos de óbvia inviabilidade no futuro que se pode discernir". Não partilhamos de sua concepção sobre o "óbvio e o inviável", mas se ele fosse coerente com seus epítetos, deveria também nos classificar como "Esquerda 22", já que teríamos o defeito de querer enxergar longe demais. O que não o impede de sugerir que devemos "pensar pra frente".
Para tanto, propõe uma agenda teórica na qual reconhecemos sem surpresa a problemática social-liberal do individualismo metodológico. Aconselha-nos, portanto, nem mais nem menos, a trocar nossa teoria e nosso método pelos dele. O adesismo político e intelectual está na moda. Tem mesmo produzido notáveis descobertas politológicas como por exemplo a "sensibilidade social" do cacique baiano Antônio Carlos Magalhães, ou, num registro mais "global", a descoberta do "fim da história" pelo extremista neoliberal F. Fukuyama.
Estas e outras "respostas lúcidas" às questões "angustiantes e prementes" de nosso tempo apenas confirmam que nosso óbvio não é o deles. Para nós, urgente e premente é discernir soluções de fundo para o desemprego em massa que afeta dezenas de milhões de trabalhadores nos países capitalistas dominantes e engendra o nefando caldo de cultura do neonazismo. Estamos profundamente convencidos de que o marxismo crítico constitui um instrumento intelectual incomparavelmente superior ao ecletismo social-liberal para propor respostas que não sejam a mera reiteração de certezas conformistas. Ousamos esperar que os sociais-liberais e os neoliberais, coerentes com sua proclamada estima pelo pluralismo, respeitem nosso direito intelectual à diferença, abstendo-se de nos alfinetar com chavões preconceituosos.
João Quartim de Moraes, do conselho editorial da revista "Crítica Marxista".