

Reler os clássicos
TULLO VIGEVANI
Dois fios condutores unem os artigos desta coletânea. Primeiro, a indagação -explicitada nos ensaios de Claudio Vouga e Gildo Marçal Brandão- sobre a importância atual dos clássicos. Trata-se de fornecer um parâmetro, no mínimo por comparação, para avaliar no presente as questões permanentes da vida social (as paixões, o poder, o Estado, a governabilidade, a organização social etc). A tarefa de reinterpretar os clássicos também indica uma posição diante das polêmicas contemporâneas, em particular, no terreno da ciência política que, como se sabe, enveredou pelo caminho da análise quantitativa. Procedimento certamente necessário, entretanto, não suficiente. Assim, o outro fio sugere que não convém considerar a ciência política isoladamente, mas enriquecê-la pela interação com a filosofia, a sociologia, a história, o direito etc.
Mário Miranda lembra que a negação do direito de cidadania à filosofia, na Grécia de Sócrates, tem a ver com uma debilidade intrínseca da ética. Embora a verdadeira finalidade da comunidade política, segundo a filosofia grega, seja a vida virtuosa, essa não pode ser alcançada, pois escapa ao âmbito da política efetiva, ou seja, dos diversos fatores que contam no jogo pelo poder. Aparentemente, separa-se assim política e moralidade. Mas não é esta a direção na qual caminha o ensaio. Retomando Aristóteles, reafirma que "a verdadeira finalidade da comunidade política não é a mera sobrevivência, mas a vida virtuosa".
O ensaio de Robert Chisholm reforça a imagem de pensador "realista" tradicionalmente atribuída a Maquiavel, mas não deixa também de salientar que, para esse autor, a ordem que tem no Estado (a criação do Príncipe) seu pólo central é um empreendimento humano coletivo.
João Paulo Monteiro nos apresenta um Hobbes -além de sua sempre ressaltada preocupação com a governabilidade- precursor da idéia de um Estado burocrático, materializando os interesses de uma inteligentsia então em desenvolvimento. Destaca também que sua obsessão em "conquistar a paz dentro de cada nação" insere-se tanto em uma concepção de mundo hierárquica quanto em um projeto salvacionista.
Clássicos do Pensamento Político Organização: Célia Galvão Quirino e outros Edusp/Fapesp (Tel. 0/xx/11/818-4150) 278 págs., R$ 22,00 |
Rolf Kuntz ensaia uma nova interpretação de Locke, na qual a idéia de que se trata do filósofo da burguesia ascendente, devotado a legitimar o direito de propriedade, a acumulação da riqueza e, portanto, a desigualdade, é contrabalançada pela defesa de uma espécie de "igualitarismo restrito". Segundo Kuntz, Locke admite que "é necessário conceber os homens como iguais para vê-los como livres. Há um vínculo entre as duas idéias, e a da liberdade só é compreensível por uma referência à outra". Com isso, Locke é aproximado da vertente liberal -representada na segunda metade do século 20 por John Rawls- que toma a noção de justiça como o elemento básico da vida social e política.
Em contraposição, a ênfase de Milton Meira do Nascimento sobre o significado da vontade geral em Rousseau não deixa de demonstrar que o indivíduo, ao mesmo tempo súdito e cidadão, já não pode pretender a autonomia. O homem é tomado não mais como um ser natural e independente, mas como um ser relativo, parte de um todo. Esta interpretação fortalece aqueles que percebem Rousseau como um elo perdido em direção ao pensamento socialista, no qual a liberdade individual vincula-se com os interesses da totalidade.
Modesto Florenzano reivindica um lugar ao sol para Paine, procurando mostrar a atualidade do pensamento liberal radical -fortemente vinculado à idéia de direitos e, no caso, legitimando até mesmo a revolução contra a opressão.
Célia Galvão Quirino, a partir da diferenciação estabelecida por Rousseau entre vontade particular e geral, destaca a crítica de Tocqueville ao conceito de vontade geral, passo indispensável, segundo esse autor, para a preservação das liberdades, que, do contrário, estariam sujeitas ao arbítrio da ditadura da maioria.
O artigo de Kurt von Mettenheim diferencia-se pela sua preocupação metodológica. Tomando como ponto de partida a filosofia da história de Hegel, discute o papel das conjunções críticas da democratização na história da Europa ocidental. Conjugando o papel deste conceito com o de "path dependence", sugere um caminho para pesquisas comparativas, na busca da compreensão da relação entre causa e efeito. Segundo ele, causas estruturais influem nos processos, mas não determinam sua direção efetiva, deixando espaço para a criatividade política.
O artigo de Eduardo Giannetti da Fonseca discute a psicologia do agente econômico em Hume e em Smith e destoa dos demais. A maioria dos ensaios procura identificar nos clássicos questões de interesse permanente, com sentido normativo, realçando paixões, instintos, mas também a recorrente reprodução da tensão em direção ao assim chamado bem comum. É verdade que o instinto que busca a prosperidade e a melhoria da condição individual teve e tem papel relevante na história, mas Giannetti da Fonseca acaba por concebê-lo como força motriz inevitável e permanente. Segundo ele, a "superestimação da área da racionalidade nas operações da mente humana" -que pode ser traduzida em termos de busca do bem comum- não é plausível, sendo impossível "a abolição da relação humeana de propriedade com referência aos bens externos".
Tullo Vigevani é professor de ciência política na Universidade Estadual Paulista (Marília-SP) e pesquisador do Centro de Estudos e Cultura Contemporânea (Cedec).