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Fernanda Arêas Peixoto - 116 - Dezembro de 2014
Releitura de um clássico de Gilberto Freyre
Relações entre literatura e história, ciência e arte, história e antropologia
Foto da capa do livro Um Estilo de História
Um Estilo de História
Autor: Fernando Nicolazzi
Editora: Unesp - 486 páginas
Foto do(a) autor(a) Fernanda Arêas Peixoto

A ordem do tempo, a representação do passado e a escrita da história, estes são os alicerces básicos da construção do livro do historiador e professor da Universidade de Ouro Preto Fernando Nicolazzi, originalmente tese de doutorado defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Construção sólida, é preciso destacar, amparada em referências fundamentais no campo da historiografia (como François Hartog, Reinhard Koselleck e Michel De Certeau), as quais se somam outras – retiradas da história da arte, da sociologia da cultura, da antropologia social e a da crítica literária –, que se combinam no enfrentamento das relações entre viagem, memória e ensaísmo, examinadas fundamentalmente a partir de Casa-grande e Senzala (1933).   

Estamos diante de um trabalho empenhado e rigoroso de pesquisa que tem como um de seus méritos o levantamento exaustivo da bibliografia relativa ao tema, lida e comentada com vagar ao longo de sete capítulos. A definição clara de uma perspectiva de análise a orientar o trato dos materiais é outra das qualidades do trabalho; trata-se de reler o livro clássico de Gilberto Freyre do ponto de vista do estilo (isto é, da “forma particular com a qual determinado autor respondeu ao conjunto de problemas que cercam sua obra”), pensando-o em suas relações íntimas com a intencionalidade, que “permite reconstituir o processo de produção das soluções propostas”. Nesse sentido, a análise da operação que precise à construção da obra e da narrativa não se separa da consideração do lugar que Gilberto Freyre ocupa no interior de uma dada tradição intelectual.

Ensaísmo

Não resta dúvida que o foco escolhido e a competência do analista jogam novas luzes sobre Casa-grande e Senzala, levantando questões decisivas para a compreensão do autor, e não apenas do livro de 1933, eu diria. Ensina Nicolazzi como as relações entre viagem e memória são fundantes do ensaísmo freyriano, forjando um olhar e uma posição – que se definem pelos jogos entre proximidade e distância, entre deslocamento no tempo e no espaço – sobre os quais o texto e a interpretação são compostos, e das quais retiram sua força e eficácia. Tais questões são trabalhadas sobretudo na terceira parte do volume, na qual Fernando Nicolazzi se lança ainda numa discussão mais ampla sobre as relações entre memória e história, e entre memória e conhecimento, em função do ensaio de Gilberto Freyre, este “homem-memória” que se vale da experiência subjetiva (sensória e corpórea) e do passado para a construção de uma história que é também testemunho. Aí se concentra o coração do trabalho, e o subtítulo escolhido para o livro – A Viagem, a Memória e o Ensaio: sobre Casa-grande e Senzala e a Representação do Passado – faz referência a este segmento preciso, que apresenta a estrutura de um livro à parte, coeso, armado em torno de questões precisas.

As duas partes primeiras estão dedicadas à recepção de Casa-Grande e Senzala e aos seus prefácios (a primeira) e à obra Os Sertões, de Euclides da Cunha (a segunda). O autor defende a articulação entre essas análises e o argumento central do trabalho, indicando – no primeiro segmento – como o livro de Gilberto Freyre é impensável sem os seus leitores e sem as próprias interpretações do autor, que a reescreveu de certo modo, nos sucessivos comentários e apresentações feitas a ela ao longo do tempo. Na segunda parte, por sua vez, sugere que Os Sertões (1902) forneceriam uma lupa de leitura para o ensaio de Freyre, elaborado como “resposta” ao modelo de representação do passado fornecido por Euclides. Nas antípodas da distância analítica instaurada pelo cientificismo naturalista do autor de Os Sertões, diz Nicolazzi, “o sábio de Apipucos almeja por meio de sua escrita ‘tocar o nervo’ do passado, daí todo o sentido de proximidade que emana de seu texto, uma quase que contiguidade entre experiência e linguagem no anseio sempre frisado de fazer ‘do verbo, carne’”(p.41).

Atalhos e derivas

Não se trata de discordar em princípio das articulações projetadas, nem de duvidar do interesse que esses segmentos possuem em si mesmos, mas de observar que as costuras entre as três partes não se encontram suficientemente trabalhadas no livro, que termina por desenhar um percurso marcado por atalhos e derivas, nos quais a obra de Freyre e o problema perseguido chegam a desaparecer por completo em longos trechos; as diversas resenhas e citações dos comentadores reforçam a impressão digressiva da forma da interpretação, o que leva o leitor a recorrer diversas vezes à introdução de modo a recuperar o roteiro traçado. O autor reconhece os riscos envolvidos em “abrir demasiadamente o problema”, afirmando o ponto expressamente em relação ao amplo panorama sobre o ensaísmo brasileiro montado no último capítulo. Mas a abertura excessiva do foco, assim como o aproveitamento discreto do que estou chamando de “digressões” na análise – evidente nas Considerações Finais, que pouco recuperam os achados das duas primeiras partes –, alimentam a ideia de que estamos diante de conjuntos inegavelmente interessantes, mas que poderiam funcionar, no limite, como publicações separadas. 

Estas observações, que já dividi com o autor – e que se recolocam na medida em que a tese praticamente não foi alterada por ocasião de sua edição em livro –, não visam desmerecer o sólido, sofisticado e erudito do historiador, que além da utilidade que possui para outros pesquisadores (em função, entre outros, da sistematização de ampla e importante bibliografia), toma Gilberto Freyre e Euclides da Cunha como casos exemplares para revistarmos problemas fundamentais como o das relações entre literatura e história, ciência e arte, história e antropologia.  

 

Fernanda Arêas Peixoto É professora de antropologia da USP
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