

Rebelião da massas 2
Francisco Rudiger
Against the machine: How the web is reshaping culture and commerce.
Siegel, Lee
Spiegel & Grau
192 p., R$ 45,36
Quando de sua ascensão, na primeira metade dos anos 1990, a internet foi embalada por uma fala laudatória, que se manteve firme até bem pouco tempo. Baixada a poeira a respeito e esboçada a rotinização da nova tecnologia, o panorama está se alterando. Assistimos ao aparecimento de um debate mais rico e tendente a favorecer o contraditório, como nos dá sinal, entre outros títulos, Against the machine, de Lee Siegel, cuja 1ª. edição é de 2008.
Originado do incidente que levou ao seu afastamento, por alguns meses, da redação da The New Republic (Nova York), em 2006/2007, o texto sumaria as críticas do publicista às práticas de comunicação ensejadas pela chamada web 2.0, abrindo polêmica contra o populismo cultural de boa parte de seus intérpretes. Para o autor, com efeito, a cibercultura, em vez de participativa e individualizante, via de regra, não passa de uma emanação cotidiana e popular do poder homogeneizante do capital no mundo contemporâneo.
Os Orkuts, Youtubes, Second Lifes e outros webfenômenos, como os blogues que proliferam aos milhares e as páginas de jornalismo cidadão, por exemplo, não devem nos enganar. Contrariamente ao propalado por tantos observadores, eles não são formas de sociabilidade emancipadas e criadoras, apesar desse sentido, eventualmente, também se fazer presente. Eles são, sobretudo, registros do avanço da forma mercadoria em escala de massas e em plano rotineiro e cotidiano.
Segundo os profetas da cibercultura, estamos entrando numa era de desmassificação, porque, agora, passamos a ter nas mãos os recursos materiais com que podemos fazer nossas próprias escolhas e construirmos livremente nossa personalidade. De fato, contudo, verifica-se o surgimento de “uma forma ainda mais potente de homogeneização”, diz Siegel (p. 67). Para ele, a cibercultura consiste, antes de tudo, num estágio avançado da cultura de massas, cuja marca é a procura universal de popularidade estruturada segundo os padrões mercadológicos de conquista de audiência. Afinal, com ela, “a cultura pop se funde integralmente com a comercial. O encantamento da imaginação cede lugar à gratificação do ego. A transposição vicária do seu eu - que havia antes - dá lugar a ... você mesmo” (p. 122).
Against the machine não contesta menos a pretensão de que estamos transitando da condição de receptores passivos para nos tornarmos produtores de conteúdo independentes, só porque, agora, podemos compartilhar nossas ideias e imagens com as pessoas através dos novos meios de comunicação. Tudo isso quer dizer apenas que “você está adaptando seus momentos de privacidade aos eventuais compradores”, fazendo com que seu “tempo de lazer adquira a qualidade de trabalho racional, calculável e consciente num mercado” (p. 69-70).
Siegel nos parece ingênuo sugerindo, que só com a web o lazer se confunde com o negócio (p. 61), ou que só agora estamos aprendendo a nos representar para consumo (p. 65). Porém, acerta em cheio notando a forma como a cultura digital está se convertendo em processo massificado de abstração e autonomização da própria escolha individual, salientando que, nela, o principal é “a aposta em formulas familiares e estilos consagrados de auto-apresentação capazes de nos trazer popularidade” (p. 66-67).
Segundo os conservadores culturais, a multidão estaria se tornando a autoridade em matéria de opinião e gosto, graças à net e ao declínio das demais instituições legitimadoras daquelas categorias. Siegel tem o mérito de explicar as origens desta conversão da popularidade em critério de valor, mostrando, ainda que de forma pouco elaborada, a maneira como o fenômeno se insere no processo de expansão da racionalidade mercantil pelo campo da ação cotidiana orientada para a expressão da individualidade.
A rebelião das massas contra a autoridade cultural das celebridades que se encontra na cibercultura, evidencia o autor, se baseia na mesma categoria com que estas celebridades se formam: a popularidade no mercado em que se tornou a comunicação. “Dirigindo o evangelho da popularidade está um apelo para cada um de nós substituir os ícones inflados da mídia pelo sentimento inflacionado de nós mesmos – tenhamos ou não o devido talento e disciplina para tal tarefa” (p. 119).
Por isso, a primeira preocupação desses sujeitos não é com a criatividade, mas, antes, com a livre expressão individual e a obtenção de popularidade em bases mercadológicas. Na cibercultura, o principal são os expedientes participativos e os mecanismos de interação. Com eles, cada um procura massagear seu ego e, assim, obter celebridade para todos. A premissa em que se baseia é a de que basta você ser o que é, para se dirigir aos outros e ser digno de atenção.
A cibercultura veicula uma rebelião das massas contra toda forma de hierarquia e autoridade, especialmente aquelas baseadas em conhecimento e especialização, tendo um de seus vetores na promoção de um igualitarismo rebaixado a termos mercantis e que apenas explora o nome da democracia.
Against the machine não é um relato acadêmico: o texto oscila entre os registros do panfleto bem-informado e do ensaio escrito em atitude crítica. Embora o estilo seja ligeiro, algumas de suas sugestões valem, porém, mais do que relatos inteiros de pesquisa sobre o assunto. Que, no fim, o autor advogue frouxamente, não contra a tecnologia, mas em favor do humanismo e da racionalidade comunicativa é menos uma pobreza intelectual de sua parte do que o resultado objetivo, sobre a consciência reflexiva, do ofuscamento intelectual que, mesmo entre os mais lúcidos, provoca um tempo espiritualmente confuso e anárquico como este em que vivemos, este em que o movimento da indústria cultural chega ao estágio da cibercultura.
Francisco Rudiger é doutor pela Universidade de São Paulo, professor da Pontifícia Universidade Católica e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e autor, entre outros, de Cibercultura e Pós-humanismo (Edipucrs).