

Questão de decoro
LUIZ ARMANDO BAGOLIN
Não é comum encontrar em nosso meio guias ou dicionários que tratem de termos do fazer arquitetônico e que, ao intentá-lo, o façam de uma maneira clara e adequada, respeitando as circunstâncias históricas nas quais esses mesmos termos foram gerados. Em geral, trabalhos dessa natureza procuram soluções pragmáticas, pela exposição de verbetes curtos acompanhados de uma iconografia de segunda ou terceira mão, além de estarem rigorosamente atrelados a uma periodização já estabelecida pela historiografia da arte produzida desde o século passado.
O trabalho de Wilfried Koch insere-se nessa perspectiva, perfilando, ao mesmo tempo com clareza e arbitrariedade, os principais elementos construtivos pertencentes à história da arquitetura no Ocidente. A clareza advém, sobretudo, da forma pela qual o "glossário ilustrado" foi inserido na obra, dispondo lado a lado os termos e as imagens correspondentes.
O léxico em latim, na maior parte dos verbetes, é proveniente da obra "Da Arquitetura", de Vitrúvio, fonte indispensável, tanto para o exame da arquitetura antiga, quanto para a composição da tratadística sobre a disciplina feita até primórdios do século 19. O dicionário de Koch, no entanto, prefere omitir esta importante referência, adotando uma forma de sistematização histórica, que reduz a arquitetura apenas à função desempenhada pelo edifício.
No "Da Arquitetura", porém, a distinção feita para as partes de que se compõe esta disciplina não chega a constituir uma tipologia restrita a aspectos funcionais e utilitaristas. Embora generalizada na tríade "edificação, gnomônica, maquinação", a arquitetura é sempre soma de fábrica e de raciocínio, na qual agem, simultaneamente, preceitos retóricos referentes à ordem, que em grego é nomeada "taxis", e à disposição.
Leon Battista Alberti, outro importante tratadista omitido por Koch, expôs em seu "Sobre a Edificação" (1452) as categorias pelas quais a arquitetura se distingue da natureza: "regio, area, partitio, paries, tectum, apertio", embora tais categorias não possam ser plenamente compreendidas se nos ativermos apenas à definição utilitária desses termos: "região, área, planta, parede, teto, janela".
O apagamento das preceptivas referentes à arquitetura ao longo da história tem, contudo, uma intenção subjacente. O prólogo do dicionário revela-nos a adesão do autor a uma história da arte de viés positivista e classificatório, ao alcance de qualquer um na banca de jornal mais próxima.
A "estilística", neste caso, está para a arquitetura como as "obras-primas" estão para o progresso do espírito. A este propósito, Koch sugere que seu dicionário possa ser visto como uma espécie de antídoto para "detectar as partes dos muitos edifícios estilisticamente 'impuros'±", consentindo, paradoxalmente, que a maioria da produção arquitetônica analisada sob a visada dos "estilos" encontra-se incomodamente infestada por elementos estranhos aos mesmos. Tais elementos indicariam um processo de mudança histórica, que se dá num terreno além da arquitetura.
Vitrúvio lembrava que, na arquitetura, sempre "alguma coisa significa, e alguma coisa é significado". Dissociar o elemento construtivo de seu significado, em nome de uma periodicidade "objetiva", não é nem um pouco adequado a uma publicação, cujo campo de investigação possui enormes carências em nosso meio.
Não sendo apenas um problema de terminologia, o mais adequado seria, no entanto, substitui-la, adotando como critério para tanto o de maior proximidade possível das categorias mediante as quais as obras arquitetônicas foram geradas. Assim, o termo "estilo" deveria ser trocado pelo termo "espécie" ou "gênero", mais apropriados para designar as diversas manifestações no campo da arquitetura.
Tais distinções não podem ser eclipsadas sob os rótulos imediatistas e personificantes criados em nossa era. Questão de decoro, uma vez que, para a arquitetura, é preciso demonstrar as congruências entre a edificação e o propósito para o qual foi erguida.
Feitas essas ressalvas, o glossário que acompanha o dicionário pode se tornar interessante e útil, na medida em que o léxico referente aos elementos arquiteturais ainda mantém, embora involuntariamente pensadas nas atuais publicações, ligações inconsúteis com os seus respectivos contextos de origem. Além do mais, a tradução correta e o projeto gráfico despojado e sóbrio fazem da edição brasileira uma obra merecedora de atenção.