

Quatro gerações da nossa economia
GUIDO MANTEGA
Clemenceau, primeiro ministro da França na época da Primeira Guerra Mundial, disse em certa ocasião, sem ter conhecido Gustavo Franco, que o dinheiro era importante demais para ficar nas mãos dos diretores do banco central. Pelas mesmas razões, poderíamos presumir que a política econômica é importante demais para ser deixada nas mãos dos economistas. No entanto, é justamente isso que tem acontecido nos últimos 30 ou 40 anos, neste nosso capitalismo cada vez mais "dependente e associado", em que os economistas ganharam um enorme espaço político e têm participado das decisões mais importantes da República.
Por isso, conversar com economistas brasileiros, como fazem Biderman, Cozac e Rego, significa dialogar com alguns dos protagonistas da vida pública brasileira, ao longo dos últimos 50 anos, que, quer se goste ou não, escreveram algumas das páginas mais importantes de nossa história econômica. Pela primeira vez em nossa literatura econômica, o leitor terá a oportunidade de apreciar, ao mesmo tempo, uma radiografia completa de 13 pesos pesados de nossa comunidade econômica, colocados lado a lado para se pronunciarem sobre as mesmas questões. Instigados por entrevistas muito bem preparadas, nossos personagens relataram, sem papas na língua, passagens extremamente importantes de sua formação e de sua atuação no cenário político e econômico brasileiro.
O resultado foi um texto ágil, leve e de fácil assimilação, mesmo nas questões teóricas mais cabeludas. O cruzamento entre as passagens da vida pessoal, as predileções teóricas, as idiossincrasias e a ação prática desses economistas forneceram uma visão integral, multifacetada, enfim, muito mais rica dos eventos históricos. Não se vê apenas o palco principal, mas são iluminados também os bastidores, a coxia, as antecâmaras do poder, que dão sentido a uma série de eventos, alguns dos quais ainda obscuros para a maioria dos mortais. A linguagem direta e coloquial permite uma intimidade, um clima de confidências que não se consegue nos frios textos escritos, vistos, revistos e expurgados das passagens mais comprometedoras.
O livro percorre quatro gerações de economistas, a começar pelo veterano Celso Furtado, monstro sagrado da economia brasileira, umas das poucas unanimidades do grupo e o maior representante vivo do pensamento cepalino no Brasil, juntamente com seu contemporâneo Roberto Campos, o campeão do liberalismo no país, que começou tão desenvolvimentista quanto Furtado, fundando o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e fazendo programas de desenvolvimento para o Estado, e hoje exorciza seu passado intervencionista. Depois vem o czar da economia, Antonio Delfim Netto, o santo do "milagre" dos anos 70 e igualmente autor do choque recessivo dos anos 80 e de várias tiradas satíricas, e o discreto Mario Henrique Simonsen, arquiteto da famosa fórmula salarial do período militar, de muitas equações econométricas e também de atitudes dignas, como ter tirado Maria da Conceição Tavares da prisão dos militares. Campos, Delfim Netto e Simonsen alternaram-se no comando da política econômica dos governos militares, enquanto Affonso Pastore presidiu durante algum tempo o Banco Central. É particularmente interessante verificar como esses personagens revêem sua própria atuação no passado e se mantêm como referências respeitáveis da economia política brasileira, até mesmo pelos adversários.
Naturalmente, não se espere uma visão objetiva ou isenta dos fatos, se é que isso existe em algum lugar. Mas a parcialidade de uns é neutralizada pela crítica ou pela parcialidade dos outros que vêm logo em seguida. Ou alguém tem dúvida que a passionária Maria da Conceição Tavares iria deixar passar em branco certas distorções cometidas pelas hostes adversárias? O leitor, habituado com o ímpeto de nossa professora, vai se surpreender com a sobriedade e respeito de Tavares pelos adversários, sabendo valorizar as contribuições e dando uma magnífica aula de economia brasileira e mundial, num dos depoimentos mais brilhantes do livro. Do mesmo lado da cerca que Conceição Tavares, Luiz Gonzaga Belluzzo demonstra, com sua erudição, por que a Unicamp tornou-se um centro de referência importante na constituição do pensamento econômico brasileiro.
Na passagem da geração mais antiga de economistas para a nova está Luís Carlos Bresser Pereira, também um crítico do modelo brasileiro de desenvolvimento, que, depois de breve passagem pelo ministério da Fazenda e um plano econômico mal-sucedido, se envolveu na questão da inércia inflacionária.
Na última safra de entrevistados estão os economistas que estiveram, em maior ou menor medida, envolvidos nos planos de estabilização ou na execução da política econômica dos anos 80 em diante, com exceção de Giannetti da Fonseca. São eles Paulo Nogueira Batista Jr., que cuidou da dívida externa no ministério Funaro, Edmar Bacha, que trabalhou na retaguarda do Real e os inventores da moeda indexada, André Lara Resende e Pérsio Arida, e da suposta "teoria" da inflação inercial, a base do Plano Real, que deu a vitória a Fernando Henrique Cardoso, em 1994.
Certamente, cada um de nós economistas que analisar a lista dos entrevistados detectará a ausência de personagens importantes. Eu, por exemplo, senti a falta de Paul Singer, Francisco de Oliveira, José Serra, João Manoel Cardoso de Mello, Antonio Barros de Castro, Francisco Lopes, Carlos Lessa e, por que não, do próprio Fernando Henrique Cardoso, um dos responsáveis pela teoria da dependência, cujas entrevistas dariam margem, no mínimo, a mais um livro. Então não há outra saída senão a de confiar no arbítrio dos autores, que foram forçados a selecionar uma lista limitada de entrevistados para não ultrapassar a margem já elevada das 445 páginas que o livro possui.
Houve pouco acordo entre os entrevistados quanto à criatividade dos economistas brasileiros em inventar novas teorias. Campos, Delfim Netto e Simonsen, por exemplo, foram os mais céticos e não vêm obras dignas de nota, a não ser o "Princípios de Economia Monetária" de Gudin e o "Formação Econômica do Brasil" de Furtado. Já Conceição Tavares e Belluzzo reconhecem a contribuição da teoria do subdesenvolvimento da Cepal e de Furtado, da qual são tributários, e dão alguma importância, sem muito entusiasmo, é verdade, à teoria da dependência, que é solenemente ignorada pelos demais, com exceção de Bresser Pereira. A discutível "teoria" da inflação inercial é valorizada apenas por Bresser Pereira e pelos economistas da nova geração, que participaram de sua elaboração, mas sua condição de teoria é negada pela maioria dos entrevistados. A grande diversidade das opiniões sobre a produção teórica brasileira indica que, além das diferenças ideológicas que separam esses economistas, há uma questão de fundo a ser considerada. É a interferência das vaidades pessoais, que dificultam uma análise objetiva e mais distanciada das idéias. Afinal nem sempre ou talvez raramente os criadores são os melhores juízes de sua obra.
Estas "Conversas" fornecem muitas informações e trazem à baila as tantas dúvidas e polêmicas que dividem os economistas brasileiros neste final de século. Por exemplo, sobre o papel do Estado, da inflação, da balança de pagamentos; existem dúvidas até mesmo sobre se a economia é uma ciência ou uma arte. Mas o balanço da produção teórica da atualidade e a tendência das escolas de economia, que ficam assinaladas nas diversas falas, nos deixa uma impressão desanimadora. Fica a sensação de que a época de ouro da economia política brasileira acabou nos anos 50 e 60. Predomina hoje um colonialismo cultural, ao qual se submetem as novas gerações de economistas na tentativa de imitar os padrões das escolas americanas. Resta esperar que as novas levas de economistas sejam inoculadas pelo vírus da criatividade que tanto estimulou os pensadores do passado.