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Esther Hamburger - 106 - Junho de 2016
Quadro a quadro
As possibilidades de uso do espaço cênico no cinema
Foto do(a) autor(a) Esther Hamburger

ESTHER HAMBURGER

Conversas em torno de uma mesa Quadro a quadro

As possibilidades de uso do espaço cênico no cinema

 

 

FIGURAS TRAÇADAS NA LUZ: A ENCENAÇÃO NO CINEMA

David Bordwell

Tradução: Maria Luiza Machado Jatobá

PAPIRUS EDITORA

352 p., R$ 79,90

 

Com quase 115 anos de existência, o cinema emerge como núcleo de um campo de estudos específico e promissor, cujo desafio é dar conta de objetos multiformes, em permanente transformação de meios e formatos, que desafiam as fronteiras de disciplinas e esquemas teóricos estabelecidos.

No centro de uma constelação de formas instáveis, porém estratégicas na vida contemporânea, desafia categorias que organizam a reflexão crítica. Simultaneamente arte e indústria, o cinema estimulou estudos nas fronteiras das artes visuais e cênicas, literatura, psicanálise, história, ciências sociais e filosofia. O recorte disciplinar se desdobra também em linhas transversais que encontram na teoria crítica, no estruturalismo, nos estudos culturais e em outras abordagens pós-estruturalistas, matrizes teóricas que acenam com a possibilidade de posicionamentos em modelos teóricos abrangentes.

Com 16 livros e mais de uma centena de artigos publicados em diversas línguas e continentes, David Bordwell é figura central nesse campo emergente. O professor, que se define como “do meio-oeste americano”, leciona desde o final dos anos 1970 na Universidade de Wisconsin, Madison, onde dirige desde 2000, o Wisconsin Center for Film and Theater Research e de onde provoca cânones diversos em busca da definição de fronteiras claras para a disciplina.  

 

Neoformalismo

 

Ao longo de sua carreira Bordwell engendrou abordagem original e polêmica. Conhecido como “neoformalista”, desenvolveu seu pensamento em direção ao cognitivismo. Rótulos a parte, importa resgatar a preocupação desse pesquisador com a formulação alternativa às interpretações que acabam por reduzir filmes a ilustrações de grandes teorias exógenas. Avesso a abordagens psicanalíticas – seja freudianas ou lacanianas – Bordwell procurou formular alternativa também a aproximações hermenêuticas oriundas da literatura.  Sua bibliografia inclui livros texto e monografias sobre diretores pertencentes a períodos históricos e países tão diferentes como Eisenstein, Ozu e Dreyer. Bordwell é autor também de livros mais abrangentes, como este Figuras traçadas na luz. Trata-se de seu primeiro livro publicado no Brasil, ampliando o escopo bibliográfico disponível, especialmente no campo anglo-saxão.

O livro oferece capítulos cuidadosos e detalhados dedicados a cada um de quatro diretores relativamente pouco estudados na história do cinema: Louis Feuillade, diretor francês do primeiro cinema, autor de cerca de 500 filmes de diversas durações para a Gaumont no início do século XX; Kenji Mizoguchi, mestre do cinema japonês do período seguinte, que atuou até 1956, ano de sua morte e de seu último filme, A rua da vergonha, um dos títulos analisados por Bordwell; Theodoros Angelopoulos, cineasta grego que começou a atuar nos anos 70 tomado aqui como exemplo moderno e Hou Hsiao-hsien, contemporâneo, chinês de Taiwan onde começou a filmar em 1980. O esforço vale pela erudição e pela clareza da exposição.

O trabalho contribui para desenvolver o olhar sobre diferentes possibilidades de uso do espaço cênico no cinema, elemento que no trabalho de André Bazin, extensamente citado por Bordwell, caracterizou a emergência de um certo realismo associado ao cinema moderno. Na versão de Bordwell, o plano seqüência e a profundidade de campo, elementos que a crítica francesa, na esteira do Cahiers du cinéma associou a Welles, Wyler e Renoir, se revelam elementos estruturantes desde o primeiro cinema.

A seleção dos filmes e autores constitui em si parte do exercício a que o livro se propõe: estudar a “encenação” como recurso especificamente cinematográfico. A defesa desse específico cinematográfico inclui extensa discussão no primeiro capítulo sobre o conceito mais abrangente de mise en scène e justifica a escolha de autores situados em situações históricas e culturais díspares.

Bordwell se interessa pelo cinema como arte da encenação, entendida tecnicamente, como composta estritamente por cenário, iluminação, figurino, maquiagem e movimentação dos atores no interior do quadro.  Em seus comentários sobre diversas obras dos cineastas que dão título aos diversos capítulos e sobre obra de outros cineastas que funcionam como referência (é o caso, por exemplo, de Antonioni para Angelopoulos), Bordwell privilegia, dentre esses aspectos, a movimentação e a expressão dos atores em cena. Interessa o acontecimento no interior da imagem propriamente dita em cineastas cujo estilo favorece a encenação.

Variáveis como o tempo de duração média de cada plano, o posicionamento dos atores frente à câmera, o tipo de lente utilizada e o efeito que ela produz são descritas em detalhe, quadro a quadro. O livro é fartamente ilustrado com fotogramas que reforçam a tese defendida sobre padrões recorrentes presentes no trabalho de cada diretor. 

No texto de Bordwell, questões teóricas mais amplas partem de uma âncora empírica muito concreta na substância mesma da película. Seu trabalho se contrapõe “aos sistemas explicativos que dominaram a historiografia do cinema. Estes têm sido relatos macroscópicos que conectam o estilo do filme (ou aspectos dele) ao espírito de um tempo, a uma ideologia, a culturas nacionais ou a condições de época, como “modernidade” ou “pós-modernidade”. É nessa chave que no último capítulo o autor dá continuidade à polêmica com Slavoj Zizek, autor esloveno que se apóia na filosofia, na psicanálise e no cinema para tecer uma espécie de crônica sofisticada da morte anunciada do império americano.

Bordwell propõe uma aproximação indutiva que permite discernir estilos autorais para além de gêneros ou temáticas. Aqui interessa a manipulação da técnica de direção cinematográfica a partir da resolução de problemas concretos de filmagem. O livro se desenvolve em torno do desafio de como filmar uma conversa em torno de uma mesa – problema recorrente na França do início do século 20 ou na Taiwan do início do novo milênio – e que encontra soluções diversas na composição de diretores que manipulam o repertório cinematográfico de maneira pessoal. 

Figuras traçadas na luz oferece comparação rigorosa do estilo de quatro diretores que privilegiam a encenação. Ao final fica demonstrada a tese que orientou a seleção do material extensivamente analisado e que implica em rever noções estabelecidas. O autor evita, por exemplo, a distinção entre o cinema clássico e moderno, ou o cinema de atrações.

O livro participa e provoca debates estimulantes. Bordwell possui o grande mérito de olhar a tecnicalidade da imagem fílmica. Seu texto é preciso. Permanecem em aberto as conexões dessas imagens, cada vez mais presentes, muitas vezes além das telas, com a vida – sem perder a âncora com a pele fílmica. 

Esther Hamburger é antroóloga e professora da ECA-USP.
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