

Princípios da vida
MAURÍCIO DE CARVALHO RAMOS
A biologia contemporânea quer entender a vida como ela é, ou seja, a vida tal como a conhecemos. Já os esforços para definir racional e objetivamente "o que a vida é" são comparativamente mais raros. "O Que é Vida?" não é um tratado sistemático de biologia teórica, mas encara esse desafio com importantes inovações. Trata-se de uma coletânea de textos cuja organização visa a uma real unidade. Seus vários artigos podem ser lidos de modo a revelar uma biologia algo diferente, sustentada por uma definição de vida capaz de legitimar e sintetizar as investigações sobre sua estrutura, origem e evolução. Contudo, apesar das valiosas indicações dadas por El-Hani e Videira na apresentação da obra, a percepção dessa desejada unidade ainda depende muito do leitor. Se o diálogo que se tenta ouvir entre os vários autores tivesse ocorrido mais amplamente, a síntese teórica pretendida seria ainda mais completa.
A obra certamente não oferece uma definição final de vida, mas também não assume o que Emmeche e El-Hani (capítulo 2) definem como a posição tradicional sobre a questão: a vida não pode ser rigorosamente definida e tal definição é irrelevante para o desenvolvimento da biologia. Criticando tal visão a partir de certos elementos da filosofia da ciência, os autores propõem três definições de vida, associadas a três paradigmas da biologia teórica: vida como seleção natural de replicadores, como autopoiese e como fenômeno semiótico. Os capítulos 1 e 2 podem ser utilizados como um mapa epistemológico capaz de indicar a ordem e a relação dos vários conceitos que são apresentados nos demais capítulos. Vejamos brevemente dois exemplos.
No interior do paradigma neodarwinista, a vida é definida como a propriedade de populações de seres que se auto-reproduzem, herdam geneticamente características dos ancestrais, modificam por mutação tais características e podem ou não deixar descendentes em função da interação dessas características com as condições ambientais. Aqui não se trata de definir uma lista de propriedades necessárias e suficientes que revelariam a própria essência da vida. Ao contrário, é uma seleção de propriedades à luz de uma estrutura teórica mais ampla, composta por proposições, leis, técnicas e princípios metafísicos. Os paradigmas, no sentido de Kuhn, podem ser exemplos de tais estruturas. É no interior do paradigma que a definição de vida ganha sentido e não a partir de sua correspondência com uma suposta realidade essencial da vida.
Porém, mesmo abandonado o compromisso essencialista, a definição deve atender ao requisito de universalidade. Isso implica, explicam os autores, que as propriedades do vivo podem, em princípio, aparecer sob bases materiais diversas: "a referência a "genótipo" e "fenótipo" não implica necessariamente genes feitos de DNA e organismos feitos de células". Ora, isso se encaixa perfeitamente no projeto da vida artificial (capítulo 12), cujo objetivo é reproduzir em qualquer base material as propriedades fundamentais da vida. Como "estudo de toda vida possível", esse projeto aparece como fundamento para uma "biologia universal" que estudaria a vida tanto em sistemas computacionais (vida em certos padrões de movimento dos elétrons) como por meio das reações químicas que supostamente teriam participado da origem da vida na Terra (capítulo 4) ou mesmo fora dela (capítulo 13).
Uma segunda análise, mais ampla, pode identificar o "tempo" como ponto de encontro entre os paradigmas. Como marco do fim do essencialismo na biologia, a teoria científica da evolução orgânica passa a conceber a vida como fenômeno histórico e temporal, mas, dependendo do paradigma envolvido, parece delinear-se uma relação particular entre vida e tempo. No neodarwinismo, a vida é definida tanto a partir de fatores internos (o metabolismo) como externos ao organismo (a seleção natural, a adaptação e a reprodução). Mas os aspectos externos parecem ser mais fundamentais. São eles que podem garantir "no futuro" a realização de um objetivo comum a todos os organismos: produzir descendentes mais aptos. Em uma palavra, como dizem Nunes e Oliveira (capítulo 6), "os sistemas vivos buscam a continuidade".
Já na concepção autopoiética de vida ocorre, cremos, exatamente o contrário: apesar da adaptação ao ambiente ser um fator essencial no interior do paradigma, o que define a vida é prioritariamente seu aspecto interno, a saber, a dinâmica de reações metabólicas que gera a auto-organização dos sistemas biológicos. Uma vez estabelecida tal dinâmica, a vida já é dada e mantida "no presente", no momento mesmo em que sua autoprodução (autopoiese) se realiza.
Temos ainda o passado a considerar, que também pode ser examinado à luz das definições mencionadas. Mas, de um modo mais "clássico", o passado biológico é do âmbito da paleontologia e, nessa abordagem, o livro "Vida: Uma Biografia Não-Autorizada", de R. Fortey, oferece uma exaustiva e atualizada descrição de quatro bilhões de anos de história natural. A obra narra o desenvolvimento de uma crescente complexidade biológica na Terra (de células procarióticas isoladas a organismos eucariontes pluricelulares) por meio de uma cronologia linear que vai do Arqueano ao Recente, destacando episódios cruciais à luz do paradigma neodarwinista. Das condições físico-químicas pré-bióticas teriam emergido as mais antigas entidades vivas terrestres, identificadas às bactérias hipertermófilas. A partir daí e apoiado firmemente no registro fóssil Fortey oferece uma descrição pormenorizada do surgimento dos grandes grupos de organismos, seguindo de perto a divisão de Margulis: arquebactérias, eubactérias, protistas, fungos, vegetais e animais. Mas ao contrário da costumeira história linear e cumulativa, a obra põe em relevo as variações históricas da diversidade. O sucesso da continuidade da vida aparece na articulação de duas histórias, uma biográfica e outra geográfica. Este livro termina com uma discussão sobre o papel do acaso na evolução e na interação dessas duas histórias, um tema que nos reconduz diretamente às principais questões tratadas em "O Que é Vida?".
São duas obras cujo valor maior está em nos mostrar que a investigação científica geral, teórica e interdisciplinar em biologia pode ser tão rigorosa e séria quanto o trabalho experimental especializado.
Maurício de Carvalho Ramos é biólogo e doutor em filosofia pela USP.
O Que é Vida? Para Entender a Biologia do Século 21
Charbel N. El-Hani e Antonio Videira (orgs.)
Relume Dumará/ Faperj
(Tel. 0/xx/21/564-6869)
311 págs., R$ 29,00
Vida: Uma Biografia Não-Autorizada
Richard Fortey
Tradução: Jorge Calife
Record (Tel. 0/xx/21/585-2000)
389 págs., R$ 40,00