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Newton Bignotto - 125 - Setembro de 2026
Presença da filosofia feminina
O desafio de introduzir a filosofia feminista no Brasil.
Foto da capa do livro Introdução à filosofia feminista
Introdução à filosofia feminista
Autor: Paula Gabriela Mendes Lima
Editora: Edições 70/Discurso Editorial - 216 páginas
Foto do(a) autor(a) Newton Bignotto


Quem entrar no Parque Municipal de Belo Horizonte, no centro da cidade, por seu portão principal, vai se deparar com a estátua de duas escritoras: Lélia Gonzales e Carolina Maria de Jesus. Elas são ambas escritoras, pensadoras, artistas, figuras fundamentais da cultura contemporânea brasileira. A primeira escreveu livros de sociologia, de história, militou em favor da causa feminista e da população negra, denunciou e estudou o racismo brasileiro e lutou para mostrar a importância da herança africana em nossa história cultural e política. Carolina, foi escritora, cantora, poeta e escreveu uma das obras mais influentes da literatura brasileira do século XX- Quarto de Despejo. É comum vermos crianças e adultos lendo as placas comemorativas e tirando fotos ao lado das estátuas. Esse gesto tem algo de inédito na sociedade brasileira que não costuma festejar os feitos de mulheres negras. Alguns, mergulhados no oceano de preconceitos dominantes em nossa época, podem pensar que se trata de uma moda, que logo vai passar. O livro de Paula Lima -Introdução à Filosofia Feminista- mostra que estão enganados. Não é uma moda, é uma urgência. Estamos diante de uma etapa da luta que se desenrola há mais de duzentos anos em nosso país e que está longe do fim.

Paula Lima é pesquisadora e professora de filosofia política e ética .Ela aceitou o desafio de escrever um livro que servisse de introdução à filosofia feminista. Introduzir uma corrente de pensamento, a história de uma luta social e política, a trajetória de atoras relevantes da cena pública é um desafio enorme, que parece encoberto pela falsa ideia de que uma introdução é o resumo de algo conhecido. O percurso de Paula Lima não tem nada de simples ou de fácil. O primeiro obstáculo é encontrar uma definição mínima do que é o feminismo. Para a autora: “O feminismo é um movimento de ideias e ações que busca uma transformação social, ética, política e jurídica.” Trata-se, portanto, de um fenômeno amplo, que se manifestou e se manifesta de várias maneiras ao longo da história. O objetivo principal do livro é destacar, no seio dessa rica trajetória, a presença da filosofia que, incorporando as outras dimensões, fez surgir um quadro rico e variado de formulações teóricas a respeito dos muitos temas associados ao movimento feminista. Como resume Paula: “O feminismo, ao contrário, é a defesa da multiplicidade de perspectivas sobre o mundo”.

Falar de filosofia feminista implica falar do pluralismo das ideias e das lutas das mulheres para ocupar seu lugar na sociedade. A filosofia é um saber com suas especificidades. No caso de sua expressão feminista, ela elabora conceitos e argumentos que precisam estar em relação com a realidade atual e passada de lutas e diferenças, para acrescentar algo ao que podemos chamar de galáxia do feminino. Paula escolhe partir das três “ondas” do feminismo, que conectam as diversas épocas nas quais nasceram as muitas ações e ideias que construíram o palco de uma história singular. A primeira onda começou no final do século XIX, quando a luta pelos direitos, do voto em particular, ocupou um lugar central. A segunda onda (1950-1980), “fase em que o movimento feminista vai além da luta por direitos e passa a questionar as estruturas sociais, culturais e privadas que mantêm a desigualdade entre os gêneros”, se expandiu por vários países permitindo maior visibilidade das causas defendidas. A terceira onda acolheu maior diversidade de situações incluindo mulheres negras, grupos LGBTQIA+, indígenas e outros. Se nas duas primeiras ondas a exclusão de grupos marginalizados foi muito criticada pelas pensadoras da questão, nos dias de hoje, o risco de uma fragmentação das ações e do pensamento é apontado como algo que pode ser nocivo aos movimentos feministas.

Paula Lima mostra que o Brasil não esteve ausente nessas lutas. No começo do século XX, ativistas como Bertha Lutz liderou o movimento sufragista que levou ao reconhecimento do direito ao voto feminino em 1932. Antes dela, Nísia Floresta já havia defendido o direito das mulheres à educação em 1832. Ao longo das décadas, mulheres como Heleieth Saffioti, Rose Marie Muraro, Benedita da Silva, Eva Alterman Blay e tantas outras, contribuíram para inscrever em nossa história páginas de luta e conscientização da sociedade, que contribuíram para construir o mapa atual das reivindicações feministas. No plano das ideias, pensadoras como Heloísa Teixeira (Buarque de Holanda) com sua extensa obra, que vai da crítica literária à história cultural, marcou, a partir dos anos oitenta, toda uma geração de feministas que viu nela o exemplo da fusão bem-sucedida entre o chamado “feminismo acadêmico” e os movimentos sociais e culturais das periferias das grandes cidades. O trabalho de Paula Lima se inscreve nessa linha e contribui de forma inovadora para abrir novas veredas no planeta feminista.

O leitor, no entanto, que espera um escrito que foge de polêmicas e dificuldades, vai se decepcionar. Em momento algum a autora procura se colocar em evidência, para expor ideias com pouco lastro na história política e cultural do feminismo. Longe disso. Suas análises são sólidas e bem fundamentas, mas não deixam de lado os pontos mais complicados do pensamento feminista contemporâneo. Isso fica claro, por exemplo, quando expõe as críticas que Simone de Beauvoir fez à psicanálise. Para a pensadora francesa, a maneira como a psicanálise trata as mulheres é uma indicação de como ela ainda está presa aos velhos cânones das sociedades patriarcais. Essa posição está fundada na maneira como ela enxergava a obra de Freud, e de seus discípulos, em particular no lugar que nela ocupa a noção de inconsciente e o conceito de “inveja do pênis”. Paula aborda o problema à luz do que chama de “perspectiva antropológica”. Nela, a questão das mulheres é inserida na longa duração histórica e analisada por meio de conceitos que permitem compreender a violência que constituiu “o lugar social da mulher” tratada como objeto. Essa maneira de abordar a psicanálise já foi objeto de muitas críticas. Voltar a ela, ajuda Paula Lima a localizar os pontos altos da construção do pensamento feminista, que não pode deixar de lado suas teorias mais polêmicas, se quiser erigir um sólido edifício teórico.

O segundo capítulo é o mais pessoal do livro. Nele, Paula discute com várias pensadoras, expõe suas ideias, e não se furta de tomar posição no seio desse debate. O tom é vigoroso e, por vezes, militante. A força de algumas de suas afirmações, no entanto, não está em contradição com os conceitos que discute. Uma das teses fortes do livro é a da existência de uma filosofia feminista que contém uma epistemologia. Ora, ao expor sua natureza ela afirma: “a epistemologia feminista é uma ação, uma prática, não é algo adquirido pronto em um livro, ela é um pensamento-ação”. À luz do pensamento de Nancy Fraser, ela vai ainda mais longe: “E emancipação é algo central na epistemologia feminista”. Ao se posicionar dessa forma, a autora reconhece se inspirar no princípio marxista de que a filosofia deve transformar o mundo. Dizendo em outros termos, para transformar o chamado cânone da filosofia ocidental, Paula afirma ser necessário repensar a razão filosófica “denunciando-a como uma narrativa hegemônica masculina, europeia e branca”.

As teses defendidas no livro são polêmicas e, por vezes, incômodas. Pode-se dizer que esse é um efeito desejado pela autora, que longe de fugir do debate o acolhe e mostra sua extensão. Na parte final do livro, a exposição das diversas abordagens filosóficas feministas -liberal, marxista, negro, pós-colonial, decolonial-, contribuiu para alagar ainda mais o horizonte de pesquisa sobre o feminismo, mostrando sua diversidade e amplitude teórica.

Introdução à filosofia feminista é uma contribuição relevante para o debate filosófico brasileiro. Informando, polemizando, criticando a tradição filosófica, o livro alarga os horizontes da reflexão política e social abrindo-se para novos problemas, novas abordagens, novos mundos.

NEWTON BIGNOTTO é professor aposentado de filosofia da UFMG


Newton Bignotto é professor do departamento de filosofia da UFMG.
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