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Ernani Chaves - 106 - Junho de 2016
Poder e glória
A última consideração extemporânea de Nietzsche
Foto do(a) autor(a) Ernani Chaves

ERNANI CHAVES

Poder e glória

A última Consideração extemporânea de Nietzsche

 

WAGNER EM BAYREUTH

Friedrich Nietzsche

Tradução: Anna Hartmann Cavalcanti

JORGE ZAHAR

180 p., R$ 34,90

 

“Integralmente guerreiras”. Foi com esta expressão, contundente, incisiva, que Nietzsche caracterizou, no Ecce homo (1888), o conjunto de suas quatro Considerações extemporâneas, escritas e publicadas num curto espaço de tempo, entre 1872 e 1875. Com elas, continua, ele teria provado não ser um romântico “João sonhador”, mas alguém que tem prazer na contenda, que se diverte ao “desembainhar a espada”.

Entretanto, Nietzsche separa, cuidadosamente, o espírito dessa luta, tal como se apresenta nas duas primeiras e nas duas últimas Extemporâneas. Naquelas, trata-se, desde o título, de um ataque frontal, seja contra os descaminhos da cultura alemã, por meio de uma severa crítica a David Strauss, seja contra o “sentido histórico”, reconhecido como uma doença, como a intromissão da barbárie em meio à cultura. Nestas, por sua vez, o combate contra esses mesmos aspectos se realiza por meio de duas “imagens” de dois tipos extemporâneos par excellence, Schopenhauer e Wagner. Para acrescentar, logo em seguida, que essas imagens, esses tipos remetem a um só, nem a Schopenhauer, nem a Wagner, mas a ele mesmo, Nietzsche.

Se tomarmos essas observações não apenas como o conhecido efeito de uma “recorrência” que julga a obra pretérita pelo estado do pensamento no presente, mas como uma leitura atenta e arguta que Nietzsche faz de seu próprio percurso intelectual, então podemos fazer uma leitura de Wagner em Bayreuth que escapa do lugar-comum segundo o qual este texto constituiria, em seu cerne, um elogio, uma espécie de ponto culminante da “idolatria” de Wagner por parte de Nietzsche ou ainda, a maior de todas as homenagens que Wagner recebeu em vida.

Nesta perspectiva, o rompimento de Nietzsche com Wagner é atribuído a uma única causa: ao cristianismo do Parsifal.  Mais ainda: que as críticas posteriores são efeitos retóricos, expressões do ressentimento do próprio Nietzsche, o músico frustrado, de tal modo que a preferência pela Carmen de Bizet é atenuada, desqualificada até, em todos os planos nos quais ela se coloca, sobremaneira no plano musical.

 

Uma única obra

 

Isso não significa que o elogio, a exaltação à figura de Wagner, ali comparado a Ésquilo, a Heráclito, não exista ou ainda, que o projeto-Bayreuth não tenha também seduzido e fascinado Nietzsche como a possibilidade de uma renovação (bastante conservadora em alguns aspectos!) da cultura alemã por meio da aproximação entre arte e vida ou ainda entre música e drama. Não por acaso Schopenhauer e Wagner são considerados como “imagens” e “tipos”, alguns poderiam dizer como “personagens”, havendo quase uma solicitação de Nietzsche para que leiamos as duas últimas Extemporâneas como se formassem uma única obra.

É por considerar Wagner, antes de tudo, como uma imagem e um tipo que Nietzsche pode transitar com desenvoltura da vida à obra e da obra à vida sem sucumbir nem ao psicologismo (ao contrário do que pensava Adorno algumas vezes) nem ao relato biográfico meramente cronológico e ilustrativo. É apenas como figura e tipo que Nietzsche pode falar de uma “verdadeira vida de Wagner, na qual se revela pouco a pouco o dramaturgo ditirâmbico”. E essa “verdadeira vida” não é, de forma alguma, uma espécie de suma entre talento e genialidade, elevação moral e sublimidade artística, mas “uma luta incessante consigo próprio”, pois Wagner mesmo abrigava as contradições denunciadas por sua música e seus escritos teóricos.

Qual a tentação de Wagner, uma tentação que sempre o acompanhou? Aquela, responde Nietzsche, que se expressa numa “sombria vontade pessoal de poder e glória, ávida e insaciável”. Uma espécie de atração fatal pelos efeitos que o drama pode alcançar. Daí a premente necessidade de continuar nas sendas abertas por Beethoven, mas que este não seguiu até o fim, ou seja, de insistir muito mais na paixão, no pathos, do que no ethos. Foi apenas o cristianismo do Parsifal que afastou Nietzsche de Wagner ou também o reconhecimento de que a ultrapassagem de Beethoven não se efetivou plenamente, tal como ele, Nietzsche, o desejara? Não foi este o passo adiante de Carmen, a despeito dos wagnerianos de ontem e de hoje?

Do meu ponto de vista, a necessária leitura de Wagner em Bayreuth fica muito mais interessante na medida em que o texto deixa de ser visto apenas como uma espécie de canto do cisne da “metafísica de artista”, que conduziu, de início, o pensamento de Nietzsche, mas também como um texto que se encontra no limiar, numa espécie de passagem que nos conduz com alguma segurança aos outros caminhos que Nietzsche, nesta mesma época, já está trilhando em seu pensamento. E se houve algo em Wagner que Nietzsche de fato invejou foi, sem dúvida, o estilo, em especial o do escrito sobre Beethoven. “Wagner em Bayreuth”, no entanto, mostra, da primeira à última linha, que esta inveja não tinha mais razão de ser.

 

Ernani Chaves é professor do departamento de filosofia da Universidade Federal do Pará
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