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Paulo Sergio Duarte - 42 - Setembro de 1998
Peso e fluência
Foto do(a) autor(a) Paulo Sergio Duarte

Peso e fluência

PAULO SERGIO DUARTE

Todos os que se interessam pela arte contemporânea brasileira sabem: José Resende é um dos nossos maiores escultores. Agora, a exposição no Centro de Arte Hélio Oiticica (RJ), com curadoria de Ronaldo Brito, demonstra isso de modo indubitável.
São 20 trabalhos, nada domésticos, reivindicando, cada um à sua maneira, uma forma pública de estar no mundo. Dois com escala física monumental, todos exigindo, no mínimo, uma sala com dimensões museológicas. O desenvolvimento dessas inteligentes manobras, que constituem as articulações escultóricas de Resende, está pontuado por obras de 1974 até 1998. Estamos longe de um resumo da obra, mas temos presente uma variedade de trabalhos suficiente para perceber sua consistente contribuição à arte brasileira.
Desde o final dos anos 60, José Resende mantém uma conduta em suas investigações que o deixa muito próximo de experiências italianas como as que eram desenvolvidas por Gilberto Zorio, Giovanni Anselmo ou Luciano Fabro, na mesma época. Essa solidão, no Brasil, cessa a partir do final dos anos 70 e início dos 80, quando seus procedimentos começam a ser assimilados por artistas brasileiros mais jovens, muitas vezes de modo diluído, mimetizando uma lógica sofisticada que solicita tudo do entendimento, menos sua reprodutibilidade.
A escultura moderna no Brasil, que já forma um corpus capaz de preencher um capítulo da história da arte deste século, tem hoje dois pólos atuantes, muito presentes, dentro da tradição construtiva, nas obras ainda em processo de Amilcar de Castro e Franz Weissmann. Acredito que os desdobramentos dessa herança, que conta com diversas manifestações de qualidade, encontram nos trabalhos de José Resende e de Tunga suas polarizações contemporâneas. No primeiro, a conquista da dimensão plástica numa sintaxe dos materiais cujas regras são sempre reinventadas pelas exigências das esferas léxicas postas em contato, por exemplo: rígido/mole, líquido/sólido, opaco/transparente, volume/plano, liso/áspero. Nunca nessa ordem banal e evidente, nem sempre obedecendo com rigidez aos pares de oposição.
No outro extremo, na obra de Tunga, a potencialização eloquente do plano semântico, mediante o uso metafórico de filosofia, teorias e invenções mitológicas em realizações que se auto-sustentam pela sua inteligência puramente visual.
Na exposição de José Resende, se não estou enganado, estamos explorando um desses limites atuais da estética no Brasil e redescobrindo a escultura como a grande arte.
Raramente a idéia da arte como puro evento plástico apresenta-se de forma tão poderosa como nos trabalhos aqui reunidos, numa montagem impecável. Essa idéia mantém à distância qualquer retórica que não se articule intrinsecamente na própria materialidade dos trabalhos construídos, num audacioso processo empírico, até pouco tempo estranho ao Brasil. É o próprio trabalho que transporta seu texto, implícito nos sucessivos momentos em que se agenciam suas articulações.


A OBRA
José Resende
Catálogo da exposição
(de 18/08 a 18/10 de 1998)
Texto: Ronaldo Brito
Centro de arte Hélio Oiticica
(tel. 021/232-2213)
60 págs. R$ 30,00



E, por isso mesmo, Ronaldo Brito pode afirmar no catálogo: "Evidentemente, com sinal positivo ou negativo, a noção de movimento permanece crucial para o escultor. A vocação moderna para o atual -a célebre divisa emancipatória: viver no plano- é reinterpretada quase ao pé da letra: a maioria das peças de Resende se perfaz diante dos nossos olhos. Experimentá-las equivale a repassar suas manobras, acompanhar sua excêntrica desenvoltura, aderir a seu vir-a-ser no mundo. Neste sentido, são rigorosamente atuais -concentram-se, inteiras, no aqui-e-agora. Arriscaria mesmo a afirmar que, quando se realizam plenamente, as esculturas de Resende adquirem comportamento, ganham personalidade, terminam modelos para uma conduta contemporânea ao mundo. E o seu traço decisivo será o expediente, elevado assim à categoria de axioma poético: saber adaptar-se criativamente às circunstâncias, desconstruí-las, reconstruí-las em função da liberdade da forma".
Ronaldo Brito sublinha o aspecto do "movimento" na escultura de José Resende de diversas formas. Primeiro, como "um tipo de fluência inédito no processo da arte moderna brasileira". Logo discerne uma das qualidades da poética do escultor, que é a de tornar fluente "todo o peso" do material com que trabalha. E, nela, o crítico explora uma das suas contribuições à teoria da arte contemporânea, desenvolvida, antes de tudo, a partir da reflexão sobre as experiências brasileiras -mas perfeitamente capaz de ser extrapolada para o modo de estar no mundo da arte neste fim de século: o caráter necessariamente transitivo da forma para fixar sua paradoxal dimensão ontológica.
O crítico percebe que a condição de existência da arte é atuar; mas esta ação, que se substancializa nos entes de José Resende, obedece "ao ritmo irregular das transições incessantes, ao caráter essencialmente móvel deste eu inquieto, corresponde uma escultura que se deseja parte integrante da tarefa incerta de construção do mundo". À tradição moderna que ainda aspirava a um encantamento com as figuras abstratas de uma fenomenologia que descobria o abismo da crise da civilização européia, José Resende responde com "um senso de estranhamento ao mundo que não é mais da esfera do sublime espiritual e sim de ordem propriamente pulsional".
E explica: "No limite, o que chamamos de caráter pulsional do trabalho, sua emergência material intempestiva, parece aspirar ao impossível: incorporar a dimensão do imaginário ao plano lógico do real. De todo modo, "a meu ver", diz Ronaldo Brito, "a sua simples presença no mundo atesta a viabilidade do élan erótico do belo em meio às contingências brutais da vida contemporânea".
Além do estudo de Ronaldo Brito, o catálogo é valorizado pela concepção gráfica de Sulamita Danowski. Resolveu, demonstrando, como sempre, maestria, o dilema de passar para a folha de papel a escultura de José Resende. E o objeto como um todo é digno da melhor tradição brasileira de programação visual: desde a definição do formato, com o uso de poucas cores em duotone, em sintonia com a obra de Resende, as escolhas tipográficas, até a diagramação do currículo. Sem nenhum apelo aos recursos rebarbativos de uma concepção pós-moderna, que pouco a pouco se dissemina, fazendo esquecer a saudável experiência construtivista acumulada desde os anos 50 -e vai transformando as peças gráficas em caixas de bombom muito chiques ou enjoados videoclipes estáticos-, Sulamita Danowski traduz para as dimensões portáteis da publicação as escalas monumentais e a dialética dos materiais com uma inteligência rigorosa no uso das imagens em páginas duplas e na edição das sequências criteriosamente definidas do claro e escuro.
Na medida do possível -e sem transformá-lo num "gadget"-, Danowski passou para o documento, de modo discreto, características da obra, no uso explícito do cartão rígido na capa, em oposição ao papel do miolo, e a lombada com tecido aparente. Dir-se-á que publicação sem lombada impressa se perde na estante... Não é o caso, quando esta é facilmente lembrada pelas suas características, que contrastam com o anonimato das demais. Colaboram para o trabalho da designer as excelentes fotografias em preto e branco de Antonio Saggese, César Barreto, Miguel Rio Branco e Rômulo Fialdini que ilustram o catálogo.

 


Paulo Sergio Duarte é crítico, professor de história da arte e coordenador geral de projetos culturais da reitoria da Universidade Candido Mendes.

Paulo Sergio Duarte é crítico, professor de história da arte e pesquisador do Centro de Estudos Sociais Aplicados / Cesap da Universidade Candido Mendes.
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