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Bento Prado Jr. - 13 - Abril de 1996
Pequeno mapa da filosofia de Espinosa
Foto do(a) autor(a) Bento Prado Jr.

Pequeno mapa da filosofia de Espinosa

 

BENTO PRADO NETO

A literatura didática ou paradidática certamente não está entre os gêneros mais fáceis ou tranquilos, na medida em que exige uma justa medida, de difícil determinação, entre excessos opostos, ou, pelo menos, uma solução de compromisso entre os interesses divergentes da facilitação do acesso ao saber e da manutenção de seu rigor. Tanto mais no caso da filosofia, que vive do cuidado ou do trabalho de sua linguagem. O pequeno mapa da filosofia de Espinosa que Marilena Chaui nos traça permite navegar sem colisões por esse estreito.
Fio condutor
"Espinosa - uma Filosofia da Liberdade" se constitui realmente num pequeno mapa da filosofia de Espinosa: não só percorre e expõe sucintamente as principais obras do filósofo, como procura articulá-las entre si pelo fio condutor indicado no subtítulo. Assim, o contexto histórico-social descrito no primeiro capítulo, mais do que a mera ambientação histórica, fornece o objeto e o impulso do pensamento espinosano, ao mesmo tempo em que o fio condutor de sua apresentação: a meditação da servidão, da violência do poder.
Árduo cristal
É do "Tratado Teológico-político" e do "Tratado da Correção do Intelecto" que partimos, isto é, da crítica da imaginação e de seus efeitos, intelectuais, religiosos e políticos, que são passividade e servidão, ausência de liberdade. A partir daí penetramos na "Ética" pelo livro I, ou melhor, pela ótica ou pelas múltiplas facetas dos seus escólios, nos quais podemos ver brilhar, através do árduo cristal da "ontologia" espinosana, as variadas cores da crítica da sociedade e da cultura que essa arquitetura conceitual analisa ao operar as difrações indicadas por Marilena (pág. 43): separação entre teologia, religião e filosofia, entre imaginação e intelecto. Feita a correção de foco do intelecto, as demonstrações do livro I devem nos levar, "como que pela mão", até à análise das condições de nossa liberdade e servidão, tanto no âmbito privado -na parte final da "Ética", resultando numa configuração inédita das relações entre razão e afeto, de solidariedade e não de oposição- quanto no domínio público -no "Tratado Político", resultando na defesa, solitária em sua época, da superioridade da democracia como forma de organização política.
Objeto palpável
Este pequeno mapa, detalhado o quanto é possível sê-lo, nada sacrifica do rigor às exigências de facilitação do acesso à obra espinosana, ao mesmo tempo em que as cumpre, e até mesmo incita esse contato. A "solução de compromisso" elaborada por Marilena nada tem de novo, para quem já conhece a autora por suas palestras e conferências de largo público. A eficácia dessa "justa medida" reside em procurar apontar o interesse vivo da filosofia, e assim convidar o público não-especializado a uma tarefa que não economiza esforço intelectual. No caso, exibindo o objeto concreto, e palpável para o leitor, da especulação do filósofo -a servidão humana vivida como ilusão de liberdade- e mostrando, frente a esse objeto comum a nós e a ele, como se pode "perder o medo de viver em ato" (pág. 82). Fórmula tão mais feliz quanto ela não provém de razões puramente didáticas (págs. 80-84). Mas essa exposição, ao mesmo tempo, já exibe, ou, melhor, não esconde o trabalho, árduo, que a compreensão do sistema implica, e, assim, deixa o leitor a meio caminho da obra de Espinosa, o que já não é pouco -e não é justamente isso que se espera de uma obra introdutória?
Enfim, um belo convite à leitura desse filósofo que preferiu contemplar Deus (por via reflexiva) a ser professor em Heidelberg. 

Bento Prado Jr. é professor aposentado da USP e professor titular da Universidade Federal de São Carlos
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