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Otávio Bueno - 23 - Fevereiro de 1997
Pecados capitais
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Pecados capitais

 

OTÁVIO BUENO

após as longas controvérsias entre Popper (que Laudan tendenciosamente coloca ao lado dos positivistas) e Kuhn (que, apesar das dramáticas tentativas de conter os excessos e mal-entendidos de suas propostas iniciais, é situado no front relativista), é natural que nos perguntemos o que há de novo no domínio da reflexão filosófica acerca da natureza da ciência e do estatuto cognitivo de suas teorias.
Neste livro, argumenta-se que alguns problemas e exageros do relativismo remontam ao "pecado dos pais", isto é, a algumas teses básicas do positivismo (em cujo interior, Laudan abriga autores tão diversos quanto Comte, Poincaré, Duhem, Carnap, Reichenbach e Popper). No seu entender, os diversos tipos de relativismo (epistêmico, metametodológico e linguístico) derivam de propostas positivistas. Por exemplo, a tese da subdeterminação -cuja importância para os propósitos relativistas é considerável, já que poderia ser empregada para se (tentar) mostrar a inviabilidade da elaboração de uma teoria da escolha em ciência- foi desenvolvida pela própria concepção positivista. Segundo essa tese, numa de suas diversas formulações, dado um conjunto finito de informações empíricas, é sempre possível construir teorias conceitualmente distintas, mas logicamente compatíveis com as informações existentes. Desse modo, conclui o relativista (empregando uma inferência cuja validade Laudan não deixará de contestar), não existem critérios objetivos de escolha entre teorias rivais.
Pode-se traçar a mesma origem positivista da tese do desenvolvimento cumulativo da ciência. Numa de suas versões, ela afirma que novas teorias devem incorporar o conteúdo explicativo de teorias anteriores (em certo domínio de investigação), além de explicar algum fato novo. Cumpre lembrar que foram os próprios relativistas (em particular, Kuhn e Feyerabend) que mostraram, com base em evidências históricas, que de fato a ciência não se desenvolve de forma tão simples. Há, com frequência, perdas conceituais ao longo da mudança de teorias. Curiosamente, Laudan salienta, a conclusão que extraíram desse fato (a saber, a recusa de que haja progresso na ciência, já que a mudança teórica não é cumulativa) baseava-se numa concepção "positivista", segundo a qual a retenção de conteúdo explicativo é condição necessária para o progresso do conhecimento científico.
Há, pois, no entender de Laudan, íntima afinidade entre essas duas concepções. Não obstante os positivistas jamais tenham pretendido defender teses de cunho relativista, acabaram por proporcionar, em triste ironia, alguns dos principais argumentos contrários justamente à objetividade e ao progresso da ciência, que tanto prezavam. Segundo Laudan, no momento em que esse ponto é notado com clareza, podem ser evitados os erros de ambas as propostas. Apresentar, elaborar e defender tal posição é seu objetivo ao longo do livro.
Trata-se, sem dúvida, de um objetivo louvável, embora não exatamente novo no interior de sua obra. Ao escrever "Progress and Its Problems" (1977), Laudan já buscava distanciar-se de propostas relativistas, tentando articular uma noção de progresso científico (baseada em solução de problemas) que, embora não fosse tão forte a ponto de exigir a tese realista de que as teorias científicas progridem, aproximando-se cada vez mais da verdade, fosse ainda robusta o suficiente para evitar a conclusão de que não há progresso na ciência. O resultado final, apesar de consideráveis dificuldades relacionadas à tentativa de proporcionar um "cálculo" para o progresso científico, talvez constitua uma das mais interessantes e inovadoras propostas de Laudan.
Em virtude dessas dificuldades, mas sem jamais abandonar o quadro teórico inicial, nova investida anti-relativista seria articulada em "Science and Values" (1984). Laudan então propõe o "modelo reticulacional" de racionalidade para mostrar como se estabelecem os debates científicos, que comportam não só a variabilidade das teorias, mas também dos métodos e dos objetivos da ciência.
Nesta coletânea de artigos, Laudan explora argumentos e enunciados teóricos contrários ao relativismo deixados em aberto em seus livros anteriores. Apresenta um pragmatismo sofisticado, atento às vicissitudes da história da ciência (como muitos positivistas jamais perceberam), sem todavia extrair as consequências relativistas que muitos desejaram estabelecer.
Para tanto, Laudan analisa alguns problemas básicos de filosofia da ciência. Examina inicialmente a "relação entre teoria e evidência", na qual as teses da subdeterminação e da equivalência empírica são meticulosamente discutidas, mostrando que não seguem as conclusões relativistas de que as regras metodológicas subdeterminam a escolha de teorias. Em seguida, Laudan considera a questão do "progresso científico", retomando sua abordagem de solução de problemas, respondendo a críticas relativistas (de Feyerabend e Kuhn) à idéia de método científico e sugerindo uma interessante proposta para conciliar progresso com perda conceitual (após recusar a tese cumulativista).
Ao tratar do "problema da escolha dos objetivos e métodos da ciência", Laudan estende suas propostas metametodológicas anteriores de um "naturalismo normativo", em que as regras metodológicas podem ser testadas empiricamente, desde que formuladas como imperativos hipotéticos da forma "se se busca atingir um objetivo cognitivo O, deve-se empregar a regra R". Contrariando as concepções relativistas, mostra-se, ao menos em princípio, que é possível a escolha racional entre metodologias rivais.
Como é típico de nosso autor, criteriosa argumentação filosófica é apresentada com clareza e vigor e fartos exemplos históricos são oferecidos. Como qualquer proposta filosófica, a abordagem de Laudan também possui suas dificuldades. Em particular, ao discutir a tese da subdeterminação, analisa versões tão extremadas que nenhum dos autores citados jamais as aceitariam. Mas, se o leitor deseja um livro denso e detalhado na área de filosofia geral da ciência, que forneça uma contribuição importante e recente, esta obra constitui, sem dúvida alguma, uma excelente opção. 

Otávio Bueno é professor de filosofia da Universidade de Miami.
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