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Sérgio Araújo de Sá - 104 - Março de 2009
Palavras que viraram imagens
Foto do(a) autor(a) Sérgio Araújo de Sá

Palavras que viraram imagens

 

Sérgio de Sá

 

A literatura através do cinema: realismo, magia e a arte da adaptação Robert Stam

Tradução: Marie-Anne Kremer e Gláucia Renate Gonçalves

EDITORA UFMG

511 p., R$ 79,00

 

 

Este é um livro de histórias circulares. Para dar conta das relações entre o texto literário e o cinema, o crítico brasilianista Robert Stam percorre um caminho tão chão quanto livre de amarras: montado no cavalo Rocinante, gira em torno da ilha habitada por Crusoé, para chegar a galope na paisagem midiática contemporânea. A magia quixotesca e o realismo inaugurado por Daniel Defoe, mais do que simplesmente asas ou rédeas, são começo e meio de uma análise detalhada - livro a livro, filme a filme - da convergência entre as duas artes. Nas mais de 500 páginas do volume, o professor da Universidade de Nova Iorque passa em revista a história das palavras que viraram imagens.

Stam parte de um problema da narrativa literária para se aproximar do cinema. Se há uma evolução cronológica na seqüência dos oito capítulos, dentro deles os saltos são vários, freqüentes e entrelaçados. De Dom Quixote a Monty Pithon, de Robinson Crusoé a Tom Hanks em O náufrago. De Flaubert a Renoir, das Notas do subterrâneo às Memórias do Subdesenvovimento, e assim por diante.

Já na dedicatória a Edward Said, apresenta-se a linhagem multiculturalista, em que diferentes matrizes se sobrepõem em operação transdisciplinar, com o intuito de desfazer privilégios de origem e originalidade. Stam mostra suas armas críticas em voltas imaginárias e reais no parafuso da adaptação fílmica, sempre com a mesma autoconsciência que o autor extrai da corrente literária representada por Dom Quixote e seus epígonos. 

Além de incorporado ao próprio procedimento de análise, o método reflexivo do romance de Miguel de Cervantes coloca-se como uma das duas “verdades” literárias (conseqüentemente, cinematográficas) em que o livro se desdobra. Nesse sentido, o leitor não deve estranhar os prefixos “multi”, “trans” e “inter”. Longe de serem significantes vazios, são propositais para desestabilizar o dilema: exibem as ingenuidades da mimesis perfeita (afinal feita de diversas realidades) e apontam as necessidades ilusionistas da metanarrativa (nem só de paródia vive o homem).

 

Livro ou filme?

 

Ensaísta com obra consistente publicada no país, Stam abre para o Brasil uma generosa brecha na trilha canônica mundial. Insere na tradição Machado de Assis e André Klotzel (Memórias póstumas de Brás Cubas), Mário de Andrade e Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma), Clarice Lispector e Suzana Amaral (A hora da estrela), Glauber Rocha (Terra em transe, como devedor do realismo mágico, “sem se referir de forma direta a uma fonte literária”), entre outros escritores e diretores. A dependência cultural ganha uma nova mirada quando se quebram hierarquias, disciplinas, cronologias.

A pergunta comum sobre adaptação de texto literário para o cinema é comparativa: livro ou filme, o que é melhor? Para Robert Stam, a superioridade inexiste. Página e tela abrem possibilidades similares para proveito tanto de leitores como de espectadores. “A linguagem convencional da crítica sobre adaptação costuma ser profundamente moralista, rica em termos que sugerem que o cinema, de alguma forma, prestou um desserviço à literatura”, escreveu o crítico na introdução à coletânea Literature and film, parte de uma série de quatro títulos, organizados ou assinados pelo autor, sobre a teoria e a prática da adaptação fílmica. A literatura através do cinema é o primeiro deles a sair no Brasil.

Stam consegue ver as limitações do original literário e aponta as restrições da leitura cinematográfica, em que as opções nem sempre se enquadram no formato retangular final. Para alternar a chave que designa a literatura como a ficção mais forte, impondo-se sobre as adaptações, o ensaísta trata o texto fílmico como suplemento à matriz textual, enriquecimento que movimenta a cadeia conceitual sem ser nada condescendente, isto é, sem baixar os olhos ao poder da palavra. Ao contrário, atiça-os rumo à abertura de horizontes. O texto literário “escrevível”, para lembrar termo de Roland Barthes, é reescrito na filmagem (o “pós-texto”, na definição de Stam). Filmar, portanto, não significa reduzir.

O crítico cultural também faz apanhados exaustivos das adaptações já produzidas dos textos eleitos para análise. Com prefácio exclusivo, a edição brasileira perde, contudo, a chance da atualização (o original é de 2005), quando deixa escapar, por exemplo, a informação de que há “rumores” sobre a adaptação para o cinema de Uma comovente obra de espantoso talento, de David Eggers, que nunca chegou de fato a se concretizar. Ou “uma versão da Disney” para Dom Quixote, com John Cleese e Robin Williams, o que também naufragou.

Isso não afeta a importância desse excelente exercício de literatura comparada. Curiosamente, tendo em vista sua trajetória, Stam dedica mais atenção à crítica literária “pura”, com extensas entradas ao modo do close reading. Não deixa de ser ambígua, assim, a defesa da paridade do cinema com a literatura. Os espectadores costumam se decepcionar com as adaptações dos livros que leram. Com raras exceções, sentem alguma falta. O lugar do leitor se sobressai. Nesse sentido, o “através” do título é bastante sugestivo: pede que a literatura permaneça depois do filme, que não se perca no meio do caminho. E chegue como beleza aos olhos de quem vê.

 

 

Sérgio Araújo de Sá É professor da Faculdade de Comunicação da UnB.
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