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Lincoln Secco - 104 - Março de 2009
Oscilações da utopia
Foto do(a) autor(a) Lincoln Secco

Tesouros da utopia

 

Lincoln Secco

 

Memórias de um intelectual comunista

Leandro Konder

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

264 p., R$ 39,00

 

Em sua autobiografia, Tempos interessantes (Companhia das Letras), Eric Hobsbawn se refere a uma época histórica que impunha escolhas radicais: os anos 1930. Ser comunista, então, não era simplesmente uma questão de aderir a certas lutas, tratava-se da adesão a um modo de vida. Mas há aqueles que quase não precisaram escolher, respirando a causa desde a infância: os filhos de revolucionários que se mantiveram nas trilhas de seus pais.

É o caso de Tito Batini, que escreveu um livro de memórias de título irônico, Memórias de um socialista congênito (Ed. Unicamp), e, em parte, é também o de Leandro Konder. Filho do comunista Valério Konder e sobrinho do jornalista Victor Marcio Konder (que abandonou o comunismo em 1956 e publicou suas memórias em 2002), Leandro nasceu em 1936, quando Valério era encarcerado por conta da revolta de 1935.

A literatura memorialística acerca do comunismo no Brasil é escassa. De acordo com um levantamento de Dainis Karepovs, se somarmos livros de entrevistas e autobiografias, eles não chegam a 200 obras. O relato de Leandro Konder amplia a lista de autobiografias que se tornaram fontes inestimáveis para os historiadores. Isso vale tanto para os primeiros relatos de desiludidos com o comunismo (Davino Francisco dos Santos e Osvaldo Peralva), quanto para os textos que se fixaram como exemplos de paixões militantes (as memórias de Gregório Bezerra).

A autobiografia de Konder não segue a convenção do gênero. É menos um livro de memórias com um fio condutor do que fragmentos em torno de temas, de pessoas ou dos livros que escreveu. Também não é o relato de um dirigente de organização e nem mesmo de um militante das bases partidárias. É principalmente a reflexão de um intelectual. Evidentemente, ele problematiza essa condição, pois de certa forma os membros do partido eram intelectuais e exerciam uma função organizadora e dirigente em seu bairro, escola ou fábrica. Autor de quase trinta livros e centenas de artigos, Konder se apresenta como um “debatedor” de idéias.

Mas sua tarefa como divulgador de idéias tem algo de singular. Nos comentários a uma tradução de Brecht, em meio a uma explicação de Gramsci, ele sempre apresenta alguma novidade com a qual não estávamos habituados. Suas idéias nunca se apresentam isoladas. Trazem sempre o seu contrário e só se mostram em diálogo constante com seus antípodas. Konder é um pensador “dialógico”.

Dialético, ele tem dificuldade com a acidez, a acrimônia, a falta de respeito para com o interlocutor. Adora os liberais tanto quanto os católicos, sem deixar de ser marxista. Sabendo que nem toda contradição é dialética, ele mal consegue responder às críticas pessoais que lhe são endereçadas. Quando as apresenta, procura desculpar de antemão o “crítico” (casos de Mario Schenberg, Luiz Carlos Prestes ou Paulo Francis).

A primeira parte do livro é um documento sobre a área cultural do Partido Comunista Brasileiro, tratando dos debates sobre a ditadura, da vida no exílio e das dissensões internas do partido. Mas a partir do capítulo “Reintegração”, predominam os relatos de viagens. Em seguida, somos informados, em rápidos parágrafos, de sua ruptura com o PCB, da convivência amigável com Fernando Henrique Cardoso (que lhe prestou uma homenagem quando era presidente), de seu apoio a Lula e ao PT e de sua atual adesão ao PSOL.

No início, tudo parecia dominado por uma grande claridade, mas o final do livro é marcado por uma luz oscilante. O impacto da queda do Muro de Berlim fez com que o autor chegasse à conclusão de que, se no final do século 19 o revisionismo era uma ameaça ao marxismo, cem anos depois, isso já não é verdade. A filosofia de Marx precisa ser revista e cabe “largar de lado o que envelheceu e caducou, afastar o que se mostrou datado”.

 Não foi fácil para Konder fazer um “acerto de contas” com Marx. Isso é perceptível em sua produção mais recente, que sintomaticamente enveredou para a revalorização dos ideais de uma esquerda “pré-marxista”. Daí o resgate das idéias socialistas no Brasil e o estudo de dois dos chamados “socialistas utópicos”, Charles Fourier e Flora Tristan. Outros intelectuais marxistas seguiram o caminho inverso, como Jacob Gorender com sua exigência de um Marxismo sem utopia (Ática). O argumento de Konder contra tal tendência foi sintetizado numa frase: “O socialismo científico não é tão científico a ponto de nos autorizar a ignorar os tesouros da utopia”.

 

Lincoln Secco é professor do departamento de história da USP.
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