


Quase 30 anos depois que surgiu na forma de tese de doutorado nos EUA (1972) e 13 anos após sua publicação em inglês (1987), chega, enfim, ao leitor de língua portuguesa, o livro da historiadora norte-americana Mary Karasch dedicado à vida e à cultura dos escravos no Rio de Janeiro. Embora ampliado com novas pesquisas, grande parte dos elementos inovadores da obra já estava presente no estudo original, o que confere ao livro um lugar significativo na historiografia sobre a escravidão no Brasil.
Os personagens centrais do livro são os escravos africanos e a autora está preocupada com "a sociedade dos escravos", aquela que eles criaram a partir de suas raízes e em contato com a nova realidade americana. Dessa forma, desvenda desde suas origens e condições de vida e trabalho até as formas encontradas para a conquista da liberdade.
A importância do livro reside em vários aspectos: o recorte cronológico 1808-1850 é de especial importância, pois se trata do período de maior concentração de escravos no Rio de Janeiro, o que permite à autora perceber as mudanças tanto na composição étnica da cidade, devido às leis contra o tráfico (1830-1850), quanto no modo de vida dos escravos.
Uma atualização bibliográfica do texto seria praticamente impossível dada a ampla produção sobre a escravidão no Brasil após 1987. Contudo, o que talvez pudesse ter sido modificado ou atualizado, na introdução à edição brasileira, é a referência à "legende dorée" da historiografia: a suposta falta de fontes para o estudo da escravidão no Brasil, devido à ordem de Rui Barbosa para se queimar documentos relativos à instituição no país. Afinal, desde os anos 60, uma grande quantidade de estudos desmentiram a lenda. Tudo isso, é claro, não tira o mérito de uma historiadora estrangeira, no final daquela década, encarar o mito de frente e ajudar a desmontá-lo.
Entretanto, três questões fazem do livro uma obra ainda atual e estabelecem diálogo com as recentes tendências da historiografia sobre o assunto. Para aqueles que estudam as etnias africanas no Brasil, o capítulo inicial é extremamente esclarecedor ao apontar a presença predominante no Rio de Janeiro dos escravos do centro-oeste africano, seguidos daqueles oriundos da África oriental. Não se trata de um livro sobre o tráfico, mas há um enorme esforço de contabilização de dados, que oferece um panorama multiétnico da cidade, com informações preciosas.
A outra questão são as análises demográficas empreendidas, quer sobre a composição da população escrava na cidade (nascimentos e batismos), quer sobre as taxas de mortalidade analisadas em função do gênero e faixa etária, com base nos registros da Santa Casa de Misericórdia. O capítulo dedicado às doenças adquiridas pelos escravos é também especialmente interessante, destacando o fato de que eles contraíam certas enfermidades devido à falta de higiene reinante na cidade, análise que antecede estudos sobre as políticas de saneamento e higienização urbanas nos séculos 19 e 20.
A terceira questão é a da cultura escrava e detalha como os escravos desenvolveram linguagem, alimentação, vestuário, religião, manifestações artísticas e estruturas familiares próprias, construindo uma cultura afrocarioca que combinava tradições africanas e luso-brasileiras.
Assim, a proposta que perpassa todo o livro é a recuperação da vida cotidiana dos escravos no Rio de Janeiro, sua forte presença na cidade e a impossibilidade de se extraírem padrões uniformes de comportamento desses indivíduos. A ênfase da análise recai nas múltiplas experiências dos escravos urbanos, que podiam tanto morar sozinhos como com seus senhores, desenvolver este ou aquele ofício manual, ser mais ou menos controlados; sua existência, porém, era sempre sofrida.
A autora conclui disso que a escravidão no Rio de Janeiro e no Brasil não era mais tolerável nem mais amena do que em outras sociedades escravistas. Como explica na introdução, o debate que estabelece é com Gilberto Freyre, Frank Tannenbaum e outros, que defenderam tais posições. Embora esse debate possa parecer um tanto ultrapassado para a historiografia contemporânea, na época em que o livro foi escrito, as condições de vida dos escravos estavam no centro da discussão sobre os sistemas escravistas nas Américas, sendo que vários estudos enveredaram pelo aspecto comparativo. Nesse sentido, os últimos capítulos do livro procuram apontar que os escravos "cariocas" eram "um povo muito rebelde que perturbava a paz de espírito e ameaçava a prosperidade material de seus senhores". Os estereótipos do escravo bem cuidado e passivo, assim como de senhores benevolentes, são demolidos frente às evidências das fontes consultadas, da mesma forma como já haviam começado a desmoronar a partir de estudos realizados por autores brasileiros nos anos 60 e 70.
O livro endossa, portanto, o viés da rebeldia escrava sem descuidar, porém, das outras formas de resistência cotidiana utilizadas pelos escravos e repletas de subterfúgios para a conquista do que mais desejavam: a liberdade. No entanto, as possibilidades de mobilidade social eram limitadas e "o africano típico importado para o Rio de Janeiro entre 1808 e 1850 morria escravo".
Leila Mezan Algranti é professora de história da Universidade Estadual de Campinas e autora de "O Feitor Ausente - Estudos sobre a Escravidão Urbana no Rio de Janeiro (1808-1822)" (Vozes).