

Os dois Darcys
CARLOS GUILHERME MOTA
O Povo Brasileiro - Formação e Sentido do Brasil
Darcy Ribeiro Companhia das Letras, 472 págs. R$ 22,00
Ninguém pode se libertar duma só vez das teorias-avós que bebeu"
Mário de AndradeS egundo Darcy Ribeiro, O Povo Brasileiro" constitui o maior desafio de sua intensa vida. Talvez seja mesmo. Poucos escritores de seu grupo-geração representam como Darcy o que se entende por cultura brasileira, com tudo o que carrega de crítico e empenhado, mas também de ambíguo. De autoproclamado populista. Sua obra desafia o leitor preocupado com a história dos sistemas culturais e ideológicos que ora libertam ora aprisionam a própria idéia de Brasil.
Observador das civilizações, o antropólogo modula a velha questão: como se formou o povo brasileiro? E, de antropólogo, Darcy passa a herói-civilizador: como ajudar o Brasil a encontrar-se a si mesmo"?
Em suas páginas, regressamos ao restrito patamar da alta historiografia e das ciências humanas no Brasil. Num diálogo ansioso com Capistrano, Sérgio Buarque (v. o cap. Aventura e Rotina"), Gilberto Freyre, José Honório Rodrigues (penso em Teoria da História do Brasil" e Aspirações Nacionais"), com Caio Prado, Darcy se esforça para inserir sua obra de antropólogo naquele panteão dos explicadores do Brasil". Só o tempo dirá, como sempre, se ficará na ala dos críticos da cultura ou na dos ideólogos.
O Povo Brasileiro" fecha um ciclo de reflexões sobre os brasileiros e o que somos, iniciado com Teoria do Brasil" (1ª edição em 1969), seu livro mais estimulante. Procura se alinhar com Raízes do Brasil", de Buarque, com as obras de formação do patriarcalismo brasileiro de Freyre e de formação do Brasil contemporâneo de Caio. Mas também com as formações" de seus contemporâneos Candido, Faoro, Furtado e outros... Não por acaso o subtítulo do livro é Formação e Sentido do Brasil". Nessa procura obsessiva dos traços essenciais de nossa formação", que remonta a Nabuco e Euclides, e trabalhando com as noções de nação, elite, povo-nação" e destino nacional", Darcy faz de nossa etnia" a sua ideologia: Os brasileiros se integram em uma única etnia nacional, constituindo assim um só povo incorporado em uma nação unificada, num Estado uni-étnico" (pág. 22). Ponto.
Não se trata aqui de acompanhar, em perspectiva bio-bibliográfica, as vicissitudes e as contradições, os altos e baixos de vida intelectual tão intensa e copiosa. O que é teorização sua ou de toda uma constelação que, no Brasil vai de Honório a San Tiago Dantas, e no resto da América Latina de Zea ao peruano Carlos Delgado? Poderíamos descobrir que sua generosidade indignada, capistrânica com o sofrido povo brasileiro" nem sempre foi acompanhada de ação pacienciosa, de longa duração e de enraizamento institucional, no sentido de formar novos quadros críticos.
Por que as ações e propostas permanentemente fabricadas pelo antropólogo-taumaturgo não vingaram no solo ingrato de nossa chamada cultura brasileira? Será porque cada vez que um político nacionalista ou populista se encaminha para a revisão da institucionalidade as classes dominantes apelam para a repressão e a força"? O fato é que a vida de Darcy por vezes avança, por vezes retrocede em relação a sua obra. E não esqueçamos ter sido ele um dos responsáveis pelo histórico Programa de Reformas de Base antes de 64, e ter sido dos poucos que resistiram concretamente aos golpistas civis e militares, até o último minuto.
Num país com tantos problemas de identidade cultural, social e até monetária, de imagem externa" e interna, uma das chaves do sucesso é trabalhar com o velho tema da identidade nacional. Nesta fase em que Darcy assiste a verdadeira consagração em vida, mercê de suas formulações generosas sobre o povo brasileiro, que é ótimo mas ainda não encontrou -afirma- seu espaço", uma visita a algumas de suas teses permitirá talvez fixar melhor o sentido de sua obra. E seus conceitos de cultura brasileira e de identidade cultural.
É difícil perceber o quanto Darcy absorveu da variada crítica revisionista nas ciências sociais nos anos 60/70, desde Stavenhagen e Marini. Somente um estudo mais acurado de seus textos permitirá entender como captou o colapso do populismo nos anos 60 e 70, ou o fortalecimento de modelos autocrático-burgueses de exploração em nossos países.
Em seu novo livro, ele retoma, reelabora e eventualmente desradicaliza algumas de suas teses anteriores. Mas permanece a interessante tipologia histórico-cultural que formulara para uma possível classificação das civilizações em geral (povos-testemunhos; novos; transplantados; e emergentes). Faltava um trabalho específico sobre a formação -digamos- sócio-étnico-cultural da população brasileira, que aparece agora.
Dividido em quatro partes (O Novo Mundo", Gestação Étnica", Processo Sociocultural", Os Brasis na História"), o livro indica o processo de encontro étnico que, na colônia, deu nascimento aos núcleos originais que, multiplicados, vieram a formar o povo brasileiro". A discussão sobre o processo civilizatório a partir da análise das matrizes étnicas desemboca numa curiosa tipologia étnico-cultural da população, digamos, brasileira", na parte da Gestação Étnica". Nas outras partes, acompanha processos de diversificação populacional que marcaram as regiões, os nossos modos regionais de ser". E finalmente localiza os vários Brasis (crioulo, caboclo, caipira etc), em visão despojada e polêmica, mas com crítica aos regimes fundiário e de trabalho.
Que quer o Darcy teórico? Quer demonstrar que nenhum povo vive sem uma teoria de si próprio. Para além de Freyre e Buarque, que critica, e de Florestan, que incorpora, o impaciente Darcy não procura elaborar propriamente uma história. Em segundo lugar, quer reforçar a tese -nacionalista retroativa- que desde cedo já se formara aqui uma protocélula étnica neobrasileira, diferenciada tanto da portuguesa quanto da indígena". É a precocidade dessa matriz étnica embrionária e sua sobrevivência por quatro séculos, essa unidade essencial, que o atrai. Dessa unidade é que parte para analisar as variantes principais do que denomina cultura brasileira tradicional": a cultura rústica, camponesa, cabocla etc. No processo de fusão de matrizes tão diferenciadas é que se define nossa neo-romanidade", como nova Roma tardia e tropical...
Darcy quer ainda que, unificados, nos unifiquemos uma vez mais com os latino-americanos. Contra quem? Contra a América anglo-saxônica, para fundarmos, tal como ocorre na comunidade européia, a Nação Latino-Americana sonhada por Bolívar. Aqui, com a etnia brasileira" se fortalecendo, aglomerados de gentes despojadas de identidade, desindianizadas, desafricanizadas se vêem condenados a inventar uma etnicidade englobadora de todos eles". Plasma-se a nova etnia e se promove sua integração na forma de um Estado-Nação.
Faltou a Darcy mostrar que já neste século o Estado oligárquico necessitou fabricar ideologias culturais que trouxeram o “povo”e a “cultura brasileira” para seu controle. E encontrou agentes do Estado disposto a fazê-lo.
Curiosa dualidade, a sua. Um Darcy gilbertiano observa que não houve nesse processo de identificação a formação de grupos separatistas ou tendência a guetos e quistos, o que favorece a “integração”. Mas avulta por outro lado, o Darcy, por assim dizer, “marxista”, notando que antagonismo e desgarramentos de grupos opostos são provocados pela estratificação de classes. Ao longo da história, diz este, uma estratificação classista de “nítido colorido racial e do tipo mais cruamente desigualitário que se possa conceber”. Correto. Deixando de lado a existência de poderoso sistema ideológico-cultural, que parece não ver, caracterizado por pesada blindagem que elimina a dissidência desde a formação do Estado nacional, o outro Darcy mostra, iracundo, que nossa democracia racial é falsa, que nossas elites raramente perceberam os abismos que separam os estratos sociais. E aqui se impõe este outro bom Darcy: “o mais grave é que esse abismo não conduz a conflitos tendentes a transpô-lo, porque se cristalizam num modus vivendi que aparta os ricos dos pobres como se fossem castas e guetos”.
Finalmente, seu conceito de cultura brasileira. Creio que apareceu melhor elaborado em “Teoria do Brasil" (1978), época em que estava voltado para a questão das relações das vanguardas com o povo, com a revolução necessária. E, no plano da crítica cultural, com a consciência culposa e reacionária, como a de Gilberto Freyre (o exemplo é seu). Agora, Darcy faz um balanço e vê que seu querido “povo brasileiro” não conseguiu ainda reverter a História, contra a violência da classe dominante.
Apesar de tanta luta, teria faltado aos movimentos sociais “espaço” para promover a reversão. “Faltou sempre, e falta ainda, clamorosamente, uma clara compreensão da história vivida, como necessária nas condições em que ocorreu e um claro projeto alternativo de ordenação social, lucidamente formulado, que seja apoiado e adotado como seu pelas grandes maiorias." Projeto, propõe Darcy, a ser tocado por um político nacionalista e populista formulado por alguém lúcido e adotado como seu pelas massas. Mas não é esse o movimento inverso ao da História contemporânea em que as bases elaboram seus projetos e definem -elas definem - suas lideranças e representantes?