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Celso Favaretto - 14 - Maio de 1996
Os avessos do retrato
Foto do(a) autor(a) Celso Favaretto

Os avessos do retrato

 

CELSO FAVARETTO

ousada incursão nos domínios da sociologia da cultura, proposta polêmica de análise cultural, derivada do cruzamento de olhar sociológico e indagações pictóricas, este livro explicita de modo inusitado no Brasil aspectos das relações entre artistas, intelectuais, políticos e outros elementos da elite brasileira dos anos 20-40, participantes dos projetos e iniciativas de modernização.
Focando a proposta na análise de retratos, entendidos como "imagens negociadas", persegue os marcadores sociais que operam nas composições para flagrar os efeitos de dominação simbólica nelas manifestados. Discutindo hipóteses sobre as margens de autonomia das atividades artísticas e intelectuais, Sergio Miceli configura uma modalidade de interpretação da história cultural com pressupostos teórico-metodológicos que tomam os retratos como objetos em que são sugeridas pistas para a captação de expectativas e representações de retratatos e retratistas. Portinari é constituído em caso paradigmático dessa negociação, tanto pela sua trajetória artística como pelos lances de sua ascensão social, associada às relações com intelectuais, políticos e empresários com posição no governo.
Não se conhece empreitada semelhante no Brasil. A eficácia dos resultados é devida à competência da análise sociológica, apoiada em percuciente pesquisa historiográfica, e à desenvoltura no campo artístico, manifestada sobretudo na análise de linguagens e conteúdos visuais. Se Miceli, como é de seu ofício, realiza tratamento eminentemente sociológico dos retratos, para explicitar nexos da experiência social que estariam neles condensados, não o faz pela superposição de teorias ou aplicação de métodos. Trabalha com os agenciamentos sociais -expectativas, interesses, pretensões, ideais estéticos, ambições, relações afetivas, signos de classe etc.-, patentes nos artistas e personagens, enquanto transformados em material visual. Propõe-se reconstruir o "trânsito entre representações visuais e demandas sociais", o tráfego entre simbolismos sociais e a simbolização que teriam presidido à fatura dos retratos.
Este trânsito não é novo na história e na crítica de arte; mas no Brasil é inovador porque ele tem sido feito quase que exclusivamente no campo da literatura, que é o nosso modelo de história cultural. Mas na ousadia concentram-se também as dificuldades da interpretação. A questão, problemática, da inscrição simbólica na forma plástica implica mediações diversas das "energias do retrato", as artísticas e as sociais. E este é, exatamente, o problema. Pois os simbolismos não saltam imediatamente da descrição da experiência cultural e dos cálculos políticos: já são matéria conformada; e a transposição para o plástico exige a transformação dos conteúdos simbólicos em expressão.
A conversão da análise sociológica em gesto plástico inevitavelmente está prenhe de intencionalidade, de que o procedimento da "suspeita" dá notícia em Miceli. Na passagem de um domínio a outro, para marcar as matrizes da política cultural e dos comportamentos das elites enfocadas; para desvendar os interesses subjacentes à negociação das imagens, ele monta uma rede de intenções e relações emblematizadas em expectativas e representações de classe.
As conjunções e disjunções do plástico e do sociológico, que indiciam ora a negociação das imagens ora a relativa autonomia do estético, tornam Portinari exemplar para a análise de Miceli, porque a maioria de seus retratos (de artistas, intelectuais, letrados, políticos, mulheres da alta sociedade) manifestam imbricação dos interesses dos retratados, de simbolismos sociais neles condensados e de busca de legitimação (artística e social) por parte dos retratistas. A ambição de Miceli é fazer da hipótese da negociação de imagens, a partir de Portinari, uma modalidade extensiva de compreensão das redes informais de relações (de prestígio, de gosto, de sensibilidade, amorosas etc.) que configuram a paisagem cultural como uma espécie de intimismo à sombra do poder.
Os retratos, tal como considerados por Miceli, são, portanto, imagens motivadas. Ao deslindar o trânsito entre motivos e motivações, o autor mobiliza uma vontade de saber que pretende evidenciar os investimentos que, na forma, expressam os subterrâneos (individuais e sociais) da fabricação do que viria a ser uma política cultural e da celebridade de seus mentores ou participantes privilegiados. Enfim, Miceli pretende escavar a história cultural para liberar os seus implícitos, contribuindo para desidealizar o processo de modernização.
Na reconstrução das relações no interior do campo cultural, Miceli pretende fazer um caminho inverso do predominante -o da historiografia literária. Neste, para ele, enfatizam-se falas e discursos dos letrados; no seu, enfatizam-se relações de amizade, amorosas, políticas etc. entre os artistas, e destes com as elites, no empenho de viabilizarem suas carreiras e se legitimarem publicamente no ambiente onde isso só era possível dentro dos marcos institucionais. Assim, a negociação de imagens é empreendimento de mão dupla: "De um lado, os reclamos e apelos dos retratados com vistas à modelagem de imagens às suas necessidades de afirmação erótica, estética e política, numa palavra, de todas as dimensões mobilizadas pela existência social; de outro lado, a oferta de procedimentos, soluções e linguagens por parte do retratista". Portanto, um ajuste de parte a parte, retratando a convergência do sucesso artístico, do poder político, do esnobismo social e da sublimidade estética dos "funcionários" do regime Vargas.
Os pressupostos teórico-metodológicos e a estratégia interpretativa de Sergio Miceli sobressaem em algumas notáveis análises, principalmente das composições: dos retratos de Maria Portinari feitos pelo marido e por Waldemar da Costa, que abrem o livro configurando o essencial da proposta analítica; dos retratos de Olegário Mariano, Manuel Bandeira, Mário de Andrade e Jorge Amado, de Portinari e outros; dos auto-retratos de Ismael Nery e os de mulheres da alta sociedade feitos por Portinari. Comparando versões do mesmo artista e de vários, a aproximação estético-sociológioca de Miceli parece encaminhar-se para a apreensão do retrato como gesto simbólico.
Exemplares, acentuando a expressividade -obtida inclusive por retoques e estilizações com vistas aos termos das demandas-, os retratos aliam perícia artística e signos de prestígio simbólico. Os retratos, para Miceli, são da ordem do espetáculo: mostram, dão a ver; fazem da aparição do retratado, pelo menos na sua leitura das composições, um elemento mítico. Nos gestos estariam as pistas das expectativas e demandas dos retratados e retratistas, de modo que o resultado estético funciona como expressão de convenções artísticas e sociais. A história, assim, está nas formas, embora seja formada no tráfego do social e do artístico.
A negociação das imagens visa aos implícitos dessas formações, aos subterrâneos da história cultural, geralmente interpretada com solenidade. A leitura das composições, pelo viés de Miceli, revela os fatos, comportamentos e ações julgados mesquinhos, inconfessáveis e clandestinos. A negociação desidealiza as visadas esteticistas, tanto quanto as do reflexo do social na arte. A visada de Miceli é, decididamente, ousada e brilhante, mesmo quando extrapola, fazendo de suas suposições, de seus palpites, integrantes da interpretação. 

Celso Favaretto é professor da Faculdade de Educação da USP.
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