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Lux Vidal - 23 - Fevereiro de 1997
O útero do Brasil
Foto do(a) autor(a) Lux Vidal

O ÚTERO DO BRASIL

 

LUX VIDAL; HENYO T. B. FILHO

LUX VIDAL
HENYO T. B. FILHO
enviado de Pai-uhú, homero neotupi ou ou simplesmente D.R. Etnólogo do SPI, como ele mesmo assina? Darcy, quem é você -jaboti, gavião, onça ou socó?-, que, como os guaribas, homens do "outro mundo", reverte o tempo e viajando para trás empurra-nos para frente.
"Diários Índios: os Urubu-Kaapor" é uma publicação muito cuidadosa. Forma e volume "exagerados", conteúdo rico e surpreendente, com ilustrações que se articulam para valorizá-la. Há amplas margens para anotações e sonhos (para os que ousarem maculá-la), inúmeras fotos-vinhetas sugestivas, que nos guiam e despertam a nossa curiosidade, sem se sobrepor ao texto. Finíssimos gráficos de parentesco que, conquanto inúteis, posto que não iluminados por "teorizações", transformam-se em obra de arte pura -resultado de um enorme esforço de reconstituição que, um dia, os kaapor saberão apreciar. Ainda que a lista não chegue aos tupinambá da costa. Permanecem por ser resgatadas as genealogias de 1950 para cá e a necessidade de refletir sobre esse acervo.
"Diários Índios" é uma obra que brinca com o tempo. Engavetada durante 45 anos, surge de repente moderna, novinha em folha, cheia de símbolos e múltiplos sinais, como um Einstein estirando a língua para o mundo. Imaginem só se tivesse sido publicada nos anos 70. Certamente teria sido criticada pela falta de rigor teórico, pela ausência de um problema analítico claro, pelo tipo de expedição montada, por certas atitudes políticas e pessoais ali expressas e pelo tratamento dispensado ao seu objeto em algumas passagens. Tudo poderia ter sido destruído. Seria um desastre.
Hoje, a obra não só se insere no espírito da antropologia contemporânea, como também recupera o autor como antropólogo e ilumina retroprospectivamente a sua trajetória e as suas preocupações teóricas. Obra que, com o "tempo amadurecido", se apresenta como elo perdido na produção e nas idéias de Darcy. Consequentemente, da história da antropologia no Brasil.
A sua intenção era poder extrair de seus diários uma monografia nos moldes clássicos. Um pouco como fez com os kadiweu? Pelos menos, Francis Huxley nos havia deixado com esta expectativa, na introdução de "Selvagens Amáveis". Darcy parecia sentir, porém, já naquele momento que lhe faltava o instrumental teórico "específico" para a plena realização desse projeto. Ao mesmo tempo, deve ter julgado, com propriedade, que os diários já eram, em si e por si, uma obra completa, diferente de -mas tão legítima quanto- "Tristes Trópicos" e melhor do que muita coisa que se escrevia e publicava então.
Os "Diários" nos são apresentados pelo próprio Darcy como "uma edição sem retoques" dos oito cadernos de campo escritos nas duas expedições que coordenou como etnólogo da Seção de Estudos do SPI (Serviço de Proteção aos Índios) às aldeias dos urubus-kaapor, entre os rios Gurupi e Pindaré, na divisa entre Pará e Maranhão, nos anos de 1949 a 1951. Impossível escapar do sentimento de simultaneidade ambivalente produzida pela publicação, hoje, de um texto que, historicamente, antecede o que, até agora, era considerado o fundamental da contribuição teórica e do pensamento de Darcy Ribeiro, os seus "estudos de antropologia da civilização".
Um aspecto importante a ser destacado nos "Diários" é a sua assustadora autenticidade. Percebe-se que a propensão à autonomia intelectual e moral não é uma manifestação tardia e afetada de Darcy. Aos 27 anos, especialmente no Brasil, ainda mais no meio acadêmico da nascente antropologia brasileira e no seio do corpo funcional do SPI, é de se tirar o chapéu. Ele assume com estoicismo o contexto conturbado no qual desenvolve o seu trabalho entre os kaapor, principalmente durante a primeira expedição, em que estes se encontravam dispersos, vitimados por uma forte epidemia de sarampo.
Darcy descreve o que ele testemunha do seu ponto de vista, sem meias palavras. Os cuidados provenientes de um relativismo cultural refletido e a submissão aos desígnios do "politicamente correto" passam ao largo do texto. Os "Diários" nos permitem questionar qual seria "o ponto de vista do nativo"?
A opção pelo gênero diário-epístola permite recuperar o fluxo de consciência e a atenção do autor, que se dirigiu não apenas aos kaapor, mas a toda a paisagem social da região. Observador agudo do comportamento e dos sentimentos humanos, tudo interessa a Darcy, que, com maestria literária, nos oferece um rico e vivo retrato das localidades e dos agrupamentos e tipos humanos das áreas percorridas pelas expedições: o turco Rachid de Vizeu, as comunidades rurais negras das margens do Gurupi (remanescentes do período áureo da mineração), o húngaro perdido de Itamoary, a desoladora estagnação socioeconômica das cidades do Gurupi e do Pindaré, os funcionários do SPI no Pará e no Maranhão, com seus vícios, virtudes e idiossincrasias pessoais (como o Miranda, que lhe inferniza a vida), os negros Cezário (seu cozinheiro) e o longilíneo Chico Ourives (mestre das beberagens), seu intérprete João Carvalho, os tembé, timbira e urubus destribalizados que vai encontrando pelo caminho até chegar às aldeias kaapor.
Desde o começo, portanto, desvela-se a perspectiva abrangente a partir da qual Darcy apreende o universo social. Sua narrativa trai, desde cedo, a preocupação e o esforço de síntese totalizante característicos da construção artística. Síntese totalizante não só do ponto de vista formal, mas síntese desse "todo particular" denominado Brasil. A preocupação com a formação e o sentido do Brasil já se manifestava explicitamente nos "Diários": "Como então se processou o caldeamento dos primeiros séculos? Como se formou a sociedade brasileira que aí está, composta de mestiços, de brancos, de negros e índios?".
A própria escolha dos kaapor se subordina a esta preocupação. Nos termos dos próprios "Diários", o objetivo era estudar os tupinambá pela observação direta de descendentes deles, num contraponto a Florestan Fernandes, que o tinha feito por fontes quinhentistas: "Reconstituir o modo de ser e de viver dos índios (...) tupinambá tal como existem". Os urubus constituiriam a melhor oferta, dado o pouco tempo de "convívio com a civilização".
E por que os tupinambá? Por que o estudo destes seria de "importância essencial para nós, brasileiros"? Porque, segundo Darcy, nós seríamos herdeiros, sucessores e descendentes dos tupinambá nos planos cultural e biológico. Foram eles quem deram "à nossa civilização a fórmula de sobrevivência nos trópicos" e ofereceram o primeiro contingente de mulheres -na ausência de mulheres brancas- a serem prenhadas pelos colonizadores -majoritariamente homens. Portanto, seríamos herdeiros dos genes e de um certo padrão de adaptação ecológica. Não se engane o leitor. Não estamos resenhando "O Povo Brasileiro" (1995), mas sim os "Diários".
Viagem simultaneamente espacial -entre grupos humanos contemporâneos com distintas conformações sociais e ideacionais- e temporal -entre grupos humanos situados em diferentes estados evolutivos-, a subida pelo Gurupi pode ser vista como uma viagem, através do tempo, a diferentes momentos e configurações que se sucederam "no nosso longuíssimo processo de fazimento" -termos dos "Diários". Lewis Henry Morgan, fonte de inspiração de Darcy, argumentava que, atravessando os Estados Unidos de uma costa a outra no século 19, poder-se-ia testemunhar o homem vivendo em seis diferentes estágios do processo evolutivo, da selvageria média até formas de civilização pré-modernas. Darcy, numa perspectiva não-unilinear e já tendo como preocupação de fundo o nosso processo histórico singular de formação, nos toma pela mão para, junto com Berta, conhecermos não "o coração das trevas" -como sugeriu Joseph Conrad subindo o rio Congo, numa expressão típica da literatura colonial-, mas o útero do Brasil: natureza, gentes e tempos diferentes.
Berta é a destinatária das anotações diárias de Darcy. Penélope, para quem Homero redige a narrativa de sua odisséia entre "os tupinambá vivos". Em nota de agradecimento, Darcy diz que, entre outras pessoas, devemos os "Diários" a ela. Não só pela inspiração para escrevê-lo como uma grande carta, mas também porque "o transcreveu dos manuscritos para um belo texto datilografado".
Darcy publicou muito pouco sobre os kaapor até esses "Diários". Hoje sentimos todo o significado e o peso de termos sido contemporâneos de uma "obra retida". À exceção de artigos sobre o ciclo anual das atividades de subsistência, sobre os efeitos dissociativos das epidemias, sobre alguns aspectos de mitologia, religião, suicídio e doenças, e do belíssimo trabalho sobre arte plumária em co-autoria com Berta Ribeiro, os kaapor figuram de modo muito periférico e residual no seu "Os Índios e a Civilização". Neste, aparecem apenas como um exemplo, entre outros, dos efeitos deletérios da situação de conjunção interétnica e das coerções econômicas dela oriundas. Darcy previa, aí, um futuro sombrio para os kaapor, qual seja, o seu desaparecimento como povo distinto. Nos "Diários", entretanto, ele é ambíguo quanto a este prognóstico.
William Balée, em sua tese de doutorado por Columbia, "The Persistence of Kaapor Culture" (1984), desconhecendo o conteúdo dos "Diários", contesta a previsão de Darcy. Ele documenta, para a primeira metade da década de 80, a integridade justamente dos aspectos da cultura kaapor que Darcy previa que se perderiam rapidamente. Balée vai procurar mostrar que a integridade da família nuclear é o denominador comum de um importante mecanismo na persistência dos padrões de assentamento, das atividades cotidianas, do sistema econômico e da organização social e ritual kaapor, em termos de suas funções sociais e ecológicas. Sugere que a cultura kaapor e a centralidade da família nuclear nesta representariam adaptações "antigas" às circunstâncias "novas" do período pós-colombiano. Para Balée, a família nuclear -por funcionar como unidade doméstica, unidade de produção e consumo, e principal unidade da vida ritual e na conservação de recursos naturais críticos- daria à organização social kaapor uma consistência atomizada que lhes teria permitido persistir mesmo diante das condições mais adversas de dispersão -como as provocadas pelas epidemias de sarampo.
É assim que, não menos importante, a publicação dos "Diários" reinaugura a antropologia dos urubu-kaapor, acendendo debates e impondo novas questões. Entre os elementos bem documentados por Darcy e os apenas indicados em sua etnografia fragmentada, que podem estabelecer uma agenda de pesquisa futura, estão: a antropofagia (que não aparece em Balée); a guerra e as relações entre guerra e sonhos; o destino "post mortem" dos humanos; e a festa de nominação, apontada por Darcy como o mais importante rito kaapor que presenciou, à qual está ligado, por sua vez, o parentesco ritual (que bem poderia ser um aspecto das culturas jê-timbiras vizinhas, isto é, uma conjunção tupi-tapuia). Dialogar com os kaapor e conhecê-los melhor é o que os "Diários" suscitam.

Lux Vidal é professora aposentada do departamento de antropologia da USP e Henyo T. Barretto Filho é professor do departamento de antropologia da Universidade de Brasília. 

Lux Vidal é professora de antropologia da USP.
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