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Luiz Recaman - 78 - Setembro de 2001
O último dos humanistas
Foto do(a) autor(a) Luiz Recaman

O último dos humanistas

Tênue Esperança no Vasto Caos Questões do Proto-Renascimento do Século 21
Jorge Wilheim
Paz e Terra (0/xx/11/223-6522)
130 págs., R$ 18,00

LUIZ RECAMÁN

O esclarecimento de posições e os debates incipientes quando da escolha do Secretário Municipal de Planejamento Urbano da prefeitura paulistana podem ser parcialmente retomados a partir de dois livros recém-lançados.
"Tênue Esperança no Vasto Caos", do arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, amplia as idéias pontuadas em sua introdução ao livro "Sociedade e Estado em Transformação" (Ed. Unesp), que reúne as principais participações no "Seminário Reforma do Estado e Sociedade", realizado em maio de 1998. Organizado por Jorge Wilheim, Lourdes Sola e Luiz Carlos Bresser Pereira, esse seminário contou com a participação, entre outros, de Claus Offe, Manuel Castells, Ignacy Sachs, e Jordi Borja. A estratégia tucana então preparava o seu clímax -a reeleição em primeiro turno plebiscitando as reformas modernizadoras, depois do sucesso da aliança conservadora provisória. Euforia rapidamente substituída pelo realismo pouco alvissareiro das crises internacionais que inviabilizavam de vez a entrada do Brasil pela porta da frente no sistema econômico internacional.
Embora esses lançamentos sejam simultâneos, algo mais que três anos separa a introdução ao seminário do manifesto em prol de um novo humanismo em pleno século 21. Se os temas permanecem -emergência do "terceiro setor", impacto das tecnologias informacionais e crise do planejamento estatal-, o texto mais recente anuncia um "mal-estar universal", vislumbra um pós-capitalismo e tira o foco da política em direção à ética (a despolitização da ética parece ser o canto de cisne da era FHC).
E é nessa direção que devem ser entendidas as questões do "Proto-Renascimento", que o autor apresenta no texto ampliado. Esse neo-humanismo é deduzido a partir da urgência ética de transformação progressista do mundo. Uma hipótese de trabalho na qual os espíritos responsáveis devem se engajar, já que a alternativa que se coloca hoje é a barbárie neoliberal.
O "último dos humanistas" (assim já foram definidos os arquitetos) manipula informações de toda ordem, tanto para delinear a sociedade contemporânea como para propor sua transformação. Justapõe as principais teorias contemporâneas sobre a sociedade, a economia, o pensamento filosófico, feminismo etc., para compor um retrato do mundo contemporâneo.
Desenvolve, em rápidas pinceladas, as transformações do capitalismo a partir do segundo pós-guerra, em aceleração desde o início dos anos 90.
Dois fatos marcam extraordinariamente essa mudança: o fim da União Soviética e a implantação da internet. Reviravolta política e tecnológica derrubando os limites que impediam o alastramento global das forças financeiras e produtivas do capitalismo avançado. O fim do "socialismo real" e a rede mundial de computadores, pulverizando informações disponíveis em tempo real, vão definir o meio técnico e ideológico no qual a sociedade se movimentará.
Alteram-se as relações pessoais, entre as classes, entre os agentes sociais e políticos. O novo renascimento proposto deve ser buscado nos interstícios ideologicamente neutros e potencialmente democráticos dessa sociedade que se deshierarquiza e desorganiza ao buscar alternativas para aumentar sua capacidade de acumulação. Reforçar a solidariedade e inocular o consumismo hedonista e a competição sem limites.
Curiosamente, o autor se afasta da grande tradição humanista ao não traduzir a ordem universal advogada em tectônica, em programa construtivo. Nem "la machinatio" de Leonardo, nem os exércitos de Maquiavel, tampouco as prefigurações da cidade-total corbusiana. A possibilidade de reconciliação nesta "sociedade em rede" se dará por decisão ética; nem pela forma nem pela mudança do modo de produção. O problema é que, a partir dessa grande perspectiva histórica proposta, tudo termina onde começou, com o sinal trocado: o reencontro do humanismo burguês consigo mesmo -autocrítica realizada.
Alija esse pensamento dos primeiros passos das transformações do mundo feudal em direção ao mundo moderno, ciclo que culmina agora com a superação de sua própria ideologia de fundo. Ao construir o cidadão livre, o capitalismo construía também o indivíduo oprimido. O difícil será desvencilhar um neo-humanismo do sujeito autônomo -aquele do humanismo burguês defendido pelo autor- que se transformou, por movimento interno, num fragmento alienado, condição heterônoma final da falácia liberal.
E é justamente nesses resíduos ("pós-humanistas"!) presentes na complexa estrutura não linear da sociedade contemporânea que o autor identifica as áreas neutras, manchas livres da "ética do trabalho", potencialidades libertárias que correm por fora da racionalidade destrutiva do capitalismo avançado. Este é transformado, nessa análise, num dos múltiplos aspectos da sociedade contemporânea. Até mesmo a economia de mercado tem com ele um parentesco distante. Saem as classes em luta, entram as "parcerias sinérgicas" entre os novos agentes sociais (capital, terceiro setor, Estado) que podem impor uma outra lógica às políticas públicas.
Duas perguntas finais que podem resumir esta crítica: como construir uma ética desacoplada de uma práxis real (essa sim, de difícil alteração)? Mesmo que isso fosse possível (sem gravidade, poderíamos começar a construir uma casa pelo telhado...), como pensar em um humanismo sem o seu sujeito histórico, que se consumiu no próprio devaneio de sua autonomia? Reconstruí-lo seria uma "farsa".
O que todos aguardamos é como se traduzirá essa crítica à sociedade contemporânea quando se exige mais do que uma carta de princípios éticos, como é o caso da transformação da cidade de São Paulo. Sabemos que o que tem construído e destruído esta cidade não é simplesmente um pensamento antiético; sua desordem aparente esconde uma bem definida disputa de interesses, que vem se acirrando nos últimos anos. Um exemplo desses movimentos bem concretos, facilmente identificáveis, é a retomada dos estudos para o prolongamento da avenida Nova Faria Lima. A virulência dos agentes sociais que estão na prática consagrando a tendência de supervalorização do eixo sudoeste da cidade se sobrepuseram, até o momento, às questões éticas e aos programas democráticos. Estes podem, da noite para o dia, transformar-se em letra morta.


Luiz Recamán é doutorando no departamento de filosofia da USP.

Luiz Recaman é professor da FAU-USP.
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