

O triunfo da cópia
Filósofo italiano retoma a noção de simulacro
OLGÁRIA MATOS
"Pensando o Ritual" representa um "tournant" no campo filosófico contemporâneo. Pluralizando a noção de fetichismo, amplia seus significados marxista e freudiano, incorporando-os à expressão cunhada por Walter Benjamin, o "sex appeal" do inorgânico: coisas tomadas como seres vivos, o homem tratado como coisa entre coisas, a mercadoria como um obscuro objeto de desejo, mas também a tecnologia eletrônica e a transferência -como no cibersexo- da sensibilidade do homem para o computador, com o consequente "sentir artificial", em um desejo de ultrapassamento das possibilidades naturais, orgânicas.
Mario Perniola retoma também a noção de simulacro: não é ele apenas cópia de outra cópia, repetição distante e sem direito a um modelo transcendente; não é mais um falso pretendente à essência, uma coisa que quer se fazer passar por outra -na ausência da Idéia, ou melhor, prescindindo dela. Na acepção de Perniola, e na perspectiva romana e não na grega, o simulacro é "imolação sem culpa".
Não se trata, como poderia parecer, de retomar a crítica, de sabor pós-moderno, aos conceitos de verdade e de adequação. Diferentemente, Perniola propõe revisitar o passado, mas de maneira especial: "Não a Grécia antiga, que constitui o ponto de referência por excelência do pensamento filosófico, mas a Roma antiga que, na literatura filosófica do século 20, é objeto de uma arraigada hostilidade; não a reforma que frequentemente é vista como o berço da filosofia moderna, mas o barroco, que só em tempos muito recentes foi merecedor de uma consideração filosófica".
Perniola confronta a concepção grega clássica à romana. Para ilustrá-lo, vale-se de uma narrativa de Plutarco (século 2) sobre uma peste que atingiu Roma no "oitavo ano do reinado de Numa": este rei recebera do céu e dos deuses um escudo para a salvação da cidade, sendo necessário reproduzi-lo 11 vezes, do mesmo tipo, tamanho e forma, de maneira que o original celeste não pudesse ser roubado. De todos os ferreiros consultados, só Mamúrio aceitou a tarefa e esse "autêntico mestre" os fez com tal precisão que mesmo Numa não pôde reconhecer o original. "Mamúrio Vetúrio, o primeiro artista de quem se fala na história de Roma, (não faz) uma criação original, independente e autônoma, nem imitação falsificadora do modelo divino, mas uma repetição tão exata que anula o protótipo ao mesmo tempo que o preserva. O triunfo da cópia é também a extrema fidelidade ao signo enviado pelos deuses, porque nenhuma variação é admitida; no entanto essa fidelidade elimina a excepcionalidade prodigiosa do exemplar único, o torna normal, regular, cultural."
Perniola dá continuidade à história mediante um deslocamento conceitual, um "trânsito": "A noção de trânsito", escreve, "parece-me estar intimamente ligada com a experiência da simultaneidade, de disponibilidade e dilatação do presente que caracteriza a vida contemporânea. Não é necessário sermos grandes viajantes para perceber um panorama no qual está dissolvida a rígida contraposição entre o sagrado e o profano, entre o simbólico e o pragmático, entre o selvagem e o racional. Os conceitos de trânsito, simulacro e "rito sem mito" satisfazem essa exigência". Trânsito inclui simulacro, no qual está inscrita a idéia de repetição. Para tanto, volta-se àqueles pensadores que interrogam esse conceito, entre eles, Kierkegaard, Nietzsche, Freud e Heidegger.
Reconsiderando o conceito de "mímesis" em relação ao barroco e seus antídotos -o de origem e o de identidade-, o autor observa: "O simulacro é (no barroco jesuítico) a imagem sem identidade: não é idêntico a nenhum original exterior e não possui uma originalidade autônoma própria. Seu valor não possui valor nenhum; seu engano é patente; seu caráter conflituoso é indolor. Ele marca o momento no qual a ficção deixa de ser niilista sem, no entanto, restaurar a metafísica, nele o conflito deixa de ser dissolvente sem restabelecer a unidade".
Trânsitos não recusam paradoxos e ambiguidades, ou melhor, acolhem o indecidível com o que se aproximam do barroco leibniziano e seu princípio dos indiscerníveis: não podendo duas coisas individuais ser inteiramente semelhantes, apresentam, ao menos, uma diferença qualitativa interna absoluta. O que significa que o princípio dos indiscerníveis se manifesta por sinais embaralhadores; dêiticos, são, praticamente, indecidíveis. Trânsito: criação que não esgota os seus possíveis, operando uma passagem "do mesmo ao mesmo", por um deslocamento que é "coincidência sem ser identidade", distância que é proximidade.
O bode expiatório
Donde a importância da polissemia em lugar do sentido único, quando Perniola aproxima os universos grego e romano, "Vênus-venenum" e "phármakon". Vênus contém veneração, benevolência dos deuses, do mundo e dos homens; também "bom êxito"; "venenum" liga-se ao caráter sagrado do vinho: "A palavra "venenum", assim como o termo grego "phármakon", que a ela responde, não esclarecem por completo sua dimensão conceitual que é essencialmente latina. Chama-se "pharmakós", na Grécia, o bode expiatório sacrificado -morto ou expulso- para purificar a cidade dos males que a afligiam. O sacrifício humano ou animal (enfim, o que implica derramamento de sangue) é o único "phármakon-remédio" ao "phármakon-veneno" da violência generalizada. Essa perspectiva permanece atuante no interior da filosofia grega, em particular na platônica". O esforço de Platão é o de purificar o "phármakon", conferindo-lhe sentidos separados, dissociando o bem e o mal.
A abordagem de Perniola envolve questões metafísicas e de método. Na história religiosa de Roma, o autor reconhece casos esporádicos de sacrifício humano e de expulsão ritual da cidade, mas a palavra "venenum" encaminha a pesquisa para uma direção completamente diferente: ""Ao vinho os antigos chamavam de veneno", diz Isidoro de Sevilha; tal testemunho, unido ao estudo das festas romanas das "Vinalia", destaca não só o caráter sagrado do vinho, entendido como bebida venusiana por excelência, mas, do mesmo modo, a substituição do sangue pelo vinho nos sacrifícios. A embriaguez dionisíaca é a que provém da fúria homicida do "sparagmós", da dilaceração da vítima, do consumo de suas carnes e do seu sangue. O "vinum-venenum" implica uma recusa da violência, mesmo em seu uso profilático e terapêutico. Vênus instaura um mimetismo astuto que exalta a graça dos "détournements'".
Depois da "morte de Deus", do desmoronamento de todos os valores, e para além do mundo de imagens da "sociedade do espetáculo" e seus fetiches, "Pensar o Ritual" indica o "projeto da filosofia vindoura" que dialogue com sua história; tal tarefa se aproxima à do "guardião de criptas": deve se confrontar à multidão heterogênea de quem deseja visitá-las, ingressando em camadas arqueológicas. Para isso a filosofia "deve ser feita de malícia, astúcia e diplomacia". Por trânsitos.
Pensando o Ritual: Sexualidade, Morte, Mundo
Mario Perniola
Tradução: Maria do Rosário Toschi
Studio Nobel (Tel. 0/xx/11/257-7599)
264 págs., R$ 26,00
Olgária Matos é professora de filosofia na USP e autora, entre outros livros, de "Filosofia - A Polifonia da Razão" (Scipione).