

Coletânea analisa transferência para a cidade universitária do monumento ao engenheiro-arquiteto Ramos de Azevedo
O translado do sentido
SILVANA RUBINO
Na década de 1930 o Rio de Janeiro assistiu à demolição da antiga Academia Imperial de Belas Artes. Fato consumado, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional conseguiu que o pórtico do edifício de Grandjean de Montigny fosse transladado para o Jardim Botânico.
De um lado, a cidade ganhou uma avenida moderna e perdeu o edifício que não parecia mais ter relevância. De outro, os grupos que conferiam valor à antiga escola, se já não eram hegemônicos, tampouco eram invisíveis e, na impossibilidade de se salvar o todo, salvaram-se as partes. Ou ainda: dado o tom modernista que revestia as atividades do patrimônio, um exemplar do ecletismo da Missão Francesa deixava de ser uma prioridade. Qualquer que seja nossa hipótese, ao se transportar um bem para outro contexto há mais do que mera mudança espacial -há um translado de sentido.
Esse é o tema do livro organizado por Annateresa Fabris. O objeto é outro, mas as possibilidades de leitura são análogas. Construído pelo italiano Galileo Emendabili, autor também do Obelisco do Ibirapuera, a escultura em homenagem a Ramos de Azevedo sofreu esse duplo translado. Como assinala Tadeu Chiarelli, Emendabili chegou ao Brasil depois de 1922 e jamais se relacionou com os modernistas (muito embora, influenciado pelos europeus Hildebrand e Mestrovic, não estivesse tão distante de artistas como Victor Becheret, que nesse momento era ainda figurativo). As razões para a glória e o declínio do grupo escultórico não são portanto estritamente artísticas.
O monumento ao engenheiro-arquiteto foi idealizado dias após sua morte em 1928, e a lista de doadores para a obra ia de colaboradores de seu escritório a trabalhadores manuais sobre quem ele tinha considerável ascendência. De posse da verba, o comitê de homenagem decide o local: defronte do Liceu de Artes e Ofícios, projeto de Ramos, que foi também seu vice-presidente. Dentre os 22 inscritos, individualmente ou em equipe, nota-se, como no comitê de doadores, a constante dos sobrenomes italianos. Uma das exceções veio do Rio: a equipe de Archimedes Memória, arquiteto que venceria outro concurso, para o Ministério da Educação e Saúde Pública -Memória venceu, mas não levou, e o belo edifício que temos hoje é da equipe de Lúcio Costa, com participação do arquiteto Le Corbusier.
Egolatria do século 19
A imprensa paulista é quase uníssona: trata-se de homenagear um gigante na portentosa cidade, um agente civilizador e promotor da pujança. A voz dissonante vem de Mário de Andrade, para quem a estatuomania, egolatria característica do século 19, manifestava-se por meio de uma ação entre amigos, resultando em "bronzes pobres" e de "grandiosidade obstruente e incomodatícia". A comissão julgadora -que abrangia de Ricardo Severo, arauto do neocolonial, ao presidente de uma certa sociedade "Muse Italiche"- elege o projeto de Emendabili. Concluído em fins de 1933, a inauguração do monumento é adiada para 25 de janeiro de 1934, data reveladora da afinidade construída entre Ramos e a cidade que ele quis modernizar e civilizar.
Já durante a construção há alterações: um grupo de lutadores é substituído por um conjunto de construtores, exaltando menos o progresso do que o trabalho. A recepção vai do elogio de Menotti del Picchia à sua austeridade até a leitura dos jornais da colônia italiana, que vêem na obra de Emendabili o ideal mussoliniano de potência. O tempo, sugere Fabris, daria razão a Mário de Andrade. A partir de 1952, começa-se a cogitar o desmonte e a transferência do monumento, inteiro ou em partes, para que não atrapalhasse a ligação entre o Anhangabaú e a avenida Tiradentes.
A circulação, peça chave de uma cidade cuja destruição criadora priorizou o fluxo de automóveis, começa a apontá-lo como estorvo. A imprensa chega a citar Drummond: a cidade precisava funcionar, mas... no meio do caminho havia uma estátua. Em 1967, com o argumento da construção do metrô norte-sul, a prefeitura abandona-o em algum canto do Jardim da Luz, onde o monumento que antes ocupara 36 metros na avenida Tiradentes tem surrupiadas algumas de suas alegorias.
A solução vem na década seguinte: em 1972 uma concorrência para a remontagem do conjunto na Cidade Universitária não chega a despertar interesse. O próprio Emendabili é contratado para dirigir a reconstrução, mas morre antes de sua conclusão. A pesquisa de Silvana Brunelli revela que, além das alegorias desaparecidas, as restantes não obedeceram a localização do projeto original. Quando em 1988 Jânio Quadros solicita sua devolução, a USP não demonstra qualquer apreço à obra, admitindo que o prefeito a removesse para o Campo de Bagatelle, o que não ocorreu.
Fabris chama a atenção para a perda da função simbólica do monumento. Além da questão funcional, a perda da importância do próprio Ramos, seu esquecimento pelos órgãos de preservação, pode ser um fator. Ironicamente, a noção de progresso do arquiteto é uma das responsáveis pelo banimento de sua homenagem. Mas, perguntaria aos autores e ao leitor: o Monumento das Bandeiras de Victor Becheret, o conhecido "deixa que eu empurro", seria transferido, caso dificultasse a circulação próxima ao Parque do Ibirapuera?
Eis o mérito desse conjunto de breves ensaios: não naturalizar a transferência nem supor que a qualidade -ou a falta dela- seja razão suficiente para explicar o destino de uma obra de arte depois de concluída. Os autores poderiam ter explorado ainda outro aspecto: o destino, igualmente ingrato, do centro de São Paulo. O mesmo processo atingiu o sítio de fundação da metrópole, que foi deixando de receber investimento simbólico e de capital à medida que as camadas mais abastadas o deixavam entregue à sua própria sorte, elegendo outras centralidades para a cidade.
Hoje voltou-se a olhar para lá. Ou, como diria David Harvey, as "pessoas certas" começam a valorizar o centro. Ramos de Azevedo, por sua vez, foi redescoberto, sendo objeto de estudos e pesquisas dos quais este livro, embora não verse diretamente sobre sua obra, faz parte. Sem conclusões: a reinvenção do centro de São Paulo, com o risco implícito de um processo de enobrecimento, aliada à revitalização de outras modernidades que não a modernista -da qual o livro é também um sintoma-, sugerem que a saga do monumento pode não ter se encerrado.
Monumento a Ramos de Azevedo: Do Concurso ao Exílio Annateresa Fabris (org.) Mercado de Letras/Fapesp (tel. 0/ xx/19/234-1214) 144 págs., R$ 19,00
Silvana Rubino é antropóloga e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Pontifícia Universidade Católica (Campinas).