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Pablo Ruben Mariconda - 105 - Junho de 2009
O senso comum newtoniano
Foto do(a) autor(a) Pablo Ruben Mariconda

PABLO MARICONDA

O senso comum newtoniano

 

Tradução de um pioneiro da divulgação científica

 

OS FUNDADORES DA ASTRONOMIA MODERNA COPÉRNICO/TYCHO BRAHE/KEPLER/GALILEU/NEWTON

Joseph Bertrand

Tradução: Regina Schöpke e Mauro Baladi

Contraponto

218 p., R$ 44,00

 

O livro de Joseph Bertrand (1822-1900) sobre os fundadores da astronomia moderna é um dos primeiros exemplos do gênero divulgação científica, mas hoje não deve ser lido apenas desse modo. Publicado em 1865, chama nossa atenção para a constituição, função cultural e limites desse gênero literário, que vai se tornando cada vez mais necessário à medida que a ciência se especializa, empregando linguagens matemáticas de difícil compreensão.

O livro tem uma estrutura bastante simples. Em cinco capítulos são apresentados – por meio de uma narrativa mista, composta de dados biográficos e realizações científicas – os principais personagens do desenvolvimento da astronomia moderna: Copérnico, Brahe, Kepler, Galileu e Newton. Conclui a obra um posfácio, que consiste, na verdade, na apresentação um tanto sumária da recepção dos Princípios de Newton na França até a data de publicação do trabalho.

Mais do que qualquer outro gênero, o texto de divulgação carrega as marcas de seu tempo. A divulgação científica é uma tentativa de expor, em linguagem não-especializada, os principais resultados teóricos e experimentais de grandes realizações científicas e suas consequências instrumentais.

 

Interesse perigoso

 

A prática da divulgação bem-sucedida, como é o caso de Bertrand, contribui para a adequação do senso comum a uma visão geral, mais ou menos coerente, da natureza e do universo, que, no caso, é claramente representada pelo paradigma newtoniano naquilo que ele tem de mais central, a saber, a teoria da atração gravitacional. Este é seu limite. Trata-se de um texto que consolida no senso comum a visão newtoniana do mundo, na época de seu triunfo máximo.

Convém observar que esse interesse tornou-se para o leitor atual secundário e perigoso; secundário, porque depois de 150 anos o senso comum já passou por profundas adequações a duas revoluções científicas, nem sequer sonhadas por Bertrand, que abalaram totalmente a visão newtoniana do mundo; perigoso, porque pode desencaminhar leitores menos avisados, caso o adotem seriamente como um texto base para inteirar-se da história da astronomia moderna.

Essa limitação intrínseca ao gênero cultivado por Bertrand não é a única; há outras não menos importantes. O texto foi escrito antes da formação e desenvolvimento da filosofia da ciência e da história da ciência, surgidas no final do século 19 e desenvolvidas durante todo o século passado. A conseqüência disso é que as exposições biográficas de Bertrand, quando se referem a pontos específicos das obras dos fundadores, fazem afirmações que foram muitas vezes corrigidas e superadas pela crítica histórica dos últimos 150 anos.

Assim, há lacunas por todas as partes. A exposição sobre Copérnico não cita nem os Commentariolus, nem a Narratio prima de Rético. O relato de Galileu baseia-se na biografia de Vincenzio Viviani, seu último discípulo, e suas fontes são anteriores à publicação das obras completas por Favaro, que contestará episódios, tais como o da torre e do candelabro de Pisa, nos quais Bertrand se baseia para afirmar que a constituição da mecânica por Galileu ocorreu nos três curtos anos (1589-1592) que passou como professor na Universidade de Pisa. O mesmo problema ocorre com as fontes ligadas a Kepler, a Newton e, principalmente, a Leibniz, que muito evoluíram com as edições de obras completas no século 20.

Por fim, Bertrand é, em geral, condescendente com seus personagens. Demonstra uma tendência a desculpar seus excessos, justificando-os como ações cometidas em nome da busca pela verdade. Conclui-se das trajetórias que ele constrói para cada um deles a perspectiva da historiografia heróica que conta os grandes feitos dos gênios da humanidade, homens incomuns de inteligência superior. Trata-se de outra limitação do livro de Bertrand que cabe ser destacada em face da crítica histórica acumulada.

A publicação do trabalho de Bertrand não dispensava, portanto, um prefácio à edição brasileira que alertasse os leitores para a dupla dimensão de interesse da obra, de modo a dar-lhe o relevo e a importância que merece.

Com efeito, Os fundadores da astronomia moderna apresenta um duplo interesse que transcende o da mera informação ou divulgação, função para a qual o trabalho está evidentemente superado. Primeiro, interessa como uma das primeiras expressões de um novo gênero literário desenvolvido em função do avanço da penetração cultural da ciência; segundo, permite apreciar como o gênero “divulgação científica” está condicionado pelo estado presente de desenvolvimento do conhecimento científico e como é nesse quadro que se constitui a mensagem de divulgação. Visto deste ângulo, Bertrand nos fornece um belo retrato da visão científica do mundo, tal como se tornou acessível ao senso comum em meados do século 19.

 

Pablo Ruben Mariconda é professor do departamento de filosofia da USP.
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