

PABLO MARICONDA
O senso comum newtoniano
Tradução de um pioneiro da divulgação científica
OS FUNDADORES DA ASTRONOMIA MODERNA COPÉRNICO/TYCHO BRAHE/KEPLER/GALILEU/NEWTON
Joseph Bertrand
Tradução: Regina Schöpke e Mauro Baladi
Contraponto
218 p., R$ 44,00
O livro de Joseph Bertrand (1822-1900) sobre os fundadores da astronomia moderna é um dos primeiros exemplos do gênero divulgação científica, mas hoje não deve ser lido apenas desse modo. Publicado em 1865, chama nossa atenção para a constituição, função cultural e limites desse gênero literário, que vai se tornando cada vez mais necessário à medida que a ciência se especializa, empregando linguagens matemáticas de difícil compreensão.
O livro tem uma estrutura bastante simples. Em cinco capítulos são apresentados – por meio de uma narrativa mista, composta de dados biográficos e realizações científicas – os principais personagens do desenvolvimento da astronomia moderna: Copérnico, Brahe, Kepler, Galileu e Newton. Conclui a obra um posfácio, que consiste, na verdade, na apresentação um tanto sumária da recepção dos Princípios de Newton na França até a data de publicação do trabalho.
Mais do que qualquer outro gênero, o texto de divulgação carrega as marcas de seu tempo. A divulgação científica é uma tentativa de expor, em linguagem não-especializada, os principais resultados teóricos e experimentais de grandes realizações científicas e suas consequências instrumentais.
Interesse perigoso
A prática da divulgação bem-sucedida, como é o caso de Bertrand, contribui para a adequação do senso comum a uma visão geral, mais ou menos coerente, da natureza e do universo, que, no caso, é claramente representada pelo paradigma newtoniano naquilo que ele tem de mais central, a saber, a teoria da atração gravitacional. Este é seu limite. Trata-se de um texto que consolida no senso comum a visão newtoniana do mundo, na época de seu triunfo máximo.
Convém observar que esse interesse tornou-se para o leitor atual secundário e perigoso; secundário, porque depois de 150 anos o senso comum já passou por profundas adequações a duas revoluções científicas, nem sequer sonhadas por Bertrand, que abalaram totalmente a visão newtoniana do mundo; perigoso, porque pode desencaminhar leitores menos avisados, caso o adotem seriamente como um texto base para inteirar-se da história da astronomia moderna.
Essa limitação intrínseca ao gênero cultivado por Bertrand não é a única; há outras não menos importantes. O texto foi escrito antes da formação e desenvolvimento da filosofia da ciência e da história da ciência, surgidas no final do século 19 e desenvolvidas durante todo o século passado. A conseqüência disso é que as exposições biográficas de Bertrand, quando se referem a pontos específicos das obras dos fundadores, fazem afirmações que foram muitas vezes corrigidas e superadas pela crítica histórica dos últimos 150 anos.
Assim, há lacunas por todas as partes. A exposição sobre Copérnico não cita nem os Commentariolus, nem a Narratio prima de Rético. O relato de Galileu baseia-se na biografia de Vincenzio Viviani, seu último discípulo, e suas fontes são anteriores à publicação das obras completas por Favaro, que contestará episódios, tais como o da torre e do candelabro de Pisa, nos quais Bertrand se baseia para afirmar que a constituição da mecânica por Galileu ocorreu nos três curtos anos (1589-1592) que passou como professor na Universidade de Pisa. O mesmo problema ocorre com as fontes ligadas a Kepler, a Newton e, principalmente, a Leibniz, que muito evoluíram com as edições de obras completas no século 20.
Por fim, Bertrand é, em geral, condescendente com seus personagens. Demonstra uma tendência a desculpar seus excessos, justificando-os como ações cometidas em nome da busca pela verdade. Conclui-se das trajetórias que ele constrói para cada um deles a perspectiva da historiografia heróica que conta os grandes feitos dos gênios da humanidade, homens incomuns de inteligência superior. Trata-se de outra limitação do livro de Bertrand que cabe ser destacada em face da crítica histórica acumulada.
A publicação do trabalho de Bertrand não dispensava, portanto, um prefácio à edição brasileira que alertasse os leitores para a dupla dimensão de interesse da obra, de modo a dar-lhe o relevo e a importância que merece.
Com efeito, Os fundadores da astronomia moderna apresenta um duplo interesse que transcende o da mera informação ou divulgação, função para a qual o trabalho está evidentemente superado. Primeiro, interessa como uma das primeiras expressões de um novo gênero literário desenvolvido em função do avanço da penetração cultural da ciência; segundo, permite apreciar como o gênero “divulgação científica” está condicionado pelo estado presente de desenvolvimento do conhecimento científico e como é nesse quadro que se constitui a mensagem de divulgação. Visto deste ângulo, Bertrand nos fornece um belo retrato da visão científica do mundo, tal como se tornou acessível ao senso comum em meados do século 19.