

MARTA AMOROSO
O que teria sido de nós?
Roquette-Pinto médico, antropólogo, educador e radialista
ANTROPOLOGIA BRASILIANA. CIÊNCIA E EDUCAÇÃO NA OBRA DE EDGARD ROQUETTE-PINTO.
Nísia Trindade Lima e Dominichi Miranda de Sá (Orgs.)
EDITORA FIOCRUZ/ EDITORA UFMG
328 p., R$ 55,00
É com um misto de espanto e apreensão que chegamos ao fim da leitura dessa coletânea dedicada à figura ímpar do antropólogo Edgard Roquette-Pinto e sua obra. O livro nos leva a refletir sobre o que teria sido o Brasil sem a guinada que o antropólogo empreendeu no debate sobre as raças, num momento em que, em todo mundo, tratados científico-políticos orientavam programas de imigração e decidiam o destino das nações na entrada do século 20. Como mostra G. Seyferth no volume, a posição de Roquette-Pinto, no 1o Congresso Brasileiro de Eugenia, por ele presidido em 1929, foi de combate ao racismo no campo científico e no pensamento social.
O desafio da coletânea não foi pequeno, dadas as características da “personalidade múltipla” do homenageado, traço que o livro pretendeu enfatizar no caderno de imagens, vestígios da inquietação produtiva do médico, antropólogo, educador e radialista, e ao longo das quatro partes que compõem o volume. O título do livro, por sua vez, alude ao que podemos considerar o eixo dessa trajetória singular: o tema da ciência brasiliana, aquela que, voltada para as particularidades do Brasil, fosse aqui desenvolvida e compartilhada por todos os brasilianos, cientistas ou não.
Catequese leiga
As duas primeiras partes da coletânea abordam o programa de institucionalização das ciências empreendido pela intelectualidade republicana que derrubou a monarquia e se engajou na construção da nova ordem. A análise de L. O. Ferreira busca o justificado resgate do papel do positivismo do século 19. Na outra ponta, na linha dos excessos da militância positivista – pensamento que no indigenismo do Brasil teve longa tradição e se autodenominava ‘catequese leiga’ –, a coletânea registra o exercício da censura praticada pelo antropólogo na época de criação do Instituto Nacional do Cinema e o tom higienizador contido na fé ilimitada na ciência e no progresso.
Nesta primeira parte, o viés de uma história das ciências por vezes afasta os autores de um dos aspectos mais sensíveis da contribuição de Roquette-Pinto para a construção de uma antropologia, se não moderna, já que inspirada em história natural, sem dúvida marcadamente etnográfica. Em Rondônia. Antropologia e Etnografia (1927), ele aderia ao exercício da antropologia etnográfica, de formato pré-malinowskiano, tendo em vista a demanda por documentários das populações do sertão, distantes e contrastantes da ciência e do homem do litoral.
Sobre as pesquisas de campo na Serra do Norte, junto aos Nhambiquara, Pareci e também ao sertanejo, indicava o antropólogo ter buscado inspiração na antropogeografia de F. Ratzel (1844–1904) e na antropologia de A. Bastian (1826–1905), o que o levou a produzir uma etnografia que elegia por objeto a delimitação de uma região, no caso aquela localizada entre os rios Juruena e Madeira, nela incluída sua população.
A partir destes estudos, Roquette-Pinto parte para a definição da existência de um território, para o qual chega a atribuir um nome: Rondônia, em homenagem a Rondon, o cientista que simbolizava a expressão máxima da ciência brasiliana defendida pelo antropólogo.
Defesa dos hibridismos
Pois foi o conceito de etnografia, ainda no viés ambientalista característico das ciências sociais da época (distante, portanto, da potência que o método adquiriu com o antropólogo B. Malinowski, ao dar voz aos nativos das Ilhas Trombriand), que projetou a obra de Roquette-Pinto no seio do debate modernista do entreguerras. V. S. Souza nos lembra que Gilberto Freyre em Casa Grande e Senzala citava Roquette-Pinto e sua defesa da criatividade reprodutiva e cultural dos hibridismos, lançando por terra a ideologia arraigada que associava a mestiçagem à esterilidade e à degeneração. As coordenadoras da coletânea lembram ainda das referências à obra de Roquette-Pinto na correspondência de Mário de Andrade. Poderíamos acrescentar que o poeta, em pleno namoro com a antropologia e estimulado pelo trabalho de Roquette-Pinto no Museu Nacional, funda em 1936 a Sociedade de Etnografia e Folclore e chama Dina Lévi-Strauss para ministrar o primeiro curso de etnografia.
E quanto ao brasiliano? Retomando um debate caro à historiografia e literatura do final do século 19 e início do 20 sobre as origens da nação brasileira, Roquette-Pinto afirmava não ser o índio o marco zero da brasilidade: “O índio não é um tipo brasileiro: é simplesmente americano. Todos os índios que tenho encontrado falando nossa língua sempre deixaram claro: brasileiros somos nós outros. Eles são Karajá, Bororo, Pareci etc. E temos o dever de respeitar essas nações”.
A pesquisa sobre as populações indígenas assumia, entretanto, caráter prioritário, fadadas que estavam tais populações a se dissolverem “na massa branca que vem se deslocando da Europa para o bem de nosso progresso”. Roquette-Pinto pensava os índios como “tipos transitórios”. Tal tipologia aludia, como G. Seyferth nos mostra, às teses de J. B. de Lacerda expostas no Congresso Universal das Raças (Londres, 1911) sobre a condição do mestiço, que caminharia invariavelmente em direção ao branqueamento. Negros, índios e mestiços estariam fadados ao desaparecimento devido à lei da “seleção sexual das raças”. Roquette-Pinto chega a colaborar nestas pesquisas que projetavam o branqueamento inevitável da nação brasileira, sua obra se configurando assim como uma transição de paradigmas.
Em outro sentido, como nos mostra R. Ventura dos Santos, a contribuição de Roquette-Pinto pode representar um salto no debate da antropologia médica sobre mestiçagem e degeneração. Santos chega a tais conclusões ao confrontar análises de dois crânios ilustres, alvo das atenções de dois médicos antropólogos: o crânio de Antonio Conselheiro, analisado por Nina Rodrigues, e o de Euclides da Cunha, estudado por Roquette-Pinto. Na mesma linha J. de S. Ramos e V. S. de Souza contrastam as posturas de Roquette-Pinto com as de eugenistas como Renato Kehl e Miguel Couto na Constituinte de 1934.
Mas talvez seja a última parte da coletânea a que mais se aproxima do homenageado, ao tratar da grande paixão de Roquette-Pinto: a divulgação científica. O antropólogo se colocou a serviço dela muito jovem, como professor de história natural nos colégios, realizando documentários na década de 1910, criando a Academia Brasileira de Ciências na década seguinte e montando nela a Rádio Sociedade, mantendo os serviços educacionais do Museu Nacional e a Revista Nacional de Educação nos anos 1930. A divulgação científica levou ainda o antropólogo a trabalhar com o cinema, em parceria com Humberto Mauro, e fez com que ele descortinasse para sua geração as potencialidades do ensino à distância