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Vilma Areas - 104 - Março de 2009
O que há de pior em nós
Foto do(a) autor(a) Vilma Areas

O  que há de pior em nós

 

VILMA ARÊAS

 

 

O FILHO ETERNO

Cristovão Tezza

RECORD

224 p., R$ 34,00

 

 

 

“Se for como suponho (pode não ser)...” escreve Antonio Candido em O albatroz e o chinês (Ouro sobre Azul), aceitando com realismo o provisório dos juízos.

Isto posto, comecemos por dizer que O filho eterno significa um avanço no percurso de Cristóvão Tezza. Trabalhando desta vez com um núcleo duro e difícil de lidar – consequências na vida de um pai a partir do nascimento de um filho com síndrome de Down -, Tezza lança mão de vários procedimentos para contornar sentimentalidades e auto-ajudas. Por exemplo, a afirmação de ter se inspirado em Juventude, de J.M.Coetzee (Companhia das Letras), deslocando o foco autobiográfico para a terceira pessoa, para tomar distância do tema e atingir certa universalidade.

O autor sul-africano escreve um tipo de “história do artista quando jovem”, particularizando-a por meio da análise brutal das ilusões e caráter problemático, para dizer o mínimo, de um jovem de um país periférico. Esse aspecto também aparece em O filho eterno como motivo cruzado.

No raiar deste século, a Companhia das Letras publicou dois livros de premiadíssimos autores com temas similares: Nascer duas vezes, de  Giuseppe Pontiggia  e Uma questão pessoal, de Kenzaburo Oe.

Acho esclarecedor comparar brevemente as escolhas estéticas desses autores, por certa coincidência entre eles promovida pelo assunto, embora formalmente se distanciem.

Em primeiro lugar, se alguns motivos de Pontiggia e Oe surgem em Tezza, os primeiros atuam a favor da tensão, para que o núcleo temático não saia de foco. Pontiggia, que como Tezza acompanha o nascimento e a vida futura do filho, utiliza flashes para açoitar mitos de eficiência técnica e hipocrisias do senso comum, sempre no horizonte da doença, “que desperta o que há de pior em nós”.

O livro de Oe é mais tensionado. Tudo se passa em poucas semanas, e o texto nos arrasta como o devaneio obsessivo do protagonista a respeito da África: fantasia de fuga e suporte imaginário que paradoxalmente alimenta o movimento centrípeto do livro, fazendo com que trama, imagens e contexto coincidam absolutamente.

Sem precisar ter lido esses livros, pois todos se apóiam em experiências próximas, Tezza partilha com Oe o dilacerante desejo da morte do filho. É um momento excepcionalmente dramático, embora nosso autor tenha escolhido um andamento mais lento por conta dos cortes numerosos, ligados ao passado do pai. Desse modo somos retirados da cena incômoda – todos esses livros são teatrais - e nos distraímos, o que faz baixar o tônus narrativo.

Porém tal oscilação está de acordo com o retrato do protagonista, que contribui para o mesmo efeito, ao atravessar as várias idades com sua volubilidade de “pequeno bugre anarquista”, sofrendo as consequências de um habitante da “periferia da periferia”. Assim, se ele às vezes se sente “um predestinado à literatura – alguém necessariamente superior”, também se sente “uma pessoa tosca, inacabada” e seus muitos comentários – filosóficos, literários ou políticos - são no mínimo obscuros. Por exemplo, para ele a poesia se confunde com “o sentimento do sublime”, ler Virgílio inteiro “é sabedoria de almanaque sofisticado”, “T.S. Eliot é alguém incompreensível”; de Borges, topamos com “alephs de plástico para consumo intelectual”; um verso do personagem, “mesmo que sabes”, gralha editorial certamente, é interpretado como “enigma oco” etc.

Por outro lado, há momentos muito fortes em O filho eterno, como a progressiva aproximação do protagonista com o filho que desejara morto – e o dedo do pai agarrado pela criança pontua com frequência o sentimento, ultrapassando o mero reflexo -, além do impressionante treinamento neurológico do bebê, que teria força para sustentar sozinho uma novela mais enxuta. No centro do texto, sua localização sinaliza sua importância - ponto infeccionado que flui de algum modo até os capítulos finais, no calor com que são pintadas as cenas familiares, quando tocadas pela figura comovente de Felipe.

O leitor deve conferir.

Vilma Areas é professora titular de literatura na Unicamp.
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