

O purgatório de Sofia
LUIZ PAULO LABRIOLA
Em entrevista concedida à Folha em 1995, Jostein Gaarder lembrou que uma das metas de "O Mundo de Sofia" era "falar da filosofia fora das instituições acadêmicas (...), levá-la de volta ao mercado, seu lugar original". Embora aludindo à vocação política do pensamento filosófico pré-socrático e seu enraizamento na praça pública, o autor desde logo pôde constatar que, ao menos no sentido mais corrente de "mercado", seu projeto foi plenamente bem-sucedido. Sua "história da filosofia dentro de uma história", que deve ser lida "não como uma enciclopédia, mas como um romance", alcançou um prodigioso sucesso de vendagem. Traduzido para 38 línguas e tendo vendido mais de 1,2 milhão de exemplares na Alemanha, o livro teve excelente vendagem também no Brasil.
Não obstante, o sucesso de vendas de "O Mundo de Sofia" junto ao público brasileiro, um ano após seu lançamento, parece ainda muito distante de representar um êxito de apreciação e aceitação da obra. Muitos leitores, mesmo os de formação superior e pertencentes ao seleto universo dos mais familiarizados com leituras de ficção, vêm mostrando grande resistência para chegar às últimas páginas do livro. Atraídos ou não por um certo modismo filosófico que tenta fazer da filosofia uma espécie de bússola espiritual para o desnorteio existencial, são muitos os que se sentem atraídos pela chance de superarem o estigma da impenetrabilidade que cerca os textos de filosofia. A narrativa de Gaarder acena para essa possibilidade, na medida em que pretende submeter duas adolescentes a uma espécie de iniciação filosófica por meio das lições apresentadas pelo personagem Alberto Knox, tarefa que naturalmente demandaria maiores cuidados didáticos. O projeto de Gaarder, no entanto, parece muito distante de permitir uma partilha mais "democratizada" do vasto repertório filosófico do qual pretensiosamente deseja dar conta. E não faltam motivos para isso.
Prestes a completar 15 anos, Sofia corresponde-se com o professor Knox, que enviara à adolescente bilhetes com "indagações filosóficas", destinados a trazê-la para o mundo dos "grandes pensadores". Ao mesmo tempo, um major do regimento da ONU no Líbano enviava cartões a sua filha Hilde, os quais, inexplicavelmente, chegavam antes à casa da própria Sofia. Grande parte da narrativa se arrasta entre os sermões filosóficos de Knox e a chegada dos misteriosos cartões. Sofia, curiosamente, assimila as lições com rapidez digna de uma autêntica menina-prodígio, elaborando inclusive relações miraculosamente sintéticas entre Demócrito, Platão e Hume, por exemplo. Ao que tudo indica, porém, o pobre leitor fica a ver navios, diante de um desfile de erudição pouco factível, diga-se de passagem, em uma suposta "iniciação teen" à história da filosofia. As reações de Sofia, intelectualmente auspiciosas, parecem pouquíssimo verossímeis, se confrontadas com o perfil do adolescente brasileiro.
A epígrafe do livro já prenuncia o caráter prometéico, quase megalômano, do intento pedagógico do professor-personagem. Citando Goethe, Gaarder atesta que "Quem, de três milênios,/ Não é capaz de se dar conta/ Vive na ignorância, na sombra,/ À mercê dos dias, do tempo". De fato, a narrativa reincide numa mistificação do papel da tradição filosófica, ao atribuir a tudo o que tange à filosofia um caráter solene e redentor. "Eu não quero", determina o professor, que "você passe a pertencer ao clube dos apáticos e indiferentes. Quero que você viva uma vida instigante" (pág. 30), supervalorizando uma suposta função psicoterapêutica dos estudos filosóficos.
O filósofo "permanece a sua vida toda tão receptivo e sensível às coisas quanto um bebê" (pág. 30) e, como as crianças, não tem "opiniões preconcebidas", pois "experimenta o mundo tal como ele é, sem acrescentar coisas ao que experimenta" (pág. 296). Um mínimo de familiaridade com a reflexão filosófica talvez permitisse a esse benevolente professor de Sofia vislumbrar o quão tortuosos são os caminhos da tradição que buscam essa inaudita neutralidade epistemológica. Após as aulas sobre a civilização judaico-cristã, Sofia se mostra convencida de que "se viesse a conhecer suas raízes históricas, ela passaria a ser alguém menos comum" (pág. 181), como se seus estudos devessem estar compromissados com imperativos de notoriedade junto aos outros mortais.
No clímax da narrativa, no entanto, após o estudo sobre Berkeley, Sofia e Knox descobrem-se desprovidos de livre-arbítrio e reduzidos à condição de meros personagens de um livro de filosofia que estava sendo escrito para Hilde por seu pai, no Líbano. Na irrefreada libertinagem conceitual que se manifesta em várias passagens do texto, o major-autor seria a encarnação do Deus berkeleyano, "por meio do qual tudo existe", inclusive a história da iniciação filosófica de Sofia.
A partir daí, a adolescente e seu mestre iniciam a busca obstinada de meios para ludibriar a atenção dessa "vontade espiritual" que manipula seus destinos. Nem por isso a mistificação é suspensa. Aliás, boa parte da megalomania em torno do que se entende por "filosófico" é reforçada por uma indisfarçável inclinação épica cristã que perpassa as iniciativas do professor. O capítulo sobre os "círculos culturais greco-romanos e semitas", sobretudo na seção sobre o pregador Paulo, beira a apologética. O próprio Gaarder, na entrevista mencionada, afirma que, para ele, "Jesus é um filósofo muito importante", e que se inspira "muito no cristianismo e na Bíblia".
O resultado desse "parti pris", em boa parte do texto, é a reincidência num primarismo conceitual que, infelizmente, manifestar-se-á em pelo menos 30 passagens das homilias teóricas desse "filósofo", altamente preocupado com a "moral das coisas" e com o "saldo" do aprendizado. Na seção sobre Tomás de Aquino, ao tentar demonstrar a atualidade do tomismo, o professor de Sofia perpetra o seguinte comentário sobre a existência de Deus: "Ainda hoje, (...) a maioria das pessoas teria de admitir que a nossa razão não é capaz de provar que não existe um Deus" (pág. 200), como se coubesse a quem quer que seja, ateu ou não, provar a inexistência do ser todo poderoso, antes mesmo de sua existência propriamente dita. Caberia, pois, aos hercúleos filósofos da posteridade, suficientemente vergados pelo sobrenatural, provar que também não existem minotauros, ciclopes ou discos voadores. Tarefa para, no mínimo, mais dois séculos de "filosofia". O próprio major-autor declara à filha, num hilário arroubo de onipotência, que "um curso de filosofia talvez fosse a melhor arma contra a guerra e a violência" (pág. 240), para que "a paz entre os povos seja assegurada" (pág. 364). Uma vez que a pobre Hilde, após a aula sobre Berkeley, já estava convencida de que "a vida é sonho" (pág. 306), deverá então concluir que a filosofia serve apenas para mitigar pesadelos.
Por fim, a narrativa padece de outros problemas de verossimilhança. Conforme lembra Benedito Nunes, em sua "Introdução à Filosofia da Arte" (Ática, pág. 40), um texto literário não pode, a rigor, ser tomado como "completamente real (...) nem como uma cabal ilusão". Para criar alguma semelhança com o real, é preciso encontrar um termo expressivo que permita posicionar a representação artística "a meio caminho da existência e da inexistência", dando à sua linguagem uma mobilidade capaz de estimular, com máximo vigor, a contemplação estética.
O romance filosófico de Gaarder é, nesse sentido, um desastre. Ao descobrirem que são apenas personagens de um livro, Knox e sua aluna combinam que ela irá atrair ao máximo a atenção do narrador (até então onisciente), para que ele, professor, possa trabalhar num "plano secreto" que permita aos dois escaparem do controle do major-escritor. E conseguem: passam para um mundo de "espíritos" que "podem atravessar portas de aço" e não seriam destruídos nem por "carros blindados", nem por "bombas" (pág. 527). As ações nesse "mundo", no entanto, são também objeto de narração em terceira pessoa onisciente. Teria Gaarder recorrido agora a outro Deus, o "enganador" cartesiano? Trata-se de um desenlace meio kardecista, meio "Ghost, o Outro Lado da Vida" (ao qual, aliás, os poderosos filósofos apresentados até então não têm acesso).
No entanto, prosseguem os maçantes sermões teóricos, que em todo o livro raramente se vinculam aos fatos narrados. É inevitável o pressentimento de que os leitores adolescentes que ousarem enfrentar o árido mundo de Sofia talvez venham a se interessar menos pela "filosofia" e mais pela história das duas garotas (climatizada como um conto de fadas que, para os mais maliciosos, pode ser um "tour de force"). Já para os leitores adultos, talvez persista o desafio de tentar aprender um pouco de filosofia com os resuminhos teóricos de Gaarder. Tarefa nada fácil. A aprendiz Hilde, talvez farta dessa trama esquizofrenizante, já estava se convencendo, ao fim da história (pág. 457), de que melhor mesmo seria "poder conversar sobre trivialidades (durante o café da manhã) e dizer, por exemplo, que o ovo estava delicioso, se bem que um pouco mole demais"...