

Livro mostra percurso do artista plástico Cildo Meireles
O prazer da experimentação
SÔNIA SALZSTEIN
O trabalho de Cildo Meireles liga-se a uma geração que protagonizou a resistência e a vitalidade do meio artístico brasileiro no período militar e a consolidação de uma arte contemporânea entre nós. Foi obra dessa geração, surgida no final dos anos 60, a superação do renitente tom local do debate artístico nacional, o redimensionamento das exigências da plataforma nacional/popular e da célebre aspiração à identidade brasileira. Assim, a produção dos mais jovens (e a de Cildo entre eles) dissolvia, no curso da década de 70, o ranço oficialista do debate da cultura brasileira, submetendo-o ao xeque-mate dos novos dilemas postos pelo mercado e pela ascendente cultura popular de massas.
Obras como as "Inserções em Circuitos" (em que Cildo lidava com o dinheiro, a mídia, o circuito do consumo) formalizavam para nós as simbioses entre barbárie e progresso tecnológico e percebiam a miséria e a selvageria nacional não mais como questão local, mas como manifestações periféricas da alienação mercadológica que grassava por toda parte. Nesses trabalhos a eloquência política cortante manifestava-se em superfície, mas o que de fato contava era a atitude subterrânea de beligerância existencial, que resistia ao desgaste e à alienação na forma de um movimento que perseverava, um dispêndio e uma renovação potentes e ininterruptos de energia psicossocial.
Em vez da assepsia racionalista da vertente conceitual, dominante no meio internacional no curso da década de 70, a forma guardaria para o artista uma dimensão física e processual: lampejo fugaz de sentido em meio a um feixe de processos aleatórios extrínsecos ao indivíduo, envolvendo em sua impureza essencial tanto a reflexividade dos conceitos como a "carnalidade" opaca da experiência social. Essa postura de altivez estética e intelectual permitiu ao artista mesclar com desenvoltura os elementos pobres e os suntuosos da realidade brasileira, conceitualismo e crueza carnal e, ao fazê-lo, revelar os compromissos profundos entre malignidade social e sublimação tecnológica, não importando onde brotassem.
Note-se que a exigência política presente até hoje no trabalho de Cildo, em vez de levá-lo a contentar-se com a denúncia escatológica da questão social, como se à arte coubesse alguma função moralizadora no universo da cultura, sempre impeliu-o à prospecção da natureza dessas turbulentas matérias sociais, de sorte que pôde decantá-las a um substrato antropológico, etológico, algo que se revelaria, enfim, dentro da história sem deixar se explicar inteiramente por ela.
Limites da linguagem
Da juventude à maturidade, da efervescência política e cultural dos anos 60 à "realpolitik" dos anos 90, quando o artista ganhou reconhecimento internacional, essa obra não perdeu o prazer da experimentação, não perdeu a atitude que sempre prezou a premência franca das incompletudes e uma relação temerária e vertiginosa com a forma. Em tempos capilarmente institucionalizados, Cildo prosseguiu tangenciando os limites da linguagem, empurrando seu trabalho a um passo da dispersão na "empiria" das matérias sociais, mas resgatando-o sempre, em uma guinada potente e no último minuto, ao nódulo de sua lei estética mais interna. Não é pouca coisa esse histórico de consistência e fidelidade a si mesmo, dado o comportamento lépido do meio de arte brasileiro nos últimos dois decênios, e a disseminação no mundo globalizado da arte de uma neocultura de protesto, que vem dispondo parodicamente do discurso político tão caro a Cildo, com uma agressividade ao mesmo tempo infantil e profissional.
A obra de Cildo Meireles, tão pouco vista pelo público brasileiro, aparece agora em livro. Trata-se da versão do volume publicado pela Phaidon Press (1999). Desde já é preciso dizer que causa inquietação o trabalho do artista ter sido reconhecido antes no meio internacional. Por aqui o livro serviu de apoio a exposição abrangente de Cildo, primeiro no Museu de Arte Moderna de São Paulo e agora no MAM do Rio de Janeiro, ambas desdobramentos da mostra organizada pelo New Museum de Nova York.
A publicação é dividida em seis seções: entrevista com Cildo, por Gerardo Mosquera (co-curador da mostra do New Museum, com Dan Cameron, diretor do museu); ensaio sobre a obra, de Paulo Herkenhoff; texto de Dan Cameron sobre a instalação "Desvio para o Vermelho"; intervenção editorial do artista, trazendo excertos de Jorge Luís Borges, textos de Cildo e cronologia.
O percurso de Cildo
Por sua abrangência, o ensaio de Paulo Herkenhoff firma-se como eixo da publicação; por meio de uma escrita rica em sugestões visuais, mais empenhada no comentário vivo e colorido de cada trabalho do que em uma apreensão histórica, o crítico não deixa de fornecer ao leitor o fio condutor do percurso de Cildo. Os trabalhos focalizados fornecem ao autor elementos cruciais para o exame de toda a obra, a abordagem atendendo tanto à exigência de percebê-la conectada à premência das questões culturais contemporâneas quanto à de acompanhar-lhe o nervo das inquietações conceituais ao longo dos anos. Herkenhoff examina seu objeto por meio de uma multiplicidade de chaves interpretativas (política, economia, psicanálise, filosofia), sempre reportando-o às rubricas que animaram o debate internacional na última década: emergência de contextos locais, "canibalismo cultural", contestação política e institucional etc.
Ao mesmo tempo, não deixa de reconhecer o vínculo da obra de Cildo à questão local, em especial ao neoconcretismo. Uma das formulações mais interessantes do crítico consiste em pensar o procedimento da acumulação de objetos, corrente nessa obra, não como atitude de desinvestimento subjetivo, como ocorreria na vertente minimalista, tampouco como dramatização irracionalista da coisificação do sujeito, mas como potencialização erótica dos objetos, concentração daquela energia psicossocial num poderoso estado de latência: "o excesso transforma a fragilidade em força", diz Herkenhoff. Outra percepção estimulante consiste em tomar as referências políticas do trabalho de Cildo não como metáforas, mas como o próprio substrato físico desse trabalho, matéria, afinal.
A entrevista de Mosquera e o texto de Cameron completam a obra. Não há espaço para discutir mais de perto esses textos -tão ricos em informações e que iluminam a compreensão da trajetória do artista. É mais do que justo, então, saudar a iniciativa que brota em meio adverso a empreitadas reflexivas. No entanto é impossível deixar de notar o fato de que no livro sempre transparece o tom de quem se dirige mais ao meio internacional do que ao leitor daqui.
Vale dizer: aí predominam o ângulo aberto do texto de crítica, as relações com as questões culturais em pauta no meio internacional, ficando em segundo plano o ânimo de ver o trabalho na perspectiva do contexto brasileiro de hoje, mostrando aliás como a contribuição original do artista à cena internacional decorre justamente de seu embate profundo com as condições brasileiras. É verdade que, se de fato há nisso um problema, este é do meio, não do livro, originado fora do país. Mas convém lembrar que, nos últimos 20 anos, ficou quase à míngua a produção crítica sobre arte brasileira, que se suporia vicejando no ambiente acadêmico ou sob os auspícios de instituições especializadas, independentemente das exigências do circuito de arte. Algo inquietante, considerando a projeção internacional da arte brasileira, cercada, aliás, pela adulação crescente da mídia e pelo inédito aporte de recursos privados à área nas últimas décadas. De fato, é preciso admitir que as condições que favoreceram a tão esperada integração da produção nacional ao circuito dos problemas contemporâneos até agora não surtiram efeitos significativos no aprimoramento do debate local, não favoreceram a constituição de um lastro cultural e de uma dimensão pública para a arte brasileira.
No entanto, nunca houve à disposição do leitor tantos livros sobre ela. Chama a atenção que a maior parte não tenha surgido de iniciativas editoriais ou institucionais sistemáticas, mas quase sempre do empenho pessoal de artistas e interessados. Tais livros se revelam, então, sob esse duplo viés. São índices do novo circuito globalizado da arte, em que artistas brasileiros surgem como moeda corrente e prestigiada. O fenômeno atenderia às novas exigências globais, que, ao integrar os mercados, impõem simplificações intelectuais e a adequação dos trabalhos a um jargão internacional da crítica. Não por acaso, tantos livros bem produzidos nem sempre têm indicado empenho crítico ou o deslindamento de uma perspectiva histórica e crítica sobre a arte brasileira.
Por outro lado, o surpreendente e muitas vezes desorientado florescimento de iniciativas editoriais não deixa de atestar a constituição, mesmo imperfeita, de uma história local e de favorecer o balanço de nossa tradição moderna, recente e fecunda, da qual aliás deriva o veio experimental da produção contemporânea. Vamos torcer para que o belo livro sobre Cildo estimule uma política consequente de publicações sobre a arte moderna e contemporânea brasileira (como aliás vem ocorrendo timidamente em umas poucas editoras), capaz de adensar e valorizar a arte brasileira em primeiro lugar para o próprio público brasileiro. De outro modo, é uma cultura de aeroporto o que vem por aí.
Cildo Meireles
Paulo Herkenhoff, Gerardo Mosquera e Dan Cameron. Cosac & Naify (Tel. 0/xx/ 11/ 255-8808). 160 págs., R$ 70,00
Sônia Salzstein é crítica de arte.