

O peso da tradição
O Sol, o Genoma e a Internet
Freeman Dyson
Tradução: Otacílio Nunes Jr.
Cia. das Letras (Tel. 0/xx/11/3167-0801)
144 págs., R$ 22,50
HENRIQUE FLEMING
Depois que Stephen Hawking ficou multimilionário com seu livro "Breve História do Tempo" (Rocco), muitos tentaram a sorte. Dentre as centenas de livros de divulgação publicados (e estou me referindo só à física), uns poucos resultaram de qualidade: os adoráveis livros de Richard Feynman, o Pedro Malazarte da física teórica, e os belos e, possivelmente, profundos livros de Freeman Dyson. Certamente estou esquecendo algum ótimo livro, é sempre assim. Mas quero ser drástico. Por exemplo, o livro de Hawking foi por mim excluído, não esquecido.
Dyson também ficou rico, tanto pelo sucesso editorial de "Perturbando o Universo" (Ed. UnB) e "Infinito em Todas as Direções" (Cia. das Letras), quanto por ter, graças a esses livros, ganho o prêmio Templeton, de cerca de 1 milhão de libras, mantido por uma entidade religiosa. Estranhos tempos, os nossos. Entre os vencedores desse prêmio, anteriores a Dyson, está madre Tereza, às portas da canonização.
A "beatificação" de Dyson afetou seus livros, parece-me. Há prêmios e prêmios. De alguma forma o prêmio Templeton, por seu caráter religioso, convida seus agraciados a um comportamento impecável, uma restrição incompatível com o pensamento livre. O Prêmio Nobel, menos. É preciso ser muito forte para poder continuar trabalhando após o Nobel, mas, ao menos, não há nenhuma cartilha de boas maneiras que os premiados devam seguir.
Johannes Stark usou o dinheiro do Nobel para comprar uma cervejaria e não quis saber mais de ciência (e, ainda por cima, aderiu ao nazismo). Dirac não o queria aceitar, para não se tornar uma figura pública (foi demovido por Bohr, melhor entendedor, que lhe disse que, ao negar o prêmio, atrairia muito mais atenção do que ao aceitá-lo; Sartre o recusou com este preciso objetivo, o que deve ter levado Heidegger a esboçar mais de um sorriso). Dirac aceitou-o, continuou recluso e profícuo. Nunca teria aceito o prêmio Templeton por uma questão de integridade: não era religioso.
Dyson também não era, mas se tornou. Paris vale bem uma missa, como se sabe. Temas como "Tecnologia e Justiça Social" são agora constantes em seus escritos. Este é o título de um dos capítulos do livro que estou resenhando. Nobre tema, por certo. No entanto, não me parece que tecnologia avançada seja condição necessária para justiça social. Que não é suficiente é bem conhecido. Em todo caso, também não parece haver nenhuma maldição inerente à tecnologia, que é a ciência domesticada. Contudo, numa sociedade detentora de uma alta tecnologia, a existência de desigualdades sociais se torna ainda mais pecaminosa.
Nem todos pensam como eu (felizmente!). Na introdução, Dyson se detém na figura de seu amado mestre, o grande matemático inglês Godfrey Hardy, para quem a matemática pura era "o único tipo de matemática digno de respeito", e cuja aversão às aplicações foi assim por ele enunciada: "Uma ciência é dita útil se seu desenvolvimento tende a acentuar as desigualdades existentes na distribuição de riqueza -ou se promove mais diretamente a destruição da vida humana".
Uma das missões deste livro seria a de mostrar a Hardy que seu discípulo, outrora matemático puro como ele e transformado em eminente matemático aplicado, tinha feito o bem. Há até um pequeno elenco dessas bondades.
Trata-se de um pequeno livro -o original inglês tem 124 páginas- dividido em três capítulos: "Revoluções Científicas", "Tecnologia e Justiça Social" e "A Estrada Principal".
Em "Revoluções Científicas", Dyson propõe que a tendência atual, inspirada em Kuhn, de centrar o processo no plano das idéias, seja uma simplificação excessiva. Contrapõe, como elemento que lhe parece ser o fundamental, a invenção de novos instrumentos. Propõe a leitura da obra do historiador Peter Galison, em particular de "Image and Logic - A Material Culture of Microphysics" (University of Chicago Press, 1997).
O principal exemplo que apresenta é o da invenção do magnetron, a peça central de um transmissor de microondas de alta potência, por John Randall, da Universidade de Birmingham, em 1939, como pesquisa de guerra tendo em vista um radar eficiente. O efeito desse instrumento nas medidas, revelando problemas novos (por exemplo, o "Lamb shift", um deslocamento de raias espectrais do átomo de hidrogênio que ninguém previra nem sabia explicar), levou, entre outras coisas, à construção de uma versão quântica praticável da eletrodinâmica e, por extensão, à construção da própria linguagem da microfísica de nossos dias.
Em épocas passadas, a descoberta dos instrumentos de navegação, a bússola, o astrolábio e o cronômetro, permitiram a navegação de longo curso e a eventual descoberta do Novo Mundo, cujas repercussões no plano das idéias não podem ser exageradas, como é claro para qualquer leitor de Montaigne.
Por outro lado, um instrumento pode levar a conclusões diferentes, em panoramas culturais diferentes. Um bom exemplo é a antena desenvolvida por Penzias e Wilson, que detectou, pela primeira vez, a radiação cosmológica de fundo. Um fato característico dessa radiação é que ela é isotrópica: aponta-se a antena (que lembra um funil) para qualquer direção, e ela detecta a mesma coisa. Como a experiência foi feita na Terra, a conclusão é que existe uma radiação que provém do espaço e que é isotrópica em relação à Terra.
Na época de Galileu essa experiência teria sido desastrosa: que argumento é melhor do que esse para provar que a Terra é o centro do Universo? Que ela ocupa uma posição tão privilegiada que a radiação primordial é isotrópica em relação a ela? Hoje em dia, com nossa visão copernicana, nosso raciocínio é quase o oposto: a radiação é isotrópica em relação à Terra. Ora, a Terra não ocupa nenhuma posição privilegiada; logo, essa radiação é isotrópica em relação a qualquer posição. Daí um teorema matemático dizer que a radiação é homogênea.
O último capítulo trata de um assunto caro a Dyson: viagens interplanetárias e sistemas de propulsão. O segundo trata principalmente de engenharia genética, com algumas considerações sobre a internet, e do uso dessas duas tecnologias na diminuição das desigualdades sociais. Estão, naturalmente, um pouco superados.
Isto posto, este livro, sem chegar às alturas de "Perturbando o Universo", possui a importância e a beleza costumeiras nos livros de Dyson. E uma esplêndida bibliografia, que estende enormemente a utilidade do texto.
A tradução é de boa qualidade, com alguns pequenos senões: por exemplo, "practical joke" é uma "brincadeira" e não uma "brincadeira prática"; "Head of experimental physics" não é "Cabeça da física experimental", mas "Chefe da física experimental". Detalhes.
Henrique Fleming é professor do Instituto de Física da USP.