

Historiador analisa relações entre Pio 12 e Hitler
O papa e o tirano
JOSÉ DE SOUZA MARTINS
Mais importante do que este importante livro sobre o papa Pio 12 é o justo mal-estar que ele provoca. Seu autor, o historiador católico inglês John Cornwell, é membro do Jesus College, em Cambridge. Já era conhecido por seu livro sobre a controvertida e inesperada morte de João Paulo 1º, cercada de boatos sobre um possível assassinato. Um jesuíta espanhol, que atua no processo da beatificação de Eugenio Pacelli, falou largamente à televisão contra o livro. O mesmo aconteceu com o "Osservatore Romano", que publicou extensa nota de condenação.
Esses pronunciamentos procuram desqualificar o livro e demonizar o autor e são feitos por aqueles mesmos que lhe abriram as portas dos arquivos do Vaticano. Essa é uma forma inquisitorial de contestar opiniões divergentes. Basicamente, as acusações se concentram em denunciar o curto tempo durante o qual Cornwell fez pesquisa nos referidos arquivos, o que, aliás, para um historiador capaz foi o suficiente para ali ler o essencial: o processo secreto de beatificação de Pio 12. Este parágrafo parece conter toda a problemática armadura do livro: "Eugenio Pacelli não era um monstro; seu caso é mais complexo, mais trágico que isso. O interesse de sua história depende da combinação fatal de altas aspirações espirituais em conflito com uma crescente ambição de poder e controle. O seu não é o retrato do mal, mas de um fatal desvio moral -uma separação de autoridade e de amor cristão. As consequências dessa ruptura foram cumplicidade com a tirania e, finalmente, com a violência." Cornwell processa o monarca em nome do Pastor.
O papa do papado
O título do livro e formulações como essa, além da apelativa fotografia da capa (feita antes da ascensão do Partido Nazista ao poder) parecem querer dar uma "cara" ao livro que, de fato, não corresponde ao seu conteúdo. A embalagem pretende convencer o leitor, antes da leitura do livro, de que Pacelli foi o papa de Hitler. Mas, de fato, o que o livro mostra é que Pacelli foi o papa do papado, um dos edificadores do poder papal, como seu pai também o fora, na elaboração do Código de Direito Canônico, de 1917.
Toda a documentação reunida por Cornwell, no final das contas, nos fala de um homem envolvido na construção do poder absoluto que ele, afinal, veio a personificar.
Cornwell aponta ações decisivas de Eugenio Pacelli, especialmente como núncio apostólico na Alemanha, onde ficou durante 12 longos anos, para uma composição com o nazismo que facilitasse e apressasse a aprovação de uma concordata com o Vaticano. Certamente, é muito problemático para a história da igreja que ele tenha concordado com a supressão voluntária do Partido Católico de Centro e o afastamento dos católicos da política enquanto católicos. O Partido Católico, que teria votado contra Hitler na eleição do chanceler do Reich, havia sido suprimido pouco antes, quando a eleição se deu.
Essa decisão política do Vaticano certamente facilitou e apressou a ascensão do nazismo. O que foi agravado pelo apoio de Pacelli, em troca da concordata, ao Ato de Aumento de Poderes, que deu poderes ditatoriais ao novo governante alemão. Além de germanófilo, era ele simpatizante do nazismo e um notório anticomunista, que esfriaria seu relacionamento com um colaborador muito próximo e muito amado quando descobriu nele inclinações socialistas, Giovanni Battista Montini, futuro papa Paulo 6º.
As várias referências a ações das igrejas locais, como na Iugoslávia, de um radicalismo direitista muito mais violento do que o próprio nazismo alemão, mostram como, nas igrejas envolvidas em conflitos religiosos com os praticantes de outras religiões, o ódio fascista levava facilmente a atrocidades tão ou mais graves do que aquelas que ganharam visibilidade ampla após o fim da guerra, independente das inclinações e decisões do papa. Ou casos como os dos sacerdotes católicos que acompanhavam as forças alemãs na ocupação da Rússia no intuito de converter os russos ao catolicismo e resgatá-los do materialismo ateu. Teria sido importante analisar mais detalhadamente a cultura religiosa de algumas igrejas nacionais e sua orientação violenta em relação a temas religiosos, raciais e políticos.
Boa parte da obra é dedicada à procura de evidências da omissão do já agora Pio 12 em relação ao extermínio de pessoas nos campos de concentração nazistas, em particular o de judeus. O autor consegue mostrar facilmente que o papa mais poderoso deste século sempre esteve aquém do que dele se esperava em seus pronunciamentos a respeito. Mas faltou mostrar de modo consistente em que medida as circunstâncias históricas viabilizavam essa intervenção do papa e quais as suas responsabilidades pessoais na óbvia omissão.
O cotidiano do papa
Esse homem determinado e autoritário revelou-se, na vida cotidiana, um homem frágil e titubeante, facilmente manipulável pelos oportunistas que o cercavam. Pacelli, núncio e sobretudo papa, foi, no cotidiano, vítima e joguete do pequeno grupo de cortesãos de que era dependente. Cornwell faz um uso contrapontístico dessas informações, não raro colhidas no seu mais importante documento, o processo secreto de beatificação de Pio 12.
É particularmente relevante o conjunto de referências sobre o crescente domínio que teve sobre ele uma freira alemã, a madre Pasqualina, muito jovem ainda enviada para trabalhar em sua residência em Munique, quando na nunciatura. Dotada de uma desmesurada vontade de poder, Pasqualina foi impondo sua autoridade sobre a casa e as demais pessoas que ali trabalhavam. Acabou instaurando o poder absoluto de sua vontade pessoal sobre todos, até mesmo sobre Pacelli, durante 40 anos, até a morte do papa. E quem disso fala é a própria irmã de Pacelli, Elisabetta.
Cornwell teve nas mãos materiais, depoimentos e documentos, importantes para mostrar a grande contradição na vida e nas ações de um homem chamado a dirigir a igreja num de seus momentos mais difíceis. E, ao mesmo tempo, tão vulnerável e frágil, tão dependente dos outros, na vida pessoal e cotidiana. Teria sido fundamental esmiuçar a dependência de Pacelli em relação ao Estado pontifício, enquanto exemplar e competente burocrata que, como se viu nos anos finais de sua vida, julgava-se investido do mandato divino de firmar o poder temporal e o poder espiritual do chefe da Igreja. Pouca importância parece ter na análise de Cornwell o poder pouco aparente da cúria romana nesse período. Como, também, é de lamentar que ele não tenha dado a dimensão apropriada ao tempo que explica a era de Pacelli.
Historicamente, o que Pacelli veio a personificar começa com Pio 9º e seu empenho em estabelecer o poder papal. Passa por Montini, dado como sucessor certo de Pio 12, de cuja obra fora colaborador ativo, que recusou a tríplice coroa: ainda não era o seu tempo. Abriu espaço para o papa de transição, o cardeal de Veneza, Giuseppe Roncalli, que comprou passagem de ida e volta de trem para eleger o sucessor de Pacelli: O "radicalismo" de João 23 serviria para corrigir o "radicalismo" oposto de Pio 12. Só depois Montini aceitaria ascender ao trono de Pedro, como consumador do ponto de equilíbrio a que a igreja tende sempre a retornar no seu estranho modo de "aggiornamento".
Apesar dos escamoteamentos editoriais, este é um livro indispensável para quem quiser conhecer a história contemporânea a partir dos horizontes, das limitações e vacilações da máquina de poder da pequena cidade-Estado que começa no fim de uma rua de Roma e cujo vestíbulo tem na colunata de Bernini a figuração das portas do Reino.
O Papa de Hitler - A História Secreta de Pio 12
John Cornwell Tradução: A. B. Pinheiro de Lemos Imago (Tel. 0/xx/21/502-9092) 472 págs., R$ 40,00.
José de Souza Martins é professor do departamento de sociologia da USP.