

O médico Drauzio Varella escreve crônicas sobre o mundo da prisão
O mundo pelo avesso
AMÉLIA COHN
Um mundo duro, cruel, com rígidas normas ditadas por outro código moral e ético, alheias às nossas, vigentes "deste lado de fora". É isso que Drauzio Varella nos traz com suas crônicas da "Estação Carandiru". Esse livro tem a virtude de apresentar ao público a realidade do mundo detrás das grades -na forma pela qual a sensibilidade de Varella a captou durante anos de prática médica voluntária, porém não assistencialista e muito menos caritativa-, tradicionalmente vedada aos comuns dos mortais, os "cidadãos honrados", assim classificados por estarem do lado de cá.
Médico cancerologista, Varella trabalhou no Carandiru como pesquisador, inicialmente desenvolvendo atividades de prevenção à Aids e, gradativamente, a assistência médica. A duras penas (não poucas vezes é ludibriado por desconhecer os códigos internos), conquista a confiança dos encarcerados e vai, ele próprio, sendo cativado por eles. Descortina então uma outra dimensão, a da amizade, do reconhecimento do outro, da reciprocidade; enfim, da confiança mútua. Tudo isso regido por um rigoroso código de conduta, instituído pelos presos independentemente das normas do sistema carcerário e de seus funcionários.
É a partir da convivência e do confronto entre essas duas ordens -uma instituída formalmente, segundo códigos elaborados aqui fora, outra instituída pelos códigos próprios dos "fora da lei", atualizados pela dinâmica das redes sociais estabelecidas cotidianamente intramuros- que se obtêm elementos para refletir sobre a Justiça. Fora e dentro dos muros, ela é tida como cega. Inconformado por ter sido condenado infundadamente a nove anos de cadeia, um presidiário assim se expressa: "Tanta maconha que eu vendi, assaltos, roubo de loja, venho preso justamente por um crime que não cometi". Ou então, ao comentar a violência brutal (na maioria das vezes não distinta daquela cometida pela polícia, como testemunham várias passagens do livro) a que foi submetido um estuprador, um outro encarcerado expressa claramente o código moral lá presente (também vigente no seio das melhores famílias do lado de cá): "Não pode deixar essa gente frequentar o ambiente, porque aqui nós recebemos nossas esposas, mães e irmãs. Quem cometeu uma pilantragem dessa, pode recair e faltar com o devido respeito. Eu sou contra a pena de morte no nosso país, mas sou a favor no caso de estupro". Também não estão ausentes percepções agudas por parte dos seus protagonistas: presidiários mais antigos perceberam que a introdução do crack no presídio subverteu a ordem interna e que as cadeias, como as pessoas, mudam com o tempo.
Os numerosos casos de violência, fugas e rebeliões nas cadeias e delegacias brasileiras (não nos esqueçamos do massacre do Carandiru, em 1992) comparecem ocasionalmente no noticiário da grande imprensa. Mas essa é a primeira vez que um livro sobre o tema atinge sucesso de público. Trata-se de um livro duro, bem realizado, embora um tanto repetitivo. Diriam alguns que as outras obras sobre o sistema penitenciário e carcerário brasileiro, com seus textos herméticos e pouco atraentes, bem merecem ficar confinadas ao âmbito de cientistas sociais e juristas. Nada mais falso. De imediato, além dos notáveis textos de Antonio Luiz Paixão e do trabalho pioneiro de José Ricardo Ramalho, lembro o livro primoroso de Vinicius Caldeira Brant, "O Trabalho Encarcerado", de 1994.
Estação Carandiru Drauzio Varella Cia. das Letras (Tel 0/xx/11/866-0801) 297 págs., R$ 26,00. |
O autor, sociólogo de primeira linha, recentemente desaparecido, também mergulha nesse universo. No seu caso, busca compreender o Carandiru enquanto espaço de trabalho dos presidiários. Sua redação é perfeita e elegante, não prejudicada pela presença dos números e das tabelas que testemunham a sua origem em rigorosa pesquisa empírica por ele coordenada no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), quando Franco Montoro exercia o governo do Estado e José Carlos Dias era secretário da Justiça.
O que explica sua baixa penetração no público científico e sua ausência total no público em geral? O fato de não ser novela, de ser aborrecido? Não apequenemos o público nem o autor. Tal como Varella, Vinicius demonstra sensibilidade ao analisar os dados coletados, também revelando o avesso daquele mundo. Varella, por exemplo, refere-se a funcionários como "categoria", e a presidiários como "corporação", sem desdobrar as implicações sociais e éticas aí presentes. Já Vinicius constata que os cientistas sociais estão mais preocupados em analisar a norma do que os fatos, advertindo no entanto que "o pesquisador que se aventure a visitar o cárcere deverá levar na bagagem certa dose de malícia", posto que aqui como lá as hierarquias obedecem a regras específicas, fundadas no poder de coerção. Nesse caso, porém, há uma inversão de condutas e valores: "O que se considera "cidadão honrado" do lado de fora é "otário" do lado de dentro. O que se considera "bandido" ou "malandro" aqui é altamente valorizado lá".
Para Vinícius, trata-se de "ir além do efêmero em busca do permanente", perspectiva que permite aprofundar uma contribuição tão interessante como a de Varella, ultrapassando a vivência direta, por fascinante que seja, em busca da compreensão daquilo que dá conta da persistência desse mundo dividido. Afinal, como lembra Vinicius, "a alternativa entre vida produtiva e vida de crimes não é tão simples como se costuma supor".
Amélia Cohn, socióloga, é professora de medicina preventiva da Faculdade de Medicina da USP.