


É raro um livro com ensaios sobre a economia e a política do mundo contemporâneo tão original e instigante como este. José Luís Fiori escreve sobre o sistema interestatal ou internacional no início do século 21; Franklin Serrano, sobre a força da economia americana e do “dólar flexível”, e Carlos Medeiros compara o crescimento da China e a retomada do crescimento russo. O elo entre os ensaios justifica o título do livro: a rejeição da tese de que o poder americano estaria em colapso. Cada ensaio tem vida própria e mereceria uma resenha especial.
O trabalho de Franklin Serrano é uma tentativa de demonstrar que os déficits em conta corrente nos EUA não estão enfraquecendo o dólar e que a causa da crise financeira atual não está na incapacidade da economia americana de atender à demanda interna que esses déficits revelariam, mas na sua desregulamentação excessiva. Já o trabalho de Carlos Medeiros salienta a diferença entre a transição russa e a chinesa para o capitalismo, a primeira começando pela abertura política (e a subordinação internacional) que resultará em profunda depressão econômica, e a segunda, pela abertura econômica decidida com autonomia, que se transformará em espetacular êxito.
Nesta resenha, entretanto, vou me concentrar no ensaio de Fiori porque é o que está mais diretamente relacionado com o título do livro – e também porque trata de um tema mais abrangente, a política e a economia das relações internacionais entre os grandes países.
Hegemonia americana
A tentação do leitor do ensaio de Fiori é discutir a tese do “colapso do poder americano” – tese que dá título ao livro –, aceitando, assim, que seu objetivo seja realmente criticar esse mito. Não dedicarei tempo a esse problema porque está claro que Fiori criou um espantalho para depois arrasá-lo. Não conheço nenhum analista sério que defenda a tese de que o poder americano entrou em colapso, nem mesmo depois que a atual crise financeira global se desencadeou nos EUA. Muitos vêm afirmando já há algum tempo que a hegemonia americana, que nos anos 1990 havia chegado ao auge, entrou em declínio nos anos 2000. E há um razoável consenso sobre suas causas: o fracasso no Iraque e no Afeganistão, o malogro do consenso de Washington em promover o desenvolvimento, o fiasco das teses neoliberais de que os mercados são auto-regulados e que o Estado deve ser mínimo, e o êxito no plano econômico dos demais países concorrentes, principalmente da China, da Índia, e, mais recentemente, da Rússia.
A hegemonia total dos EUA foi breve – em parte porque seu governo foi incompetente, em parte porque já não há mais espaço para imperialismo explícito no capitalismo global. Mas isso não significa que o poder americano tenha entrado em colapso. Os EUA continuam a ser, de longe, o maior poder militar e ideológico que existe no mundo. Sua participação no PIB mundial baixou, mas isto era inevitável. Na medida em que os países menos desenvolvidos conservassem ou alcançassem autonomia nacional, a teoria econômica previa que os países atrasados deveriam realizar o catching up e gradualmente convergir para seu nível de renda. Foi o que ocorreu, em um primeiro momento, após a Segunda Guerra, com os países europeus e o Japão, e, um pouco mais tarde, com diversos países asiáticos. Não obstante, a economia americana continua a representar quase 25% da produção mundial.
O ensaio de Fiori, no entanto, traz muito mais do que a simples crítica de um mito discutível. Apresenta uma sombria visão do mundo em que vivemos – caracterizada pela competição e guerra entre as grandes potências. Rejeita qualquer idéia de progresso – a tese de um gradual e acidentado avanço das nações em direção a um maior bem estar econômico, a uma menor desigualdade de renda e de direitos, a uma crescente liberdade e a uma ampliação da consciência dos riscos ambientais. Recusa a possibilidade de que a guerra entre grandes países deixe de fazer sentido econômico e político.
Fiori afirma que só é possível falar de grandes crises, ciclos e tendências mundiais a partir de uma teoria que relacione e hierarquize os fatos. Repele as teorias existentes, principalmente a “teoria dos ciclos hegemônicos” e propõe uma teoria segundo a qual o mundo, desde o século 13, é um “universo em expansão”, sendo que nesse processo é possível distinguir quatro “momentos” nos quais ocorre uma “pressão competitiva”, que, mais adiante, resulta em uma “expansão explosiva”.
Ainda que o autor fale de universo, os três primeiros momentos ocorrem na Europa. O primeiro (1150-1330) foi provocado pelas invasões mongóis, as Cruzadas e a intensificação das guerras, e resulta no surgimento dos Estados nacionais na Europa. O segundo ocorre entre 1450 e 1650, a partir da pressão causada pela expansão do Império Otomano e do Império Habsburgo, e pelas guerras da Espanha com a França, os Países Baixos e a Inglaterra, e dá origem à “explosão” representada pela formação de um sistema mundial de Estados.
O terceiro momento ocorre entre 1719 e 1914; é causado pela expansão competitiva da Inglaterra e da França, pelo nascimento dos Estados americanos, e pelo surgimento de três novas potências (EUA, Alemanha e Japão); e resulta na expansão explosiva representada pela “corrida imperialista”. Finalmente, no quarto momento, em curso a partir de 1970, a pressão competitiva é causada pela “estratégia expansionista e imperialista dos EUA”, pela multiplicação dos estados soberanos, e pelo crescimento vertiginoso dos países asiáticos, principalmente a China.
Que previsão se pode fazer em relação a esse último momento? Fiori responde: “É possível prever uma nova ‘corrida imperialista’ entre as grandes potências, e uma gigantesca expansão desse ‘universo mundial’”. Em outras palavras, e deixando mais clara a probabilidade de novas guerras, hoje: “o sistema mundial é um ‘universo em expansão’ contínua, onde todos os estados que lutam pelo ‘poder global’ – em particular a potência líder ou hegemônica – estão sempre criando, ao mesmo tempo, ordem e desordem, expansão e crise, paz e guerra”. Qual poderá ser a abrangência das guerras previstas? Poderemos ter uma nova guerra mundial ou mais de uma guerra entre grandes potências? O autor não se arrisca em previsões, mas a lógica de sua exposição indica que essas hipóteses são possíveis senão prováveis.
É discutível que esse esquema seja realmente uma teoria, pois lhe falta o fator endógeno capaz de explicar o processo histórico. A não ser que se considere a competição entre os países como esse fator. De fato, essa competição – que é um elemento econômico e político fundamental das sociedades capitalistas – expressou-se em guerras desde o século 13 até a primeira metade do século 20. Se for isso, porém, confunde-se o que explica com o que se quer explicar, explicando com guerras e pressão competitiva as guerras e a pressão competitiva. Uma alternativa seria entender que o que se quer explicar é o surgimento de novo hegemon, mas nesse caso voltamos à teoria dos ciclos hegemônicos que Fiori rejeita.
Deixemos, porém, de lado a discussão se a “teoria do universo em expansão e da expansão explosiva” é ou não uma teoria. O fato é que sua análise tem por trás um pressuposto teórico – a teoria “geopolítica do século 19” -, segundo a qual a história humana é a história de Estados-nação que fazem continuamente alianças e guerras com seus vizinhos, tendo em vista aumentar suas fronteiras ou garantir seu acesso exclusivo a recursos naturais. Trata-se de uma teoria associada à “teoria realista” da diplomacia do equilíbrio de poderes, que explica o “imperialismo industrial” que caracterizou a ação da Inglaterra e da França no século 19, mas que não tem qualquer explicação para o fato de que desde a experiência desastrosa da Segunda Guerra Mundial as grandes potências não travaram mais guerras. Durante a Guerra Fria ainda se ameaçaram, mas desde seu fim cessaram as ameaças.
Fiori não compreendeu que a geopolítica do equilíbrio de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos. E não é surpreendente que não tenha compreendido, posto que a própria potência hegemônica do nosso tempo – os EUA – não entendeu que essa perspectiva está ultrapassada. Fiori não se dá conta que essa abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global e da democracia em que vivemos hoje. Não percebe que a perda rápida da condição de hegemon total por parte dos EUA não decorreu apenas do fortalecimento de outras grandes e médias potências, mas também do fato de que as elites dos EUA não se deram conta de que novos fatos históricos impõem uma nova lógica para as relações internacionais.
Revolução capitalista
Para compreendermos o que está acontecendo no mundo devemos, primeiro, ter claro que a “grande expansão” que Fiori identifica na Europa a partir do século 13, é, na verdade, a revolução capitalista – a transformação tectônica que deu um impulso e um sentido completamente novo à história humana. Esta revolução, na sua forma inicial mercantil, começa nas cidades-estados italianas, sendo depois liderada pelo primeiro Estado-nação a se constituir como tal, a Inglaterra, o primeiro país a completá-la ao promover a revolução industrial.
Depois disso, o nível de atraso econômico será medido pelo tempo que cada país demorará para concluir sua própria revolução capitalista e industrial. A Espanha, por exemplo, que constitui no século 16 um “império mercantil”, atrasa-se na sua revolução industrial que só será realizada no século 20. A China, por sua vez, que era o grande “império clássico” existente antes da revolução capitalista, ficou para trás no século 18 e, no século 19, foi submetida ao imperialismo industrial, de forma que só a partir de 1945, quando inicia sua revolução nacional e industrial, é que começa a recuperar o atraso e desponta como potência mundial.
Os novos fatos históricos que, durante o século 20, tornaram ultrapassada a geopolítica oitocentista, são pelo menos quatro: (a) a transição, nos países mais desenvolvidos no final do século 19, do Estado liberal para o democrático e a gradual legitimidade exclusiva da democracia como regime político; (b) a partir da Segunda Guerra Mundial, a inviabilização econômica do imperialismo industrial causada pelo aumento da repulsa dos povos colonizados à condição de colônia; (c) começando na mesma época, a formação de um “sistema político mundial” encabeçado pelas Nações Unidas e (d) a globalização – ou seja, o estágio do capitalismo em que todos os mercados são abertos e a lógica capitalista da mercadoria com valor de troca se impõe universalmente.
As conseqüências desses fatos são, em primeiro lugar, que não existe mais espaço para o imperialismo e para a geopolítica baseados na violência que vimos recentemente no Iraque ou na Somália. A exploração econômica dos países da periferia por meio da associação com as elites locais permanece, naturalmente, viável ou lucrativa, na medida em que é legitimada pelo soft power ou dominação ideológica. A estratégia clássica da geopolítica de garantir acesso exclusivo a recursos naturais na periferia do capitalismo, entretanto, já não faz sentido não só por seus custos, mas também porque, com a globalização, todos os mercados estão abertos, e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado.
Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países não faz mais sentido. Sei que a esperança em um mundo sem grandes guerras já decepcionou muitos analistas ingênuos, mas é preciso considerar a nova situação. A guerra fazia todo sentido no pré-capitalismo, quando a apropriação do excedente econômico dependia do conflito com os povos vizinhos. No longo período de formação dos Estados nacionais ou da diplomacia do equilíbrio de poderes, entre os séculos16 e 20, a guerra entre grandes países continuou a fazer sentido. Nesses quatrocentos anos já era possível às elites se apropriarem do excedente econômico no mercado, mas era preciso, antes, assegurar a existência de um mercado amplo e seguro onde realizar esse lucro – e isto só foi possível por meio de guerras que definiram as fronteiras dos Estados nacionais. No século 20, as guerras entre as grandes potências já não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas. Daí a profunda irracionalidade da guerra em duas etapas, 1914-45. Daí a criação das Nações Unidas, a formação da União Européia.
Hoje, podemos prever guerras localizadas entre pequenos países pobres, especialmente na África. E, apesar do desastre iraquiano, as grandes potências poderão, embora com um custo cada vez maior, fazer guerras imperiais localizadas. Independentemente do argumento da dissuasão nuclear, não é razoável prever novas guerras mundiais. Nem o imperialismo militar que submete formalmente um país à condição de colônia nem as guerras entre grandes potências deverão ocorrer. O imperialismo econômico continuará forte – ainda que com retornos decrescentes, na medida em que os países em desenvolvimento superem sua própria dependência.
A grande competição entre os Estados nacionais já não é militar, mas sobretudo econômica. A tentativa de resolvê-la no plano militar é incompatível com a lógica não só do capitalismo global, mas principalmente da democracia e do sistema político global que as nações democráticas construíram no século 20.
Prever, por exemplo, que a Rússia volte a fazer guerras para recuperar seu império, como sugere Fiori, é irrealista. A Rússia fez uma intervenção militar na Geórgia, na região da Ossétia onde há uma maioria étnica russa ou ossetiana, mas não irá além de intervenções limitadas desse tipo, assim como os EUA não intervirão militarmente na América do Sul, embora continuem a intervir de outras maneiras. O mundo está longe de ser róseo; a violência está em toda parte; muitos povos pobres ainda precisam fazer suas verdadeiras revoluções nacionais, mas o mundo sombrio apresentado por Fiori é algo antes do passado que do presente.