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Eliane Robert de Moraes - 82 - Fevereiro de 2002
O gozo do ateu
Foto do(a) autor(a) Eliane Robert de Moraes

O gozo do ateu

A atualidade do marquês de Sade

Diálogo entre um Padre e um Moribundo e Outras Diatribes e Blasfêmias
Marquês de Sade
Tradução: Alain François
e Contador Borges
Iluminuras
(Tel. 0/xx/11/3068-9433)
27 págs., R$ 20,00

Sade contra o Ser Supremo
Philippe Sollers
Tradução: Luciana
Vieira Machado
Estação Liberdade
(Tel. 0/xx/11/ 3661-2881)
103 págs., R$ 16,00

ELIANE ROBERT MORAES

Texto inaugural da obra de Sade, o "Diálogo entre um Padre e um Moribundo" nada tem do acanhamento que por vezes marca os primeiros escritos de um autor. O que ele revela, sob a estrutura clássica de um diálogo platônico, é a audácia de um escritor que, em pleno século 18, transtorna a paisagem sensível da época com ousadia sem precedentes: desafiando a gravidade dos rituais fúnebres, ele concebe uma alcova lúbrica bem no centro de uma câmara mortuária.
Chamado para confessar um moribundo, um padre vê-se diante de um libertino. A cada investida sua, no sentido de afirmar a mediação do santíssimo sacramento como garantia da vida eterna, o agonizante reage com ironia, criticando o ritual da extrema-unção e as demais "quimeras" da religião. Aos ensinamentos da fé cristã, o devasso não cessa de opor a razão, justificando seu ponto de vista com uma densa argumentação filosófica fundada nas teses materialistas que refutam a existência de Deus. "Só me rendo à evidência que recebo dos sentidos; onde eles cessam, minha fé desfalece", diz o libertino, ostentando seu ateísmo.
Colocado diante da prova definitiva -a morte-, o ateu não hesita: morre como viveu. Suas últimas palavras, provocando o padre, só fazem confirmá-lo: "Meu fim se aproxima. Seis mulheres mais belas que a luz encontram-se no gabinete vizinho; reservei-as para este momento. Pega a tua parte e, a meu exemplo, procura esquecer em seus seios os sofismas inúteis da superstição e os erros imbecis da hipocrisia". Numa notável inversão da apologética cristã, assentada nos "santos terrores da morte", a agonia do pecador é substituída pelo derradeiro gozo do ateu: o libertino morre feliz.

Sade e Diderot
O "Diálogo" de Sade, escrito em 1782, na prisão de Vincennes, inscreve-se numa linhagem de textos filosóficos que, ao criticar a exploração do medo no momento da morte, opera uma mudança significativa nas representações fúnebres. Tal concepção aparece, por exemplo, na célebre "Carta sobre os Cegos", de Diderot (1749), quando o matemático inglês Saunderson, prestes a morrer, opõe ao representante do cristianismo sua visão materialista do universo. A exemplo do devasso sadiano, o personagem se mantém fiel às suas convicções até no leito de morte, passando os últimos instantes a argumentar com lucidez e calma, sem se render aos medos arcaicos.
Por certo, essa mudança de atitude é consequência do espírito anti-religioso que se vinha formando desde o século 17 em vários pontos da Europa, ameaçando a ortodoxia barroca. Ainda que a rebeldia dos primeiros descrentes fosse um tanto tímida se comparada à audácia do personagem de Sade, ela é o ponto de partida de uma tradição que, desde seus primórdios, praticava a arte do diálogo filosófico para afrontar os dogmas da religião. Nesse sentido, o "Diálogo" do marquês -no qual abundam citações do mais ateu dos filósofos setecentistas, o barão d'Holbach- resume a história dos movimentos de resistência que se consolidam com os livres-pensadores seiscentistas até culminar no ateísmo dos iluministas.
Mas Sade faz mais que simplesmente prolongar a insubmissão da libertinagem erudita do século 17 e a apologia da morte serena dos "philosophes" ateus. Em vez de manter-se no plano discursivo, como faziam seus antecessores, o autor de "Justine" dá uma reviravolta e termina seu texto com uma demonstração prática. À última fala do devasso, segue-se uma nota que subverte a forma tradicional do diálogo filosófico, na qual a ação toma o lugar do discurso: "O moribundo soa, as mulheres entram, e o padre torna-se em seus braços um homem corrompido por natureza, por não ter sabido explicar o que é natureza corrompida".
Trata-se, portanto, não só da morte de um ateu consequente, mas também do nascimento de um novo libertino, já que o padre termina rendendo-se à tese do moribundo, o que lhe obriga a passar do conceito à experiência. É sob o signo dessa demonstração que a obra do marquês se inicia, já anunciando aquela alternância entre discurso e ação que os livros posteriores não cessarão de explorar. Característica da literatura de Sade, essa alternância supõe tanto a corrupção do corpo por meio das idéias quanto a corrupção das idéias por meio do corpo. Daí a importância da nota final do "Diálogo" que, ao realizar a passagem da teoria à prática, antecipa a novidade que a obra sadiana encerra.
Com a morte feliz do moribundo ateu, acrescida da conversão do padre à libertinagem, Sade inaugura uma nova concepção de ateísmo, fundada na "identidade entre corpo e alma". Partindo da premissa de que não existe vida espiritual independente da matéria, o libertino recusa a concepção de que "a alma é substância diferente do corpo", sustentando que toda idéia tem invariavelmente uma base física. Posto isso, já não lhe basta compartilhar a disposição de espírito do ateu: é preciso também afirmar o ateísmo como experiência do corpo.
Essa constatação física é, sem dúvida, a principal característica do sistema sadiano, dando a dimensão de uma crítica que nunca admite idéia sem objeto, nem tampouco representação sem presença. Entende-se por que Phillipe Sollers afirma, com razão, que "Sade mostra pelo menos isto: que o mundo da representação é um bloqueio puritano que ritualiza algo não dito; que a omissão é seu pecado original e contínuo, a que se contrapõe, de forma direta, a escandalosa intromissão sadiana".

Deus e o Ser Supremo
Com efeito, é nesse escândalo que Sollers aposta ao atribuir ao marquês uma carta intitulada "Sade contra o Ser Supremo", que teria sido redigida em 1793. O texto, na verdade escrito pelo próprio Sollers, tenta dar continuidade às idéias do "Diálogo", mas substituindo a refutação de Deus pela recusa do culto ao Ser Supremo, tão caro aos revolucionários. Mais do que atualizar a crítica de Sade nos termos da Revolução Francesa, a carta pretende colocar o sistema sadiano em oposição aos grandes pensamentos dos séculos 19 e 20 -como os de Marx, Freud e Sartre que, segundo o autor, ainda seriam tributários da "religião" laicizada e estatal instaurada depois de 1789.
"Foram necessários 12 ou 13 séculos para consertar os estragos do cristianismo; quantos não serão necessários para nos recuperar dos danos da nova religião?" -pergunta o personagem da carta imaginária. Lançando mão de um recurso anacrônico, Sollers propõe como desdobramentos lógicos da idéia de Ser Supremo os conceitos de "Espírito", "Sujeito Transcendental", "Coisa em Si" ou "Inconsciente", que, fundados numa pretensa universalidade abstrata, negariam a singularidade de cada corpo concreto. Nada mais distante do marquês, afirma o autor no ensaio "Sade no Tempo", concluindo: "Só o singular é verdadeiro".
Publicado em 1989, por ocasião do bicentenário da revolução, o livro do fundador da revista "Tel Quel" não traz nenhuma novidade para quem conhece a fortuna crítica da obra sadiana. Mais ainda: escrito em tom de manifesto, ele peca pela superficialidade com que aborda as diferenças entre as idéias do marquês e outros pensamentos, o que por certo exigiria um rigor do qual o autor julga poder prescindir. Nesse sentido, entre o texto de Sollers e a competente tradução do "Diálogo", não há dúvida de que é o segundo volume que promete uma leitura mais instigante.
A novidade continua sendo a própria obra do marquês, cujo ateísmo radical propõe questões ainda pertinentes para a atualidade. Isso porque o ateu filósofo de Sade nada tem em comum com a disposição leviana, inconsequente e irrefletida -sobretudo diante da morte- que caracteriza um grande contingente de ateus do mundo contemporâneo: ao pragmatismo inconsciente destes, os libertinos opõem uma consciência aguda que interroga a morte de Deus até as últimas consequências. E, se dessa interrogação eles concluem pela afirmação do corpo, tal conclusão não se faz sem um exame exaustivo do sofrimento do "infeliz indivíduo denominado homem e jogado a contragosto neste triste Universo".
Sade admite o desamparo humano sem escapatórias, fazendo dele a base de seu ateísmo. Contudo, como se antecipasse a célebre fórmula gramsciana -"pessimismo da razão, otimismo da ação"-, o libertino procura superar essa dor primordial explorando os prazeres do corpo até suas derradeiras possibilidades. A volúpia, ensina o devasso ao padre, é "o único modo que a natureza oferece para dobrar ou prolongar tua existência". Apenas ela pode substituir a consolação que a promessa de vida eterna encerra para atenuar o sofrimento humano, assegurando ao ateu uma outra forma de permanência no mundo. "Tens a loucura da imortalidade?" -pergunta Madame Saint-Ange em "A Filosofia na Alcova", lembrando que só o desregramento dos sentidos pode perpetuar o homem no Universo.
Sem a ilusão de encontrar outro mundo depois de morto, o moribundo transforma seu leito de morte em palco do prazer, onde a sensação de imortalidade deixa de ser uma quimera para alcançar o status de experiência. Fantasia derradeira que se produz no corpo do devasso, essa experiência cumpre a "loucura" que a religião mantém apenas como promessa. Ao padre, uma vez convertido à libertinagem, resta a tarefa de continuar -de corpo e alma- a subversão das leis humanas e divinas. Eis o que Sade chamará mais tarde, ao escrever "Justine", de "o triunfo da filosofia".


Eliane Robert Moraes é professora de estética e literatura na Pontifícia Universidade Católica (SP) e autora, dentre outros, de "Sade -A Felicidade Libertina" (Imago).

Eliane Robert de Moraes é professora de estética e literatura da PUC-SP.
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