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Laura de Mello e Souza - 109 - Junho de 2016
O filósofo, a opinião, o soberano
Historiadora faz esforço de compreensão das Luzes fraqncesas
Foto do(a) autor(a) Laura de Mello e Souza

O filósofo, a opinião, o soberano

LAURA DE MELLO E SOUZA

Historiadora faz esforço de compreensão das Luzes francesas

 

ELISABETH BADINTER

As paixões intelectuais

Vol. 3 – Vontade de poder – 1762–1778

Civilização Brasileira

389 p., R$..

 

 

O estudo da Ilustração nunca mais foi o mesmo, todos sabem, após o Holocausto e a investida crítica dos filósofos alemães da escola de Frankfurt. A crença ingênua no poder regenerador da razão inviabilizou-se, e nas últimas décadas do século XX o pós-modernismo se empenhou em varrer os resquícios que dela poderiam ter sobrado: as idéias não seriam claras e distintas – não podendo inclusive se articular em explicações gerais –, a História não está fadada a promover o progresso e a felicidade dos homens. 

Entre os historiadores, estilhaçou-se a cômoda certeza de que as Luzes foram a filosofia da burguesia triunfante, e dos quatro pontos da Europa surgiram evidências acerca da amplitude e variação do fenômeno, que não caberia mais considerar nem apenas burguês, nem eminentemente francês, nem restrito ao século XVIII. Talvez o expoente máximo dessa renovação tenha sido o monumental – em todos os sentidos – Settecento Riformatore , de Franco Venturi, um dos maiores historiadores europeus do século XX.

Não há, contudo, como deixar de lembrar de um clássico dos anos 30 do século passado, A crise da consciência européia , de Paul Hazard, para quem não era possível entender a Ilustração sem olhar para trás, para a segunda metade do século XVII, quando praticamente todas as questões do pensamento setecentista já se encontravam alinhavadas. Nos últimos anos, Jonathan Israel foi fundo nessa vertente, desenterrando o Iluminismo Radical de filósofos holandeses, ingleses e alemães e destacando que a virada ocorreu com o espinosismo. Um pouco antes dele, Roy Porter havia se empenhado em mostrar a raiz inglesa das Luzes, mesmo que “o pequeno rebanho de filósofos”, à la Voltaire, só tivesse existido na França do século XVIII.

 

Luzes francesas

Elisabeth Badinter vem trazendo contribuições importantes ao estudo do assunto, seja pela vertente da história de gênero – como em Emilie, Emilie (Discurso Editorial), que trata sobretudo da ambição feminina ilustrada -  seja pela da biografia – com Robert Badinter, é autora da de Condorcet. O livro As paixões intelectuais, trilogia que começou a publicar em 1999 e terminou em 2007, conta sem dúvida entre os mais significativos esforços de compreensão das Luzes francesas empreendidos nos últimos tempos.

A perspectiva é bem “nacional”, lembrando a de dezenas de estudiosos que se debruçaram justamente sobre o “pequeno rebanho” setecentista e só se preocuparam – na tradição de Louis Réau e, mais recentemente, de Marc Fumaroli – com “a Europa que falava francês”. A investigação é impressionante, varrendo, fora da França, arquivos italianos, suíços, poloneses, russos, alemães, dinamarqueses. Apesar de omitir, na bibliografia, títulos que revelem a ossatura teórica do trabalho, parece certo que, se não o fizesse, ali estariam os pensadores da esfera pública – como Habermas – e o expoente dos estudos sociológicos sobre o campo simbólico na França, Pierre Bourdieu.

As paixões intelectuais se preocupa, sobretudo, com as estratégias urdidas, ao longo da fase heróica das Luzes francesas, para ganhar a opinião pública e o poder político. Badinter não se prende à natureza do pensamento dos philosophes e, neste sentido, foge à história das idéias mais convencional: o interesse gira em torno da constituição dos grupos, suas ações conjuntas e suas rivalidades, os sucessos momentâneos e a decepção, mais funda e permanente. Retoma o tema das relações entre intelectuais, prestígio – glória, naquele tempo –, dignidade e poder. Contribui, em última instância, para a reflexão sobre a política e a moral, e por isso é também um pouco estranha a ausência de Crítica e Crise, obra-prima de Reinhart Koselleck.

Logo no início de Vontade de Poder, o terceiro e último volume da trilogia e agora traduzido – sofrível e descuidadamente – entre nós, delineia-se o objeto em estudo: um jogo entre três atores, o filósofo, a opinião pública e o soberano. “É a opinião que governa o mundo, e cabe a vós governar a opinião”, escreveu Voltaire a d’Alembert em dezembro de 1767. D’Alembert, talvez a grande personagem deste volume e central também nos dois anteriores, espécie de paradigma do homem de letras setecentista  – solteiro, adoentado, frugal, infeliz nos amores, obsessivo no trabalho, sempre às voltas com a independência do espírito e a dignidade moral - se empenhou em fazer triunfar a sua, e a de seu grupo. Ao longo dos anos, conseguiu estabelecer um controle eficiente sobre as duas Academias que dominavam a vida intelectual do país, a Francesa e a de Ciências. Foi um dos últimos membros da República das Letras que sintetizou as duas personas que, daí em diante, se separariam: a do cientista – matemáticos como ele, químicos como Lavoisier, botânicos como Buffon - e a do letrado propriamente dito, afeito ao que hoje se designa por ciências do

homem.

 

Déspota preferido

O período compreendido pelo volume corresponde ao momento final da Ilustração heróica, no qual Voltaire, d’Alembert e Condorcet correspondem a três gerações de philosophes, obcecados com a difusão de suas idéias, espécie de núcleo duro, refratário aos radicalismos de homens como Holbach e seu Sistema da Natureza, bem como aos conservadorismos que ainda dominavam nas Academias. Corresponde, também, ao tempo em que os filósofos acreditavam ser capazes de influenciar os governantes europeus e levá-los a aplicar, em seus reinos, as reformas defendidas pela filosofia.

Cada um tinha seu “déspota” preferido, e cada déspota, em contrapartida, o seu filósofo de plantão. Diderot fechava os olhos ante os desmandos de Catarina II da Rússia, d’Alembert via em Frederico II da Prússia um interlocutor a sua altura e um amigo incondicional, Kéralio e Condillac se esforçavam em educar o jovem Fernando de Parma, que acreditaram personificar o modelo do despotismo ilustrado com que a República das Letras sonhara.

Nada correu conforme o esperado, porque nada era o que parecia ser. Dois enciclopedistas de peso – Malesherbes e Turgot – chegaram ao centro do governo quando o detestado Luís XV morreu, em 1774: o primeiro não fez quase nada, o segundo foi demitido justamente porque queria fazer muito, acreditando que as Luzes iriam afinal reformar o absolutismo e promover o esclarecimento. “O sr. Turgot quer ser eu, e eu não quero que ele seja eu”, explicou com simplicidade o jovem Luís XVI, optando pelos ministros conservadores e pela rotina, a França perdendo a última chance de abrir mão dos anéis para salvar os dedos.

A defesa aberta da igualdade entre os homens – bandeira, entre outros, de Diderot e de Rousseau - obrigou os reis a colocarem um limite definitivo na vontade de poder dos filósofos. Catarina II confessava o prazer sentido ante o brilho de Diderot – que a visitou na Rússia –, mas alertava que, “com todos os seus grandes princípios, que compreendo muito bem, faríamos belos livros e um mau trabalho”. O filósofo, continuava a czarina, trabalhava “apenas no papel, que tudo suporta”, liso, flexível, compassivo, permeável à imaginação; “ao passo que eu, pobre imperatriz, trabalho na pele humana, que é bem mais irritável e sensível”. Mulher de incrível talento retórico, já que todos sabem o valor que ela dava à pele humana dos súditos sob seu domínio...

O livro termina invocando a entrada triunfal de Voltaire em Paris, poucos meses antes de morrer: a república das letras ganhara a opinião pública, mas, no espaço de seis anos – entre 1778 e 1784 – seria desfalcada tanto desse seu expoente máximo quanto de suas estrelas mais brilhantes: Rousseau, d’Alembert, Diderot. Esgotara-se o tempo da crítica, começava o da crise, que viria irrefreável e avassaladora.

Finda a leitura, resta a sensação desconfortável da morte na praia. Porque não há dúvida possível: a relação exemplificada por esse jogo a três continua a pautar o comportamento dos intelectuais de hoje. Permanecem os anseios, as perplexidades, as decepções, a indagação sobre o sentido da crítica e o da ação, o da moral e o da política, agora num mundo bem mais desencantado que o do século XVIII, quando surgiram várias das utopias esboroadas ao longo das últimas décadas.

 

 

 

Laura de Mello e Souza é professora do departamento de história da USP.
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