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Leopoldo Waizbort - 83 - Março de 2002
O enigma de Machado
Foto do(a) autor(a) Leopoldo Waizbort

O enigma de Machado

Reedição de um clássico sobre o autor de "Dom Casmurro"

Machado de Assis - A Pirâmide e o Trapézio
Raymundo Faoro
Editora Globo
(Tel. 0/xx/11/3767-7889)
557 Págs., R$ 45,00

LEOPOLDO WAIZBORT 

Por alguma razão que valeria a pena especular, a década de 1970 produziu uma série notável de estudos sobre Machado de Assis; "Machado de Assis - A Pirâmide e o Trapézio", publicado originalmente em 1974, surge agora em nova edição. O livro está visceralmente ligado ao estudo sobre a formação do patronato político brasileiro, que Faoro publicou em 1958, intitulado "Os Donos do Poder". Na verdade, o texto de 1958 foi completamente reescrito para a sua segunda edição, de 1973, de sorte que os dois livros foram compostos mais ou menos simultaneamente e de certo modo completando-se.
Embora Faoro afirme, sob os auspícios de Montaigne, que a idéia do livro de 1958 não se altera na sua reedição, a leitura das duas versões não deixa muitas dúvidas sobre a extensão das modificações. "Os Donos do Poder", em suas duas variantes, termina com uma imagem machadiana, e estava aí indicado o próximo passo: "A Pirâmide e o Trapézio" desdobra esse Machado que ficara apenas latente, entrevisto.
O núcleo que une os dois livros é a compreensão da dimensão estamental da sociedade brasileira, no caso de Machado rumo à sociedade de classes. Essa a tese central de "A Pirâmide e o Trapézio", "a mudança de uma estrutura": "A velha sociedade de estamentos cede lugar, dia a dia, à sociedade de classes"; entretanto "a classe em ascensão coexiste com o estamento; muitas vezes, a classe perde sua autonomia e desvia-se de seu destino para mergulhar no estamento político, que orienta e comanda o Segundo Reinado". A obra de Machado está inscrita nessa época de complexa transição, com ela se embatendo.
Nisso, Machado ressurge na antiga fórmula de Astrojildo Pereira (1939), "romancista do Segundo Reinado". Na interpretação de Astrojildo, Machado estava em meio a uma época de transição, da sociedade patriarcal para a sociedade burguesa, da monarquia para a república, época caracterizada pela "ascensão histórica de uma nova classe dirigente". Faoro remodela a seu modo esse fio, qualificando melhor de que transição se trata e possibilitando, assim, uma compreensão bem mais ampla e matizada de Machado de Assis como escritor do Segundo Reinado.
É em "Os Donos do Poder" que encontramos amplo uso e fundamentação de categorias que serão basilares no estudo sobre Machado: classe, estamento, capitalismo politicamente orientado, estado patrimonial-burocrático. Outras, como realismo e moralismo, Faoro as recolhe na rica tradição de exegese da obra machadiana, com a qual dialoga constantemente.

A velha sege
Vejamos um único exemplo, que permite comprovar o ponto e aquilatar a enorme força das análises de Faoro. Eugênio Gomes, em "O Enigma de Capitu", dedicou um parágrafo à velha sege de d. Glória, que encantava Bentinho e de que sua mãe não se desfazia por lembrança do marido. Segundo Eugênio Gomes, Bentinho aprecia a sege como objeto de prestígio, como símbolo de status. Por sua vez, Miécio Táti, em "O Mundo de Machado de Assis", arrolou extensivamente os diferentes meios de transporte que aparecem na obra do ficcionista.
Sem negar ambas as interpretações, Faoro as potencia: mostra-nos como os meios de transporte estão ligados a uma complexa e fascinante topografia social, que vai decantando passo a passo: carruagens, coches, tílburis, landaus, "coupés", "cabs", cabriolés, bondes e símiles indicam momentos históricos específicos e possuem proprietários e usuários determinados, que não se confundem jamais na teia dos mecanismos de prestígio e de hierarquia social.
"Do coche ao bonde é toda a sociedade do Império, sobretudo a do Segundo Reinado, que se expressa e caracteriza. Pelo carro se conhece o homem: símbolo de opulência, da mediania e da pobreza. A carruagem fazia supor as cocheiras, o exército de criados e escravos, tudo articulado para o luxo ostentatório das ruas e praças. O bonde, no outro extremo, é a sociedade democrática que se expande e cresce -sociedade mal-educada, que cospe no chão e fala alto. O carro esconde e dissimula cabedais; o carro ostenta e põe a nu o homem, com seus vícios e sua pobreza. Eles se digladiam nas ruas, com impulsos próprios, honra e prestígio derivados das parelhas -num painel autêntico do que vale cada homem no conceito de outro homem."
Que o problema do realismo esteja posto com relação à ficção machadiana, atesta-o já o nervo da crítica de Machado a "O Primo Basílio", e a fortuna crítica de Machado ponteia, pelo menos desde José Veríssimo, a questão do realismo específico de Machado de Assis. O problema de Faoro é precisamente este: a realidade que a obra de Machado expõe. A figura do sociólogo-historiador é encarregada do discernimento, pois que há uma falha entre a realidade tal como ela é -isso significa, para Faoro: como a história e a sociologia a apresentam- e o modo como ela aparece em Machado: o ficcionista opera uma estilização.
Faoro interpreta Machado de Assis interpondo à sua obra uma interpretação do Segundo Reinado e dos inícios da República. Isto se percebe facilmente, pois que há momentos no livro em que Machado fica de lado para dar lugar à informação e análise histórica; esta é, por sua vez, sempre informada pelo conceito sociológico. A prova dá-se passo a passo, mas pode ser dada "in nuce" no fulcro do argumento, a referida transição da sociedade estamental para a sociedade de classes, que define a posição de Machado: "Perdido na mudança, no fogo cruzado de concepções divergentes do mundo, sem conseguir armar a teia da sociedade e identificar-lhe os fios, o autor estiliza os fatos e os homens, na armadura de um esquema da própria transição". Uma obra literária às voltas com uma situação de transformação.

Ficção e história
Talvez a força do livro esteja nesse andamento em paralelo de uma história do Segundo Reinado e inícios da República com a ficção machadiana, de sorte que um serve ao outro, a história dando raiz à ficção, adensando-a, a ficção ilustrando e lustrando a história. Daí talvez uma certa perda de autonomia da obra literária, que só se deixa ler sob o cenário da história que a acompanha muito de perto (deveria dizer imediatamente?). Isso se mostra em uma alternância que os leitores podem perceber: ora Faoro informa por meio da história -pense-se na discussão do Encilhamento- e a obra machadiana aparece mais distante; ora esta é chamada ao primeiro plano, ilustrando a análise histórica. Seja dito, em favor de Faoro, que é a história que bem nos permite compreender o que se narra, no sentido de que o autor crê que o bom entendimento da obra literária exige o conhecer da história.
Ora, se Faoro pode escrever sua sociologia histórica do Segundo Reinado pontuando-a com Machado de Assis, isso é sinal de que Machado foi capaz, em registro próprio, de retratá-la, vale dizer, apresentar a realidade. Há aqui uma fatura realista, que caberia qualificar. Trata-se de uma espécie de simbiose de realismo e moralismo, e é precisamente o moralismo que impede Machado de compreender o movimento global da sociedade, movimento este que o analista procura decifrar: "Machado, preso aos preconceitos de moralista, ainda alheio à formação de historiador do século 19, concebeu as estruturas sociais como se movidas por sentimentos e paixões individuais. No jogo das forças sociais, o concurso das circunstâncias exteriores tem inegável peso, mas o que decide é a fibra do homem, rompendo caminhos à custa de sua ambição". Esse seria o limite do realismo machadiano, que o qualificaria na sua especificidade. Faoro demarca este atributo da ficção machadiana, que gira sobre um pivô que não é a estrutura social, mas sim um ponto de vista particularista.
Erich Auerbach decifrou, em outro contexto, esse mesmo problema ao mostrar que, para certo realismo, a sociedade não aparece como problema propriamente histórico, mas sim como problema moral. Quando isso ocorre, a crítica da sociedade permanece adstrita aos indivíduos, mas não às forças históricas que direcionam o seu movimento. Isso dá lugar, muita vez, a um narrador com apurada consciência crítica, que deixa os fenômenos como que falarem por si mesmos, distanciando-se, lançando mão de um perspectivismo, dando lugar à ironia. Faoro percebe esse problema e o decanta na obra de Machado, marcando desse modo o viés de sua análise e indicando sua posição.
A sociologia da obra explica a estilização e mostra o que é o real. Este depende da estrutura social como um todo e em movimento (estudada, em registro mais largo, em "Os Donos do Poder"); estrutura esta que nunca aparece tal e qual em Machado de Assis: aparece sempre desviada para as motivações pessoais. "Substitui Machado a simetria sociológica, já incorporada por Balzac, Stendhal e Zola, a uma construção. É a estilização da sociedade -redução da realidade exterior à vontade humana, com formas e modelos artificialmente fixados. [..." O que lhe faltava, e isto o enquadra na linha dos moralistas, era a compreensão da realidade social, como totalidade, nascida nas relações exteriores e impregnada na vida interior. [..." A estilização partia, por consequência, de fatos e realidades sociais, apurados na observação das coisas e na conduta dos homens. O que a distingue da construção social, decorrente de uma compreensão global, é a predominância dos sentimentos e das virtudes na ação coletiva. Persiste nela -diga-se ainda uma vez- o moralismo, mitigado embora com a sociedade sentida e percebida como resistência à vontade do homem, o homem ingenuamente vestido de rei da criação." Essa simbiose de realismo e moralismo daria o tom da obra de Machado e permitiria situá-lo historicamente.

Mimesis dialética
Nesse entremeio, vemos como Faoro situa-se no centro do debate sobre o(s) realismo(s), invocando uma teoria da "mimesis" para fundamentar certa deformação da realidade. Para Faoro, trata-se de uma "mimesis dialética", donde a preocupação com a realidade social enquanto totalidade; Balzac e Stendhal indicariam um realismo despojado do moralismo e por isso capaz de desvelar mais acuradamente as forças sociais, políticas e econômicas, o conjunto das relações sociais, "a sociedade como véu global".
Aqui se mostram seus rastros dialéticos, que estancam, contudo, aquém da forma literária. Faoro mobiliza indistintamente os variados gêneros (o romance, o conto, o poema, a crônica etc.), sem tentar desvendar também um velho, mas teimoso, desafio analítico, o social tornado forma. Mas essa observação só vem por respeito à obra, da maior envergadura, rara mesmo, verdadeiro deleite para todos os que se interessam por literatura e por nossa sociedade. É de se esperar que esta nova edição traga-lhe muitos novos leitores, que possam levar adiante o prazer e o enigma com que Machado insiste em nos desafiar.


Leopoldo Waizbort é professor de sociologia na USP e autor de "As Aventuras de Georg Simmel" (editora 34).

Leopoldo Waizbort é professor de sociologia da USP.
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