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Silviano Santiago - 5 - Agosto de 1995
O detetive amnésico
Foto do(a) autor(a) Silviano Santiago

O detetive amnésico

 

SILVIANO SANTIAGO 
O PRIMEIRO HOMEM

Albert Camus Tradução: Tereza B. de C. Fonseca e Maria L. N. Silveira Nova Fronteira, 311 págs. R$ 19,00
Em 1957, Albert Camus recebe o prêmio Nobel de literatura. Três anos depois, morre prematuramente de acidente automobilístico. Perpetuada por sucessivas fotos semelhantes, a imagem póstuma do escritor está impressa no imaginário letrado do século 20: rosto másculo, barbeado e não escanhoado, toco de cigarro pendendo dos lábios sensuais, o todo montado num corpo atlético de jogador de futebol, vestido com elegante capa de chuva bem afivelada na cintura. A gola, levemente levantada, protege o homem do vento e do radicalismo de Jean-Paul Sartre. Nos meios boêmios de Paris, o homem da capa representa um detetive tomado de empréstimo às telas de cinema. Trata a esposa com carinho e rejeição, preferindo passar as noites dançando na boate Schubert" com outras e encantadoras mulheres.
Albert Camus nos legou a imagem de ator de filme noir" americano, semelhante à do durão Humphrey Bogart.
No local do acidente automobilístico, foi encontrada uma pasta toda coberta de lama. Nela, o manuscrito de um livro autobiográfico. O Primeiro Homem", eis o título, só será publicado 30 anos depois, graças ao trabalho infatigável de deciframento feito pela filha. Ao se ler o livro com faro de detetive, descobre-se que o hábito da capa de chuva bem talhada e charmosa não era herança da cultura de massa hollywoodiana que, desde os anos 40, empolgava os existencialistas nas caves de saint germain-des-près. O impermeável, como se dizia então, era herança da infância pobre e problemática do escritor, membro duma família analfabeta e miserável de colonos franceses e espanhóis na Argélia.
Com a morte prematura do pai no front francês em 1914 e com a doença da mãe, surda e com dificuldade de falar, era a avó avara e tirânica quem comprava as roupas da criança. Por exemplo, comprava a capa de chuva comprida demais, para que durasse alguns anos. A matrona, diz o livro, tinha a natureza como aliada na economia caseira: qualquer dia a altura do menino alcançaria a da capa. Mas até esse dia, seria vítima dos gracejos dos companheiros. Por isso, a criança tinha como único recurso amarrar a capa com o cinto e afofá-la na cintura para tornar original o que era ridículo".
Como tornar o ridículo original? Eis a pergunta que Albert Camus enfrenta ao querer idealizar e escrever, após a consagração do Nobel, o seu relato autobiográfico. À primeira vista, O Primeiro Homem" se enquadra num gênero de grande sucesso desde o século 19: a infância humilde dos grandes homens. E esse dado deve ter contribuído para o sucesso de venda do livro na França neoliberal, à beira do colapso socialista.
A pobreza do ambiente familiar convive com a pobreza da memória, nos ensina Camus ao evocar a miséria da casa avoenga. Ou, como diz Philippe Lejeune em Je Est Un Autre", a autobiografia não faz parte da cultura dos pobres (só com a participação dos antropólogos da escola de Chicago é que aos pobres foi emprestado o direito à própria fala). Mas a burguesia emergente sempre precisou exibir as qualidades inequívocas da mobilidade social. Médicos famosos, advogados respeitosos ou políticos de sucesso, antigamente pobres, foram encorajados a escrever autobiografias. Demonstrava-se que os nada aquinhoados pela sorte, desde que trabalhadores infatigáveis, podiam ter um lugar ao sol". A classe dominante é suficientemente generosa para abrigar os marginalizados que se distinguem pelo mérito. O filão europeu passa para os Estados Unidos e toda uma bibliografia sobre o self-made man" ainda domina o mercado de livros e o imaginário popular. Uma Tragédia Americana" (1925), eis o título do romance clássico de Theodore Dreiser, que serve de contrapartida pessimista ao texto de Camus.
O Primeiro Homem" mais se enquadra no gênero infância humilde porque os editores franceses suplementaram o manuscrito com uma troca de cartas entre o escritor laureado e seu velho professor de ginásio. Na carta de Camus, lê-se que, ao receber a notícia do prêmio, o primeiro pensamento dele foi para a mãe, o segundo para o professor. E logo depois: Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido". Mas apenas à primeira vista e suplementarmente é que esse relato se enquadra dentro das regras convencionais (ou ridículas) do gênero infância humilde dos grandes homens. Por muitas razões dele escapa.
A primeira delas, e ainda exterior aos fatos narrados, advém do acaso. O livro não nos fascinaria tanto se não tivesse sido publicado sob a forma de manuscrito. O leitor comum tem a oportunidade de visualizar os complexos e insondáveis mistérios da criação literária a partir da leitura de um relato agradável e conscienciosamente editado. A cada página, tem diante de si as marcas da releitura do original pelo romancista, ou seja, as marcas do diálogo do escritor com o próprio texto. Nessa e naquela página, pode observar imprecisões que são logo corrigidas por outras palavras. Pergunta: foram felizes as correções? Naquele parágrafo, descobre brancos imperdoáveis em determinada cena. Vê como o escritor procurou preenchê-los com anotações transcritas ao pé da página. De repente, examina frases ou pedaços de frase, intrometidos à força pelo ficcionista a fim de enriquecer o texto. Pergunta: explicar demais a cena não é um modo de empobrecê-la? Mais adiante, o perfil do personagem, escamoteado pela velocidade da escrita evocadora, está desenhado em longa nota. Seria indispensável o perfil, ou seria ele compromisso com a estética realista?
O leitor tem também diante de si as marcas de um outro diálogo: o da responsável pela transcrição com o próprio manuscrito. Ela chama a atenção para as contradições do texto, como a sinalizar para o leitor o momento preciso em que a memória esquece e inventa os lapsos freudianos. Por que nomes diferentes são dados ao mesmo personagem? Por que o irmão mais velho é dado como abraçado à mãe para, páginas depois, na mesma cena, ser dado como ausente, deixado que tinha sido por ela em casa da avó? Por que o velho professor ora tem o nome correto, ora tem o nome de Malan? 

O relato escapa uma vez mais ao ridículo quando apresenta o narrador como um detetive em causa própria. Um detetive amnésico que, decidido a investigar o próprio passado em busca da identidade perdida, descobre que o texto que produz pouco tem a ver com a memória dos seus, tem um pouco mais a ver com a memória do seu grupo étnico, o dos europeus pobres que partiram para a Argélia em busca de melhores dias. O texto tem, finalmente, tudo a ver com a angústia existencial e intelectual do pied noir" (colono francês) que é Camus, colocado contra a parede parisiense pela guerra na Argélia, onde velhas amizades se rompem e inocentes são assassinados e torturados.
Na busca da identidade, o escritor argelino rechaça os argumentos da esquerda francesa que o condenam. Quer livrar o pescoço das violentas acusações feitas pelos radicais da revista Temps Modernes". Por isso, Albert Camus escreve menos um relato autobiográfico e mais uma peça de defesa. Dois crimes lhe estão sendo imputados: o de deserção da família pobre na colônia francesa e o de omissão ou reacionarismo em relação à guerra da independência na Argélia.
No banco dos réus, o advogado-detetive (como o juiz-penitente em A Queda") traz à luz penosos segredos familiares e, ao trazê-los, desenha um discreto pano de fundo que anuncia as razões políticas pelas quais o antigo menino pobre não merece as palavras dos advogados de acusação. O Primeiro Homem" torna-se extraordinário no momento em que articula a vida familiar (a estória) com o desenvolvimento da questão colonial no norte da África e consequente luta pela liberação dos árabes (a história). A articulação entre estória e história é muitas vezes narrada num paradoxal tom lírico. Este recria a infância feliz no interior da infelicidade geral. O todo é dado como no palco de uma peça de Samuel Beckett. A grandiosidade das falas líricas contracena com a ferrugem dos corpos e do cenário.
A ação do livro se passa numa lata de lixo simbólica: a memória é esquecimento, o saber é ignorância e as sepulturas são o único sinal de vida. A originalidade maior de O Primeiro Homem" é paradoxal: como sublimar os detritos da lata de lixo da história e da família, a fim descrevê-los num francês que busca a pureza e a beleza do diamante? Na excepcionalidade do estilo artista está a salvação. Busca vã, como todas as buscas corretivas. Aliás, a natureza que a avó invoca ao querer justificar a própria avareza e o crescimento rápido do filho foi duplamente madrasta com Camus. Ela o obrigou a nos legar, pela morte prematura, um auto-retrato incompleto. É o leitor quem tem de afofar a capa" na cintura do menino-adulto para torná-lo original.
No paradoxo esboçado, desde que descodificada a metáfora do primeiro homem (isto é, o imigrante, sem pátria de origem e sem pátria no destino) (1), pode-se finalmente vislumbrar uma velada revelação no relato autobiográfico. Ao contrário do sanguinário" Jean Genet, autor da peça Les Paravents" (1961), Camus desejava para a Argélia uma solução pacífica, construtiva e feliz, que escapava aos desígnios radicais da direita e da esquerda. Nem paraquedistas franceses nem atentados à bomba pelos árabes. No exílio francês dos anos 50, como uma espécie de anacrônico Simon Bolivar, o pied noir" Albert Camus sonha com uma independência do tipo latino-americano para a colônia francesa. Na necessidade e na fraternidade, colonos europeus e árabes inventariam uma nação independente, multirracial, tolerante e feliz, como a cidade de Oran, passada a peste.
Depois da morte de Camus, no dia 3 de julho de 1962, é proclamada a independência da Argélia. Ahmed Ben Bella é o primeiro presidente da República.
NOTA
1. A longa passagem (págs. 174-175) é de leitura obrigatória
SILVIANO SANTIAGO é poeta, crítico literário e autor, entre outros, de Em Liberdade". 

Silviano Santiago escritor e crítico literário.
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