Logotipo do Jornal de Resenhas
Heloisa Starling - 64 - Julho de 2000
O coração das trevas
Foto da capa do livro Eichmann em Jerusalém
Eichmann em Jerusalém
Autor: Hannah Arendt
Editora: Companhia das Letras 0
Foto do(a) autor(a) Heloisa Starling

Heloisa Starling comenta escritos políticos da pensadora Hannah Arendt 
O coração das trevas

HELOISA STARLING

"Eichmann em Jerusalém" é um livro perturbador. Originalmente uma série de artigos, publicados em 1961, para a revista "New Yorker", sobre o processo Adolf Eichmann -o mais importante julgamento de um carrasco nazista depois do tribunal de Nurembergue-, o livro de Hannah Arendt continua provocando inquietação e desconforto no leitor contemporâneo, quase 40 anos depois, provavelmente por conduzi-lo ao "coração das trevas" da modernidade e à evidência de que as sociedades democráticas são, em princípio, impotentes para enfrentar o horror que brota daí.
Visto nessa perspectiva, "Eichmann" é um livro decisivo no caminho percorrido por Arendt para pensar o mundo em que vivemos, "cercados por uma mistura inextrincável de tradições muito velhas, que não mais conseguimos decifrar, e de experiências muito novas, que ainda não conseguimos compreender". Por esse caminho, Arendt produz um conjunto de narrativas sobre o tempo e espaço de modernidade gerados nesse longo (ou curto) século 20, sobre a qualificação histórico-política daquilo que chamamos modernidade e de seus discursos legitimadores e, mais precisamente, sobre as implicações do moderno nos processos de expansão e de retração do espaço público e do próprio sentido da política nas sociedades contemporâneas.
De fato, por conta desse caminho, Arendt emerge, na atualidade, como a pensadora política de uma modernidade atormentada que vacila, em equilíbrio, no limiar, entre um passado irredutível e um presente imprevisível, entre o que é tão recente que ainda não foi tocado por nenhuma história, tão deteriorado que não chegou a envelhecer, tão inédito que não chegou a nascer e está morto, tão novo que algo nele permanece à espera de conclusão. Nessa zona limítrofe entre o já acontecido e o que ainda não se manifestou, Hannah Arendt construiu as duas bases de sustentação de seu pensamento político: o totalitarismo, sinônimo da completa anulação do sentido da política, por meio de um sistema complexo e sistemático de manipulação das massas; e a revolução, por ela definida como o momento privilegiado de manifestação do político, durante o qual a história deixa visível o espaço de liberdade aberto pela ação humana.

O mundo totalitário
Assim, "Eichmann" é, sobretudo, uma narrativa sobre o fenômeno do mal na modernidade, ou melhor, sobre a forma política que esse fenômeno assumiu nas sociedades modernas. Em boa medida, o livro retoma o percurso político e histórico seguido por Arendt, principalmente em "As Origens do Totalitarismo", onde analisa a originalidade dos mecanismos de edificação do mundo totalitário sobre os escombros do fim da tradição. De certo modo, "Eichmann" também tem seu início quando retorna à última indagação contida em "As Origens": a possibilidade moderna de configuração de uma forma extrema do mal, que se volta contra a liberdade humana para degradar sua humanidade, tornando os homens supérfluos numa terra sobrepovoada.
Mas, nos termos de Arendt, "Eichmann" é um relato sobre um julgamento, "um comentário que se limita a expor todos os fatos que estavam em questão na corte do processo em Jerusalém" e não contém, em princípio, nenhuma tese. Ao mesmo tempo, porém, trata-se de um comentário que só se sustenta ancorado numa série de questões, formuladas pela autora, na direção do esclarecimento do acontecimento totalitário -e, de certo modo, são precisamente essas questões que atravessaram o contexto histórico do julgamento de Eichmann para reverberar em nossa modernidade de fim de século.
Na realidade, são questões que inauguram um insistente debate sobre os riscos da barbárie refletidos no horizonte das sociedades democráticas contemporâneas. Um risco presente, por exemplo, na erosão das possibilidades de mediação política entre as esferas do social e do público; ou então, no deslocamento estranhamente silencioso de uma multidão de párias atravancando o caminho das grandes cidades: uma gente que, a rigor, não vem de parte alguma, ninguém os reivindica, não são ninguém, perderam, de alguma forma, nesse vaivém entre uma identidade coletiva de oprimidos e uma ausência de identidade, as qualidades que poderiam vinculá-los ao mundo de seus semelhantes.
Entretanto, na linha do horizonte dessas sociedades, pode-se retornar às perguntas formuladas no "Eichmann", em especial, às questões sobre as responsabilidades do cidadão perante os atos cometidos nos quadros lícitos de um Estado moderno soberano, reconhecido pelos demais; ou então, indagar sobre o ponto de passividade e colaboração de um povo para a ascensão de um sistema totalitário e sua política de extermínio.
Nesse caso, tanto a coragem de Arendt em questionar a estranha docilidade com a qual os conselhos judaicos cooperaram com as autoridades nazistas quanto sua exigência em retirar da sombra, daquela zona cinzenta de silêncio a que se refere Primo Levi, as marcas da passividade que sustentaram o sucesso da estrutura de poder nazista, guardam um desdobramento político: trazem à cena da história as condições para o juízo, liberando o caminho para a capacidade humana de pensar diante da originalidade do acontecimento totalitário -e, como ela observou, "aquilo que é sem precedente, uma vez surgido, pode-se tornar um precedente para o futuro".

A banalidade do mal
Entretanto em "Eichmann" a originalidade do horror totalitário aparece sob a forma do homem comum, responsável pelo massacre de milhões de pessoas. Eichmann era um funcionário medíocre que dava ordens e escrevia memorandos atrás de uma mesa e, dessa forma, conduziu uma política de genocídio. Dito de outra forma: ele não matou por um motivo mau ou assassino, mas porque isso fazia parte do seu trabalho. Um sujeito organizado, regular, eficiente, perfeitamente adaptado ao seu posto, desejoso de subir na carreira e vaidoso do lugar que ocupava ou das chances profissionais que ainda poderia desfrutar na vida -um assassino de massas e um honrado chefe de família, e isso não é fácil de compreender.
Essa é a principal novidade da análise de Arendt nesse livro: ela recusa a idéia de um mal essencial, absoluto, incrustado na natureza humana; trata, ao contrário, da banalidade do mal, da possibilidade de pensá-lo do ponto de vista de seu agente, para fora de toda dimensão demoníaca ou satânica.
Todavia, ao formular o mal na banalidade de seu agente e ancorá-lo no homem contemporâneo, prisioneiro de uma vida social gregária, incapaz de esboçar a menor resistência ao mundo que a ideologia consegue construir, Arendt vai mais além. A rigor, ela permite retornar o fenômeno da banalidade do mal para o centro de sua reflexão sobre os dilemas políticos do presente. Uma possibilidade, de início quase imperceptível, mas que vai se expandindo, em agonia lenta, no interior das sociedades democráticas contemporâneas, suprimindo o repertório de regras e valores nos quais se funda o mundo político, até cristalizar-se, súbita e letal, na violência absoluta que se exerce sobre o outro.

Livros e colóquios
Essa dura atualidade parece ter superado a atitude de reticência que marcou, por muito tempo, a força do legado arendtiano nas universidades brasileiras. Assim, 25 anos após sua morte nos EUA, dois colóquios foram organizados por universidades brasileiras: o primeiro, em Campinas, marcou especialmente o reencontro dos pesquisadores no Brasil com as matrizes da reflexão filosófica do pensamento de Arendt. O segundo, ocorrido na Pontifícia Universidade Católica (RJ), ampliou essas matrizes, situando parte dos debates no eixo de confluência da teoria política, história, sociologia política e filosofia, além de confirmar a relevância que a obra de Arendt sempre obteve nessa instituição, desde os lendários seminários conduzidos pelo filósofo Eduardo Jardim, na década de 70.
Três novos livros foram lançados durante os colóquios. "O Pensamento à Sombra da Ruptura" (Paz e Terra), de André Duarte, analisa a relação entre política e filosofia na base de constituição dos procedimentos de reflexão crítica de Arendt sobre os impasses da modernidade. Nesse sentido, Duarte explora, principalmente, o significado do fim da tradição, como motivo e horizonte do pensamento de Arendt. Assim, à sombra das rupturas que nos indicam a existência de uma crise sem precedentes no fio da tradição, o texto recupera a análise de Arendt sobre certa importante força de resistência presente em meio às ruínas deixadas por essa ruptura.
Trata-se, na realidade, de perceber o esforço de Arendt em construir uma espécie de história subterrânea da modernidade, feita de momentos evanescentes, fugidios, que lampejam, de súbito, "nas asas do instante", trazendo à superfície das manifestações políticas do presente, fragmentos arruinados de eventos e experiências do passado, dissolvidos e mineralizados em outras novas formas e figurações de sentido que liberam os homens para a ação e para o juízo.
"Política e Liberdade em Hannah Arendt", de Francisco Xarão (Editora Unijuí), tem por objetivo analisar o conceito de "vita activa", um tema decisivo, na profunda relação entre política e filosofia, que marca a mais importante matriz do pensamento arendtiano. No trabalho de Francisco Xarão, esse conceito funciona quase como um mapa para assinalar o itinerário de Arendt em sua reflexão sobre as três atividades humanas (labor, trabalho, ação). Assim, a importância por ela atribuída ao domínio da ação retoma o problema colocado para a política pelas catástrofes da modernidade.
"Para uma Política da Amizade -Arendt, Derrida, Foucault", de Francisco Ortega (Ed. Relume-Dumará), retoma o tema da amizade em Hannah Arendt como forma de sociabilidade política. Nessa perspectiva, Ortega indica o processo de ressemantização da palavra amizade, operado pela (e na) modernidade, deslocando seu sentido para o mundo da intimidade -e o consequente esvaziamento da esfera pública da vida contida nesse processo. O livro de Ortega também sublinha, no espírito que orienta a relação da amizade no pensamento de Arendt, uma forma de exercício da coisa política, uma alternativa, quem sabe, para traçar e inventar outros novos caminhos de vida política nas sociedades contemporâneas, marcadas por um contínuo empobrecimento de suas formas de sociabilidade e de relacionamento.

Modernidade e modernização
Não parecem existir, no conjunto da obra de Hannah Arendt, muitas referências deslocadas do eixo político definido pelas experiências vividas por sociedades historicamente hegemônicas. De qualquer modo, a originalidade de seu pensamento pode ajudar a desenhar, com um efeito de luz e sombra muito próprios, o ponto de defasagem entre modernidade e modernização. Ou, se quisermos ir um pouco mais longe, pode servir para ajudar a pensar os tempos e espaços de modernidade que se produzem num subúrbio chamado Brasil. Nesse caso, sua obra pode servir, talvez, para pensar os riscos vividos por sociedades como a nossa, marcadas por profundas dificuldades no momento de construção de um caminho próprio de passagem para o moderno e que, por isso mesmo, são economicamente orientadas com o objetivo de incorporar um modelo de transformações -em especial, de natureza tecnológica- paradigmaticamente definido.
Nesse processo de assimilação, sociedades como a brasileira contemporânea sofrem pelo menos duas ordens de consequências: uma, a de serem vítimas de um processo de modernização sem modernidade, isto é, sem a incorporação do seu repertório de valores, princípios e escolhas; a outra, o risco de se tornarem sociedades vazias de humanidade, elevando ao limite o desenvolvimento daquelas formas de petrificação mecanizada antevista por Max Weber na base de constituição do mundo moderno e deixando-se governar pelos pressupostos de racionalidade e funcionalidade do estado burocrático, da ciência e da técnica.
Afinal, talvez a grandeza da obra de Hannah Arendt esteja em sua capacidade de pensar e reinventar a política a partir da recuperação dos fragmentos perdidos de toda tradição, aquilo que foi esquecido, eclipsado, ocultado no tempo -e que ainda assim está lá, insiste Arendt, como uma espécie de sons que se encontram perdidos na escuridão do passado, "sons que libertam os homens de seus hábitos presentes e desamarram as correntes que prendem o futuro". Nesse caso, e como diria Guimarães Rosa, "o livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber".



Eichmann em Jerusalém Um Relato sobre a Banalidade do Mal
Hannah Arendt
Tradução: José Rubens Siqueira
Companhia das Letras (Tel. 0/xx/11/ 3846-0801)
244 págs., R$ 29,00


Heloisa Starling é professora de história das idéias na Universidade Federal de Minas Gerais e autora, entre outros livros, de "Lembranças do Brasil -Teoria Política, História e Ficção em "Grande Sertão: Veredas'" (Revan).

Heloisa Starling é professora do departamento de história da UFMG.
Top