

LEOPOLDO WAIZBORT
O conceito de vida
Obra reúne textos de hermenêutica, estética, epistemologia, ética e psicologia
FILOSOFIA E EDUCAÇÃO
Wilhelm Dilthey
Tradução: Alfred Keller e Maria Nazaré Amaral
Organização: Maria Nazaré Amaral
EDUSP
528 p., R$ 89,00
Atenção kantianos! A realidade do mundo exterior é uma representação? Não, responde decididamente Wilhelm Dilthey: é vida. Eis aí o cerne de uma outra revolução copernicana, que almejava resolver os impasses e aporias que afligiam o conhecimento histórico. Em um vazio deixado por Kant, Dilthey (1833-1911), desde a década de 1860, pretendeu oferecer as bases para uma crítica da razão histórica; todo o seu labor gravitou, durante uma longa vida de reflexão, em torno de um nexo de problemas que se referia primordialmente a essa questão.
O leitor brasileiro pode conferir isso e muito mais, com precisão e variedade, na bela antologia Filosofia e educação. Título equivocado, pois apenas um dos 17 textos coligidos trata de educação, embora forme sistema com o conjunto. Mas o leitor, pelo título, fica sem saber que há textos sobre hermenêutica, estética, epistemologia/teoria do conhecimento, ética e psicologia. A seleção é variada e rica; a leitura exige atenção e cuidado, pois se trata de um filósofo informado, cuidadoso e de reflexão sofisticada.
O ponto de partida de sua problematização pode ser encontrado na busca de fundamentação do conhecimento nas “ciências do espírito”, uma expressão que recobre o que hoje entendemos por “humanidades”. Mas que elas sejam assim referidas é de importância decisiva: não haveria outro termo que pudesse concentrar a força e o específico da reflexão feita na Alemanha, ao mesmo tempo em que mobiliza toda uma semântica destilada e processada no arco que vai do último quartel do século XVIII até a Grande Guerra, e cujas ressonâncias atuam ainda hoje. Elevar a validade do conhecimento das ciências do espírito ao grau de legitimidade já então alcançado pelas ciências da natureza era de fundamental importância, no momento – transcorrido o século XIX – em que as humanidades haviam se institucionalizado, com a implantação do modelo humboldtiano nas universidades.
A vida
Pode parecer estranho, ou ao menos inusitado, que uma preocupação de natureza epistemológica com relação às ciências do espírito desague em uma filosofia que privilegie o conceito de “vida” – e que acabe sendo rotulada como “filosofia da vida”. Não obstante, isso tem sua razão de ser: o mundo histórico, diz Dilthey, é “a manifestação da própria vida em sua diversidade e profundeza”. Assim, a compreensão do mundo histórico, do fazer e agir humanos, dirige-se, em última instância, para a vida; somente compreendendo-a teremos a chave para a compreensão do mundo histórico.
Isso exige um desvio pela psicologia. É no âmbito de uma psicologia cognitiva, das condições da consciência, que Dilthey procura estabilizar os fundamentos da compreensão histórica. Conhecimento depende de consciência; consciência depende de ato psíquico, e este por sua vez remete a uma base vital. Aqui surge a noção de “vivência” – que não deve ser apressadamente contraposta à experiência, como uma certa fortuna crítica costumou fazer – como capacidade de percepção do mundo histórico. Em suas próprias palavras (uma amostra, para que o leitor procure mais): “se alguém desejasse apagar seu próprio eu, para ver as coisas como são, deixaria de existir, com essa extinção, o próprio impulso de querer ver. Porque é o acréscimo da vivência que em toda apercepção do histórico transborda do próprio eu para o mundo dos objetos que faz o mundo ser digno de ser visto. Só nesse sentimento de si, nesse ser-para-si, surge a coloração peculiar da representação: surge o meu, o nosso – o que chamamos de vida.”
Esse nexo é complexo e Dilthey articula-o histórica e sistematicamente: acompanhando a discussão no âmbito da história da filosofia e buscando oferecer-lhe uma construção lógica – uma epistemologia propriamente dita. Pois a ansiada crítica da razão histórica forja sua própria modalidade de conhecimento: uma hermenêutica que busca compreender aquela realidade histórica, social e humana, mas não explicá-la, como se fosse um fato físico. E somente pode compreendê-la por ser ela precisamente humana: há um substrato comum, um princípio de congenialidade (a antiga linhagem que parte de Terêncio – “Nada do que é humano me é estranho” – passa por Montaigne e encontra em Vico sua fundamentação moderna e, para Dilthey, antecessor imediato).
Ao procurar caracterizar a especificidade das ciências do espírito, Dilthey assinalou que elas dependem de um nexo de vida, expressão e compreensão. Algo da vida é externalizado, levado à expressão e então compreendido. Quando essas três dimensões se concretizam, estamos nos domínios das ciências do espírito. Vale destacar que a noção de vida, que não é propriamente biológica, mas em última instância transubjetiva, casa com a ideia dos indivíduos como ponto de cruzamento dos círculos sociais, como já à época de Dilthey a sociologia procurou formular. A isso se liga, ainda, a grande importância atribuída à noção de ação recíproca, como possibilidade de saída do beco do causalismo. A somatória dessas duas ideias resulta na articulação de um espaço comum e compartilhado pelos seres humanos, que vivenciam e compreendem (e assim abrem a possibilidade de se falar em experiência em sentido enfático, à diferença da leitura que força a separação e dicotomiza vivência e experiência).
A linguagem
Evidentemente, a linguagem passa a desempenhar nessa arquitetura um papel da maior importância, como dimensão que possibilita e realiza conexões simbólicas; ela apresenta-se como uma dimensão intersubjetiva, de certo modo homóloga à vida. A importância da linguagem torna o problema da hermenêutica central, na medida em que se trata, inicialmente, da compreensão da palavra escrita, a palavra do passado que nos é transmitida; a seguir, há uma extensão da palavra às demais manifestações do espírito. Nesse ponto nos deparamos novamente com uma variação do princípio da congenialidade, dado que “a compreensão é um reecontro do eu no tu. Essa mesmidade do espírito no eu, no tu, em cada sujeito de uma comunidade, em cada sistema da cultura, e finalmente na totalidade do espírito e da história universal torna possível a cooperação das diversas realizações nas ciências do espírito.”
Esta é também a base para a articulação de particular e universal no âmbito das ciências do espírito (que dá lugar ao célebre círculo hermenêutico), uma relação que transcorre sem grandes atribulações em virtude do princípio da congenialidade que, operando pela via da vivência e da compreensão, ao final tudo une, em uma totalidade apaziguada: “o espírito só compreende aquilo que ele mesmo criou.”
LEPOLDO WAIZBORT é professor no departamento de sociologia da USP e autor de As aventuras de Georg Simmel (Editora 34).