Logotipo do Jornal de Resenhas
Jorge Coli - 87 - Julho de 2002
O cavalete nas costas
Foto do(a) autor(a) Jorge Coli

O cavalete nas costas

Três décadas de paisagismo em São Paulo 

Pintores Paisagistas
São Paulo, 1890 a 1920
Ruth Sprung Tarasantchi
Edusp
(Tel. 0/xx/11/3091-4156)
390 págs., R$ 120,00

JORGE COLI 

Depois de ter servido como alavanca para as novidades e transformações picturais ocorridas na segunda metade do século 19, a paisagem recolheu-se, discretamente. A modernidade recente nas artes foi sobretudo "mental" e a figura do pintor com o cavalete nas costas, indo buscar na natureza os estímulos para sua criação, figura que se mostrara tão nova nos anos de 1860 ou 1870, adquire um ar envelhecido no século 20. Bernardo Carvalho, no ótimo romance "As Iniciais" (Companhia das Letras, 1999), ironiza: "Não sabia que era um grande pintor de paisagens e que sua maior ambição, que pelo anacronismo fazia toda a sua originalidade, era ser o maior pintor de paisagens do final do século. "Imagine só! O maior pintor de paisagens do final do século 20! Ha! Ha! Ha! Era o que faltava ao final do século, não é mesmo, o maior pintor de paisagens!", ela dizia ao meu lado".
Assim, nos últimos cem anos, diante dos debates artísticos mais agudos, a paisagem deslocou-se para uma posição de reserva discreta. Mas, justamente por ser confidencial, por ter menos pretensões, por permitir uma relação afetiva que se tece entre um artista e uma região, ela pôde ainda mostrar-se muito sedutora. A prova é que, no mundo todo, apesar desse fenômeno de eclipse, a paisagem sempre teve amadores fiéis, colecionadores constantes, que não cessaram de alimentar uma faixa mais modesta do mercado das artes. São colecionadores que não esperaram um reconhecimento da crítica sofisticada ou estudos acadêmicos complexos. Confiaram sempre no próprio gosto e nos predicados intrínsecos ao gênero, silenciosos e tranquilos na maioria das vezes. Para descobrir esses poderes, qualidades e encantos, é preciso porém salvar a paisagem do esquecimento que as simplificações do gosto a conduziram.

Artistas excelentes
Neste sentido, a recente publicação de Ruth Sprung Tarasantchi é particularmente preciosa. Ela se intitula "Pintores Paisagistas - São Paulo, 1890 a 1920". Concentra-se, portanto, numa produção relativamente provinciana, mas que revela artistas excelentes. Esta talvez seja a primeira evidente qualidade do livro: permitir a descoberta -graças à qualidade das reproduções, bastante numerosas- de um número elevado de pintores e, justamente, provocar o desejo de saber mais. A autora parte de um inventário geral e de um projeto de síntese, antes que os trabalhos monográficos, individuais, sobre cada artista, tenham sido realizados. É uma atitude corajosa, essa, de enfrentar a questão no seu todo, sem o apoio de estudos particulares, e ela se mostra justamente necessária. Porque o trabalho de Ruth Sprung Tarasantchi vem convidar estudiosos a prolongá-lo, multiplicá-lo e desenvolvê-lo a partir dos artistas ali enunciados. Ele demonstra que esses diversos pintores merecem ser aprofundados.
Se alguns raros paisagistas paulistas do período tratado, mais célebres, foram objeto de alguns trabalhos recentes e de algumas exposições, como é o caso de Benedito Calixto, outros permanecem ainda muito obscuros. Nomes bem conhecidos na história da arte brasileira, como Oscar Pereira da Silva e Almeida Júnior, nunca tiveram, de fato, sua produção paisagística específica e intimamente estudada. Oscar Pereira da Silva foi ilustrado, no livro, por quadros bem escolhidos. Entre eles se encontra o maravilhoso "Calçada do Lorena", onde, retomando um desenho de Hercule Florence, o artista faz da vista sobre a Baixada, recortada pelas sinuosidades caprichosas da água, um esplêndido motivo pictural que avança até a faixa azul do mar, ao qual respondem as volutas das nuvens no céu.
Outros pintores, menos celebrados, mostram-se um regalo para os olhos. Alfredo Norfini é, de fato, um excelente aquarelista; Paulo do Valle Júnior, com pinceladas desenvoltas e seguras, tem um admirável sentido das vibrações atmosféricas; José Marques Campão é um artista de primeira água, que soube captar a tranquilidade azulada da Mantiqueira paulista, na região de Pedreira e Águas de Lindóia. Torquato Bassi afirma-se como um mestre na composição estruturada, na força cromática da matéria gorda.
Invenção plástica, força nos volumes que se deixam penetrar pela luz, encontram-se na arte de Paulo Vergueiro Lopes de Leão. Tulio Mugnaini, que foi diretor da Pinacoteca do Estado por tantos anos, "o poeta lírico das cores bonitas", no dizer de Tarsila do Amaral, em seus tons "fauve", em toques que marcam, sobre a tela, uma espessa e sólida trama construtiva, afirma-se de fato como uma personalidade, mais sintético do que Clodomiro Amazonas, outro maravilhoso pintor, que analisa, no detalhe e na minúcia, os matizes, as variações de tons a ele oferecidos pelo motivo.

Os italianos
A autora assinala o papel dos artistas italianos, na São Paulo daqueles tempos. Alguns são mestres impressionantes: Nicola de Corsi, com uma largueza espantosa no gesto, ao retratar o Ibirapuera; Antonio Rocco, cujas marinhas são envoltas por uma atmosfera que se embebe de azuis muito sutis, azuis que dão também uma vida delicada aos casarios pobres do antigo Bexiga; e esse Aladino Divani, tão escassamente conhecido, mas representado com uma obra de espantosa liberdade, assim como Manlio Nello Benedetti, cujas "Roupas ao Sol" emergem sobre um solo revolto pela gestualidade ampla e nervosa.
Essa evocação aqui transcrita selecionou apenas alguns artistas, ao acaso dos impactos e seduções provocados pelas imagens de "Pintores Paisagistas - São Paulo, 1890 a 1920". Ela está longe de esgotar o elenco ali estabelecido, onde figuram artistas que possuem, todos, grandes qualidades. O conjunto demonstra a urgência imperativa de pesquisas sobre cada um desses nomes, estabelecendo catálogos completos, estudando-os com interesse específico, completando assim lacunas muito sérias na história da arte paulista e brasileira. Nesse sentido, o livro é um estímulo, um convite e um guia.
Mas "Pintores Paisagistas" não pára aqui. A autora buscou muitas informações em jornais para retraçar o clima que envolvia a frequentação artística do público paulista naquelas décadas. Por seu texto, sabemos onde expunham os pintores, que mostras importantes -individuais, coletivas, nacionais, estrangeiras- ocorreram então. Acrescentam-se, entre outros elementos, informações interessantes no que concerne às coleções privadas. São atividades que ocorriam num meio acanhado, cujos limites preparariam e fariam explodir, por contraste, o escândalo da Semana de Arte Moderna.
Todas estas qualidades estão acima dos pequenos senões que o livro pode conter. Assim, as fichas catalográficas das obras reproduzidas são sucintas demais, faltando sobretudo a localização das obras. Quando certos colecionadores preferem guardar anonimato, assinalar "coleção particular" é necessário; em outros casos, é possível explicitar a origem. As análises de caráter amplo demonstram uma dificuldade em articular o particular paulista com uma história da arte geral, acenando com referências por vezes imprecisas ou fora de época.
A questão, sempre espinhosa, do nacionalismo nas artes, é vista de maneira um pouco sumária, um pouco ingênua, com frequência endossando as noções tais como artistas e críticos as viveram no passado. Entre elas se encontra, por exemplo, a idéia de que estudos na Europa comprometeram uma espécie de "alma brasileira" em certos quadros. Essa alma, quase só Benedito Calixto a teria sabido preservar, porque não foi exposto, como outros, às nefastas influências francesas.
Num aspecto diferente, se o livro traz informações muito preciosas sobre o comércio das artes e a presença de obras estrangeiras em exposições locais -nas quais emergem nomes importantes, como De Nittis, Boudin, Carrière, Cormon, entre vários-, ele se limita a transcrever as notas obtidas nos jornais do tempo, sem buscar além e mesmo cometendo deslizes ortográficos em nomes próprios, que vieram certamente da fonte consultada. Dessa maneira, por exemplo, Harpignies é grafado duas vezes Herpingnies; em vez de Henner, Hemer; e assim por diante. São sintomas indicando que, se a questão foi assinalada, não foi levada adiante.
Há ainda os "capítulos gerais introdutórios", que muitas pesquisas e teses se sentem obrigadas a fazer para "contextualizar", como dizem alguns, o objeto sobre o qual trabalham. "Pintores Paisagistas" não foge dessa praxe bastante infeliz. Essas introduções genéricas escapam ao conhecimento efetivo do autor, resumindo, do jeito que podem, informações obtidas de segunda mão, em outros estudos. O resultado são informações superficiais, panoramas supérfluos, que o leitor buscaria, com vantagem, em obras de fato especializadas.
Dessa maneira, a autora reitera afirmações discutíveis. Por exemplo: "(Em São Paulo), para construir, os italianos introduziram o tijolo". Ou escorrega em equívocos factuais: "O "Hamlet", de Shakespeare, abriu ao público as portas do teatro (Municipal de São Paulo)". Na verdade, o Municipal foi inaugurado com a versão italiana da ópera "Hamlet", ou melhor, "Amleto", de Ambroise Thomas, tendo, no papel do protagonista, o barítono Titta Ruffo. Esses pequenos deslizes são sinais do caráter supérfluo e indesejável de tais capítulos. Felizmente a autora não caiu numa outra armadilha, também tão frequente em pesquisas e teses brasileiras: aquela das malsinadas seções introdutórias apresentando "fundamentos teóricos e metodológicos".

Obra de referência
Mas chega de mesquinharias. Esses senões, muito pequenos -que podem ser cometidos por qualquer autor-, não diminuem em nada o grande valor do livro. Ele foi feito com dedicação, com honestidade; as análises consagradas à arte de cada pintor são nuançadas, sensíveis e justas. Apresenta uma coletânea de ilustrações excelentes, de ótima qualidade gráfica, reproduzindo telas raras, várias delas ali publicadas pela primeira vez. Foge dos caminhos batidos, abre um campo de estudo novo e importante na história das artes brasileiras. Assinala a qualidade de pinturas esquecidas. Reúne grande quantidade de informações preciosas para o entendimento do clima artístico da época. É estimulante, pois convida ao aprofundamento dos artistas tratados. Todos estes, e alguns ainda, são predicados mais que suficientes para defini-lo já como uma obra de referência dentre os estudos sobre a arte brasileira.


Jorge Coli é professor de história da arte na Universidade Estadual de Campinas.

Jorge Coli professor de história da arte e história da cultura da Unicamp
Top