

O cantor da gesta do Universo
LEDA TENÓRIO DA MOTTA
Que diferença da época do grupo Noigandres, quando tudo era fé na modernidade, no espírito de vanguarda, na linha oswaldiana! -haverá de exclamar, diante da última amostra poética de Haroldo de Campos, o desavisado leitor. Se não lhe acudir, a tempo, que "A Máquina do Mundo Repensada", com seus efeitos de "démodé", é uma incursão das mais irônicas. No que tem, aliás, um precedente nobre: o Carlos Drummond de Andrade de "Claro Enigma". O Drummond "engomado", como se dizia no próprio observatório concretista, antes que alguém dali se pusesse a praticar o mesmo suposto formalismo.
E, pensando bem, não surpreende que, a ponto de terminar um de seus mais ambiciosos projetos, a tradução da "Ilíada", direto do grego, Haroldo se saia agora com essa suma poética de 457 versos, mais uma coda de verso único, distribuídos por 152 estrofes ou tercetos, por sua vez divididos em três cantos, como na arquitetura da "Divina Comédia", outro de seus nobres referenciais. Nem que um trabalho desses, que teríamos tudo para chamar de "secreta teodicéia laica", como o próprio Haroldo fez com "A Máquina do Mundo", de Drummond, surja em sequência vertiginosa de "terza" rima, encarando um desafio digno dos "craques", como bem se disse recentemente. Nem principalmente que, enquanto traduz o primeiro dos poetas, aquele cujo cantar nos ficou como primeira máquina de representação do mundo, o poeta, mobilizando as velhas musas, termine por fazer um canto sobre o mundo... enquanto máquina de representação. Como se o mundo fosse um grande e velho livro. O que as muitas menções a Borges parecem confirmar.
Na verdade, não apenas tudo isso não espanta, mas, ao contrário, nada nessa incursão que poderia parecer recuperar a bateria de trejeitos da "Geração de 45" deixa de se justificar plenamente. Afinal, a realidade presa ao protocolo poético de sua imitação já está lá, nas fundações gregas, onde Haroldo tem passado a maior parte do tempo. Na prática homérica e nas leis aristotélicas, às quais se curva outro nobre convidado a essa alta conversação: o autor dos "Lusíadas". De onde emana a própria alegoria da "máquina do mundo", antes que a coisa se repita, em estilo humilde, numa estrada mineira.
Trata-se, em suma, de cena das mais palimpsestuosas, que vai de Drummond a Camões, passando por Dante abismado em sua visão paradisíaca, e chegando sempre a Borges, cuja "instância aléfica" também se inspira na "Divina Comédia".
A cosmografia dantesca, com seu fundo escolástico, é a matéria do primeiro dos três cantos, que Haroldo chama "ciclo ptolomaico" (40:3), pelo significado greco-cristão dessas leituras da esfera. Trata-se, nesse plano -em que a terra ainda não se "heliocentra" (49:1) ou "exterra"(50:1), como escreve Haroldo-, e segundo o livro em que se acha escrita tal versão das coisas, de uma contemplação transida da verdade. A mesma com que se envolve Camões, no famoso canto décimo dos "Lusíadas", onde Vasco da Gama vislumbra, do alto da Ilha dos Amores, a máquina em plena ação. A máquina "ao capitâneo arrojo em prêmio aberta", escreve Haroldo (18:1), que trata de repetir a dose. Sem sucesso e sem nenhuma Beatriz, acompanhado apenas de seus poetas.
Desenvolvido ao longo dos 40 tercetos iniciais, é nesse primeiro canto que entra a referência ao poema de "Claro Enigma", de cujo título Haroldo tira o seu. Com a diferença que, se na "Divina Comédia" e nos "Lusíadas" há um rapto extático, já em Drummond, que nos fala desde a caipirice mineira de seu alumbramento desconfiado, tudo reverte, no final, ao miudamente humano. "Só o itabirano recalcitra" (126:2), lemos. Ora, o "deixa-estar" mineiro antecipa a experiência do próprio poeta de "A Máquina do Mundo Repensada", em meio e ao cabo de sua evolução pelas estrelas. Prospecção que, nessas alturas -não apenas pós-drummondianas, mas pós-einsteinianas e, principalmente, adjacentes à teoria da grande explosão, que Haroldo chama, vertiginosamente, o "pré- antes" ( 142:1)- não poderia resultar senão numa perplexa observação do mundo exterior, como é o caso.
Mas, antes de chegarmos lá, o segundo canto, dedicado aos avanços da física clássica rumo à sua relativização, é o do continente de Newton e a maçã, "magna lanterna vermelha" (52:1,2), como a chama Haroldo. E, ato contínuo, o de Einstein. Que nem chega a ser o mais radical na releitura do mapa-mundi, já que, vacilante, ele não vai às últimas consequências de sua própria incerteza, preferindo apostar num deus que não joga dados, um "daimon sabe-tudo" (59:1). Embora esse revolucionário leitor do grande livro do mundo já se saiba num espaço-tempo doravante "encurvado" (55:1;58:2).
Tudo isso antes que, no terceiro canto -o do "bang" (85:1), o do "mega-estrondejar" (87:3; 88:1), o da "explosão parturiente"(84:3)-, em que recorre à menção aos "quanta", cesse, bruscamente, o desfile de hipóteses. Já que, no último verso, onde termina também, secamente, a proliferação sintática inerente à rima, o poema vai "performar" o seu próprio sentido. Encarregando-se aí de dizer a sua própria impossibilidade de dizer: "o nexo... o nexo... o nexo... o nexo...o nex" (153).
Que pensar desse novo Haroldo, cantor da gesta do universo?
Primeiro: de fato, ele não é tão novo assim, apesar de tudo o que vem agora, aparentemente, balançar o concretismo de antes. Tão mais aparentemente, aliás, quanto toda grande poesia, como sempre disse ele, é, necessariamente, concreta. Se admitirmos que as "Galáxias" já realizavam em prosa, para chamar prosa o que ali se apresenta, sob as vestes de uma outra espécie de estranhamento formal que não metrificado, a mesma viagem rumo à mesma infinitude sideral, por via da mesma dispersão lógico-sintática.
Segundo: se é certo que toda essa cosmofísica poética pertence ao classicismo, esse não é o único filão a apontar. Já que do mesmo bojo renascentista de que saem os clássicos vem o barroco, com sua linguagem maior que o mundo. Ora, ninguém ignora quanto nosso poeta vive nesse outro mundo da linguagem. Ele que, ainda agora, é capaz de escrever isto: "Cristalfluidas nonadas comburentes/ a resolver-se em sopa de parcelas" (45:2,3).
Terceiro: dada a brecha aberta pelo formalismo ironizante de Drummond, que a graça envelhecida desse estilo só pode estar sinalizando que ele é a saída possível para uma literatura que, depois de ter buscado ser a mais avançada, entrou em pane de recursos. Ou que essa é a volta de Haroldo septuagenário por cima de seu próprio processo. A volta ...a Ítaca.
Leda Tenório da Motta é professora na Pontifícia Universidade Católica (SP).
A Máquina do Mundo Repensada
Haroldo de Campos
Ateliê Editorial (Tel. 0/xx/11/4612-9666)
102 págs., R$ 30,00