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Inácio Araújo - 68 - Fevereiro de 2000
O Brasil visto de fora
Foto do(a) autor(a) Inácio Araújo

O Brasil visto de fora

O Brasil dos Gringos
Tunico Amancio
Intertexto (Tel. 0/xx/21/617-6536)
214 págs., R$ 20,00


INÁCIO ARAÚJO


Um dia será possível escrever a história do cinema brasileiro a partir da perspectiva do controle da imagem, do desejo mais ou menos explícito de mostrar certas coisas em lugar de outras, de modo a conformar um imaginário capaz de substituir nossas experiências. Esse controle visa, simultaneamente a nós e ao outro, o estrangeiro, pois, como escreveu Paulo Emilio, "a penosa construção de nós mesmos se desenvolve na dialética rarefeita entre o não ser e o ser outro".
00"O Brasil dos Gringos" propõe uma vasta pesquisa sobre a maneira como o Brasil é representado no cinema estrangeiro ao longo dos tempos e, portanto, sobre como são vistos o país e seus habitantes aos olhos desse outro que nos frequenta com tanta intensidade -ou seja, trata-se mais ou menos de observar a "penosa construção" em um espelho.
00Como é de cinema que se está tratando, a imagem a que faz referência o autor não é uma metáfora. Ela é aquilo que toma, literalmente, "o lugar da realidade, se substitui à prática", como esclarece o autor -é, em suma, um controle.
00O centro de seu trabalho consiste no estabelecimento de quatro matrizes que orientam a imaginação estrangeira. A "filiação Pero Vaz" diz respeito ao olhar dos viajantes e é a mais ligada à tradição pictórica. Fazem parte dessa saga os estrangeiros que vieram ao Brasil para filmar o país e seus habitantes (casos de Orson Welles, Marcel Camus, certos filmes de Carmen Miranda etc.).
00A "filiação Essomericq" refere-se à representação dos brasileiros fora do país. A essa linhagem pertencem personagens como o milionário de "Bonequinha de Luxo", de Blake Edwards, ou "Le Brésilien de Paris", de 1906, o mais antigo dos filmes mencionados, e outras tantas obras com Carmen Miranda.
00A "filiação Afonso Ribeiro" é "a única que confere ao Brasil uma função dramática específica, a acolhida aos fugitivos de todas as nacionalidades". A "filiação Utopia", por fim, refere-se ao Novo Mundo como lugar que sugere e alimenta os mais variados sonhos, da busca do Eldorado ao ideal anarquista.
00Já por essa classificação pode-se perceber que o principal interesse do livro consiste, como escreve Ismail Xavier, em "transformar o que se oferece múltiplo e disperso em figuras de contornos claros". Isto é, o autor busca transformar aquilo que se apresenta a nós como intuições do olhar estrangeiro em verificação objetiva sobre o lugar simbólico ocupado pelo Brasil no mundo.
00Para tanto, o autor vale-se de uma ampla amostragem, que abarca filmes realizados no Brasil e outros em que o país é apenas vagamente mencionado (nesses, em geral, como ponto final de vigarices diversas), obras de gênios como Orson Welles ou cretinos como Michele Massimo Tarantino, algumas em que o Brasil é fortemente simbolizado e outras em que é menção quase fortuita.
00O autor opta por não estabelecer uma hierarquia dessas imagens, preferindo buscar no seu conjunto aquilo que esses diversos olhares podem trazer em comum. Assim, a Amazônia surgirá, com frequência, como lugar do enfrentamento entre a civilização (eles) e a barbárie (nós), já que a selva se caracteriza como espaço em que se perdem os últimos resquícios de humanidade.
00Não é difícil inferir daí que o Brasil se apresenta quase sempre como uma massa de clichês nas mentes estrangeiras. Ora seremos pessoas descontraídas, sensuais, vigaristas, ora milionários em cujos braços garotas meio sem destino desejam cair, ora ainda aqueles que acolhem generosamente todos os fugitivos da Justiça, quase sempre pessoas sem muitos princípios. Em suma, o olhar estrangeiro nos atribui uma série de características com as quais podemos nos identificar mais ou menos, embora sejam quase sempre absurdamente reducionistas. (Essa conclusão sugere um questionamento geral sobre a representação do estrangeiro. Pois, se o Brasil se resume não raro a imagens da Amazônia e da baía da Guanabara, não é menos verdade que a França, por exemplo, é representada com insuportável frequência a partir da Torre Eiffel. O outro é sempre um clichê.)
00O mérito maior deste livro é colocar ordem e dar objetividade a esse sentimento difuso que o brasileiro cultiva a respeito de sua própria imagem. Mas não se podem esquecer outros aspectos, não desenvolvidos plenamente (ou nada desenvolvidos) pelo autor e que se abrem para pesquisas futuras.
00O primeiro deles diz respeito à abordagem de que o Brasil é objeto nas mãos de cada cineasta estrangeiro (em particular, aqui, estamos na filiação Pero Vaz). Isto é, o Brasil visto por Orson Welles não é o mesmo de Marcel Camus. O segundo é exótico ("o Brasil visto de Billancourt", escreveu Jean-Luc Godard sobre "Orfeu Negro"), o primeiro, não. Welles está na mesma categoria de um Debret. Ele não vê o Brasil como outro, filma "de dentro" e de certa forma antecipa o cinema novo.
00Sabemos -e a parte inicial do trabalho passa em revista esse aspecto- como e por que os viajantes de séculos passados chegaram ao Brasil. Nem sempre são claros os motivos por que cineastas estrangeiros vêm ao Brasil. No entanto, intuímos a partir do livro que nunca existiu o objetivo de constituir uma imagem do Brasil no cinema estrangeiro, a não ser durante a Segunda Guerra Mundial, com a instituição da política da Boa Vizinhança. É o momento em que Carmen Miranda torna-se figura metonímica da brasilidade, ainda que com frequência contaminada por aspectos que diziam muito mais respeito ao México do que ao Brasil propriamente dito. É também nos anos 40 que Orson Welles vem ao Brasil. Mais tarde, quando Camus realiza "Orfeu Negro", abre caminho a um interesse efetivo dos europeus pelo Brasil, que se consolidaria nos anos 60 com "O Pagador de Promessas" e os filmes do cinema novo. É quando a "filiação Utopia" de certa forma retorna ao Velho Mundo.
00De lá para cá, essa utopia -à força de se mostrar irrealizável- parece ter produzido uma indiferença assombrosa. Deixamos de ser uma terra prometida, inocente e irresponsável, cuja natureza representa uma força em estado eventualmente bruto, mas uma força, para ser um paraíso de bandidos de variadas espécies, lugar de acolhida de salafrários de várias origens, depredadores da floresta etc.
00Se Amancio busca observar nossa imagem de um ponto de vista sincrônico, seu livro sugere um rico material de análise no eixo diacrônico. Por que isso acontece não é uma questão que esteja no horizonte de seu livro. Mas é algo que entrará quase fatalmente no horizonte de qualquer de seus leitores. Respondê-la é parte dessa tarefa penosa de construção de um olhar próprio sobre as coisas, ao fim da qual, talvez, já não dependamos tanto da aprovação do outro para existir.
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Inácio Araújo é crítico de cinema da Folha.

Inácio Araújo é escritor e crítico de cinema.
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