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Joseph Love - 47 - Fevereiro de 1999
O Brasil por dentro
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O Brasil por dentro

JOSEPH LOVE

Devido à intrusão da mídia e ao poder da tecnologia, a vida pública e a privada são mais difíceis de se manterem separadas no século 20 do que em épocas anteriores. Os regimes totalitários de nossa era ameaçaram as diferenças entre as duas esferas, dadas as possibilidades de vigilância eletrônica. O quanto se aproximaram de fazê-lo indicam-no os registros devassados após o colapso da polícia política portuguesa (Pide), em 1974, e o da Stasi da Alemanha Oriental, em 1989. E, nos EUA, a recente avidez da imprensa e do Congresso em expor a vida sexual íntima de um presidente em exercício, aliada ao acesso instantâneo e universal à Internet, indicam uma tendência em obliterar a distinção entre o público e o privado.
Contudo, se nossa espécie busca participar de comunidades, anseia igualmente por privacidade. Este esforço universal subjaz à empreitada em quatro volumes organizada por Fernando Novais, "História da Vida Privada no Brasil", agora completa com a publicação do volume quatro. Inspirado pelos cinco volumes da "Histoire de la Vie Privée", organizado por Philippe Ariès e Georges Duby, este volume final é um projeto ambicioso, juntando especialistas de proa no campo da história, ciências sociais e jornalismo.
Nele, são oferecidas várias definições implícitas de "vida privada", incluindo-se referências a "intimidade" e "cotidiano". Intimidade envolve duas pessoas; privacidade é, em termos gerais, mais excludente, envolvendo um pequeno número de pessoas ou mesmo uma única pessoa. Com base nesta coleção, porém, fica parecendo que o mundo da vida privada é tão vasto quanto outro qualquer. Os ensaios não tratam apenas de intimidade, mas de amplos painéis de história social e demográfica, política e econômica; do impacto social das transformações tecnológicas (em particular as comunicações) e da história da fronteira capitalista (com seus efeitos sobre grupos nativos e camponeses).
Boris Fausto abre a coletânea com "Imigração: Cortes e Continuidades", explorando a inter-relação entre a adaptação do imigrante à nova terra e seus esforços para manter as tradições do país de origem no que toca à vida familiar, alimentação e linguagem; indo além, aponta um problema intergeracional: a ascensão na escala social . Seguindo a literatura disponível, Fausto focaliza antes as ondas iniciais de imigração em massa (italianos, espanhóis, judeus, árabes, japoneses) do que as novas comunidades brasileiras de bolivianos, coreanos, paraguaios e argentinos. Neste sentido, o ensaio constitui um apelo à realização de novas pesquisas. Os portugueses, o grupo mais numeroso dentre os que imigraram para o Brasil neste século, também não se mostram muito visíveis neste balanço -talvez por se combinarem tão facilmente com a paisagem demográfica e cultural.
Maria Lúcia Montes considera a interação entre vida privada e pública na esfera religiosa, enfatizando movimentos das duas últimas décadas em "As Figuras do Sagrado - Entre o Público e o Privado". Tudo é aí tratado, das formas populares e carismáticas do catolicismo às religiões tradicionais derivadas de matrizes africanas. Uma atenção especial é concedida ao protestantismo evangélico, que aparece como oposto ao protestantismo estabelecido e que hoje abarca 11% da população brasileira. Como nos EUA, os evangélicos têm sabido explorar a televisão melhor do que outros credos, e a Igreja Universal do Reino de Deus deu um passo lógico ao comprar a TV Record no início da década de 90.
Da mesma forma que Montes, Lilia Moritz Schwarcz focaliza as décadas mais recentes em "Nem Preto nem Branco, Muito pelo Contrário: Cor e Raça na Intimidade". Schwarcz mostra que, apesar de sutil e ambígua, a discriminação racial continua contribuindo para a estratificação social por detrás das portas fechadas da vida privada no Brasil. O elevador (social e de serviço) ainda separa a população urbana segundo a classe e a raça, apesar de uma lei contrária, datada de 1996. Schwarcz cita estudos recentes sobre raça para inferir que o "racismo cordial" (parafraseando Sérgio Buarque de Holanda) teima em persistir. Conforme uma sondagem realizada em 1998, ninguém admite ser racista, mas todos acham que os outros o são. Mais ainda, as distinções sutis que os brasileiros continuam fazendo quando descrevem a cor da pele de seus concidadãos mascaram a ideologia do branqueamento, endossada abertamente por estadistas da República Velha e ainda presente na mentalidade coletiva.
Em "Para Não Dizer Que Não Falei de Samba - Os Enigmas da Violência", Alba Zaluar estuda as relações entre escolas de samba, bicheiros, o tráfico de drogas e a violência. Documenta como os homicídios triplicaram no Rio de Janeiro durante os anos 80, malgrado o decréscimo da taxa de crescimento populacional urbano. Em 1990, a taxa de mortes por violência no Brasil era o dobro da dos EUA, e tal padrão foi observado antes que as taxas norte-americanas começassem a cair. Em que medida o padrão ascendente de violência se relaciona com a decadência dos serviços sociais e com o desemprego é matéria que necessita explicação mais complexa: se 57% dos homicídios na Grande Rio de Janeiro têm a ver com o problema das drogas, sua explicação com certeza extravasa os limites das redes constituídas por samba, bicheiros e narcóticos.
O que os brasileiros suportaram nos anos 70 sob os generais é considerado em "Carro Zero e Pau-de-Arara: O Cotidiano da Oposição de Classe Média ao Regime Militar", de autoria de Maria Hermínia Tavares de Almeida e Luiz Weis. Os autores ressaltam tanto a insipidez quanto o lado insidioso da censura: os trabalhos de Stendhal e de Tennessee Williams foram censurados, e a autocensura (em parte, devido a razões econômicas) deveria ser combatida conscientemente, como o dramaturgo Augusto Boal corajosamente demonstrou. Enquanto isso, a mídia eletrônica e impressa expandia-se com rapidez. Jornalistas e editores dificilmente poderiam exercer sua profissão sem compromisso e, em consequência, com baixa auto-estima. E, se o regime assassinou menos gente -em proporção à população global- do que o do Chile, o da Argentina ou o do Uruguai, agiu tão fora dos padrões legais quanto aqueles: 84% das vítimas de tortura estudadas em "Brasil: Nunca Mais" jamais se viram diante de um magistrado. Apesar de concordarem que a morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida sob tortura em novembro de 1975, criou uma crise no regime, os autores indicam que interrogatórios letais de trabalhadores continuaram até a morte de Manuel Fiel Filho, vários meses depois.
Elsa Berquó se volta para questões mais obviamente relacionadas à vida privada em "Arranjos Familiares no Brasil: Uma Visão Demográfica", mostrando como casamento, divórcio e separação evoluíram a partir da introdução do desquite em 1942. Entre algumas descobertas memoráveis, acha-se a constatação das melhores possibilidades dos homens em encontrar parceiras para casar, presumindo-se que poucos são os homens que se casam com mulheres mais velhas do que eles: em 1995, no grupo de idade entre 30 e 34 anos, os homens tinham possibilidades de casar três vezes e meia superiores às das mulheres, e na coorte dos que se situam entre 50 e 54 os homens tinham 30 vezes mais chance de casar do que as mulheres. Mudança interessante na população feminina -e um motivo para otimismo- é o declínio agudo na fecundidade, caindo de 6,2 crianças para cada mulher, em 1940-60, para 2,5, em 1991: fato carregado de implicações no que diz respeito ao papel e ao status das mulheres na sociedade brasileira.
"Diluindo Fronteiras: A Televisão e as Novelas no Cotidiano", de Esther Hamburger, aponta que o Brasil é um dos oito países a formar três quartos do mercado televisivo mundial, sendo que os outros sete são nações ricas. Se em 1960 apenas 5% dos lares brasileiros possuíam aparelho de TV, o número em 1991 era de 71%. Além disso, o Brasil importa apenas 23% de seus programas para o horário nobre, o que coloca o país ao lado de quatro outros a importar pouco: EUA., França, Itália e Inglaterra. Hamburger mostra quão habilmente a Globo usou a telenovela, novas tecnologias e laços estreitos com o regime militar a fim de atingir sua posição de quase monopolista na mídia eletrônica.
Ocupando o centro da popularidade da programação televisiva, a telenovela conquista mulheres de todas as classes sociais. Para Hamburger, as telenovelas carregam portanto a possibilidade de diminuir a segmentação social e cultural tão própria à sociedade brasileira. Argumento análogo poderia ser sustentado para espectadores masculinos e partidas de futebol, mas não está claro como ambos os sexos poderiam, em outro contexto, atingir uma segmentação menor.
Angela de Castro Gomes considera como os intelectuais conservadores viram a República Velha e o regime autoritário de Vargas, em "A Política Brasileira em Busca de Modernidade - Na Fronteira Entre o Público e o Privado". A autora utiliza a palavra "privado" num sentido legal, estabelecendo o contraste entre poder público e poder privado. O Brasil era caracterizado por uma "ambiguidade constitutiva", simbolizada, para Alceu de Amoroso Lima, pelas figuras emblemáticas dos senadores Rui Barbosa e Pinheiro Machado. Rui (personificando o "Brasil legal") representava as aspirações por um Estado eficiente e não-patrimonial, e Pinheiro ("o Brasil real") representava o esforço em refrear os excessos do federalismo por meio do disciplinamento das oligarquias tradicionais . Subsequentemente, Oliveira Viana argumentou que a persistência do poder privado requeria um Estado forte e centralizado, tornando-se um intelectual orgânico do Estado Novo.
"Capitalismo Tardio e Sociabilidade Moderna", de João Manuel Cardoso de Melo e Fernando Novais, adota perspectiva um tanto diversa, na qual a vida privada é vista com relação ao consumo privado. O Brasil é mostrado como uma sociedade de consumo ávida, sintetizada pelo Iguatemi, primeiro shopping center de São Paulo (1966) -"um verdadeiro templo de consumo". A sociedade de consumo foi alimentada por uma economia que cresceu rapidamente entre 1967 e 1980. O resultado, infelizmente, foi "a sociedade mais desigual do mundo", na qual ilhas de uma nova classe "yuppie" surgiram num mar de miseráveis.
Em "A Vida Privada nas Áreas de Expansão da Sociedade Brasileira", José de Sousa Martins argumenta que a chegada do poder do Estado em áreas de posse recente coincide com a afirmação de reivindicações não-camponesas à propriedade privada. Ironicamente, a aplicação da lei de propriedade por parte do Estado "suprime violentamente o espaço da vida privada", apesar do fato de a propriedade privada ser o fundamento material do privado.
Conforme afirmação de Souza Martins em outro estudo, os posseiros despossuídos acreditam que suas reivindicações são justificadas por seu trabalho, pois limparam e semearam a terra. Em seguida, o autor passa de temas sociológicos para temas antropológicos, mostrando como os corpos das mulheres na Amazônia demarcam simbolicamente os limites entre o íntimo e o comunitário. A virgindade feminina é um valor supremo -uma atitude, imagina-se, com raízes profundas na estratificação entre os sexos, própria à Ibéria medieval.
Este alentado volume evoca-nos a "History of Modern France", de Theodore Zeldin. Composta por dois grandes tomos, com os subtítulos "Ambition, Love, and Politics" e "Anxiety, Taste and Intellect", essa obra apresenta uma organização temática que facilita o exame da vida privada e mesmo da vida íntima na França, entre 1848 e 1945. Zeldin teve a sorte de encontrar uma literatura monográfica sobre aparentemente todos os aspectos da sociedade francesa. Seus capítulos temáticos são um modelo para o estudo da vida privada no Brasil -"os ricos", "as ambições dos homens comuns", "atitudes para com estrangeiros", "bom e mau gosto", "conformidade e superstição", "moda e beleza", "preocupação, tédio e histeria" e "hipocrisia", ao lado de muitos outros.
Os especialistas brasileiros da "História da Vida Privada" não usufruíram da mesma profusão de fontes, em parte por terem lidado com questões contemporâneas que ainda precisam ser adequadamente pesquisadas. Mesmo assim, o produto brasileiro causa impressão, explorando a vida privada numa variedade de sentidos. O que se perdeu em unidade de visão acha-se mais do que compensado pelo panorama rico e variado, que centenas de fotografias, muitas delas em cores, só faz acentuar.
A escrita da história contemporânea é cheia de perigos e sujeita a revisões mais radicais, por parte das gerações futuras, do que a da história do passado mais distante. Este volume, contudo, demarcou com clareza o panorama para o estudo da vida privada recente, delineando as questões e fornecendo interpretações inteligentes. As contestações do futuro se valerão das vantagens de terem uma melhor perspectiva acerca do que era realmente significativo e de disporem de base arquivística muito mais relevante -o que, presume-se, é de especial importância para a vida privada. Mas o presente volume deve garantir que o nível do diálogo entre a geração presente e as futuras será elevado.



A OBRA

História da Vida Privada no Brasil - Vol. 4
Lilian Moritz Schwarcz (org.) Companhia das Letras (Tel. 011/868-0801) 856 págs., R$ 48,00 



Joseph Love é professor de história e diretor do Centro de Estudos Americanos na Universidade de Illinois (EUA). Autor, entre outros, de "O Regionalismo Gaúcho e as Origens da Revolução de 1930" (Perspectiva), "A Locomotiva: São Paulo na Federação Brasileira" e "A Construção do Terceiro Mundo: Teorizando o Subdesenvolvimento na Romênia e no Brasil" (Paz e Terra).

Joseph Love é professor de história e diretor do Centro de Estudos Americanos na Universidade de Illinois.
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